Cadeirante do Santa Marta perde ano letivo por paralisações de bonde

Moradora da comunidade perdeu 30 dias de aulas só em junho. Prefeitura nega pane na época

Por O Dia

Rio - A expectativa de Brenda Victória Souza, de 19 anos, era concluir o 2º ano do Ensino Médio em dezembro e começar a se preparar para os concursos públicos no ano que vem. Mas, devido às recorrentes paralisações do plano inclinado do Morro Santa Marta, em Botafogo, onde mora, a jovem, que é paraplégica, acaba de receber a notícia de que seus planos terão de ser adiados. Brenda foi comunicada pela direção do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, na semana passada, que está reprovada por ter ultrapassado a tolerância de faltas no ano letivo. 

Brenda Victória Souza%2C de 19 anos%2C com a mãe Josefa Figueiredo e o plano inclinado do Santa Marta%3A sonho de concluir Ensino Médio e se preparar para concursos em 2015 é adiadoMárcio Mercante / Agência O Dia


A diarista Josefa Figueiredo, 53, mãe da cadeirante, lembra que se mudou, em 2009, de outra localidade onde morava no Santa Marta para um prédio ao lado da Estação 3 do bonde, inaugurada um ano antes. Ela acreditava que a mudança garantiria à filha o pleno direito de deslocamento. Mas não foi bem assim.

“Minha filha já perdeu vaga para fazer fisioterapia na ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação), no curso de inglês e, agora, um ano de estudo, porque faltou demais”, reclama a mãe, que guarda os boletins de ocorrência registrados na 10ª DP (Botafogo) para comprovar o motivo das faltas de Brenda.

Segundo Josefa, a filha perdeu as provas do segundo bimestre porque o transporte teria ficado sem funcionar 30 dias em junho. “Depois disso, (o bonde) sempre parava dois, três dias. Chegou uma hora que ela não teve mais ânimo para continuar indo, porque, quando começava a acelerar, o bonde parava.”

A Empresa de Obras Públicas do estado (Emop) negou que o bonde tenha parado por um mês em junho e ressaltou que o sistema tem operado sem interrupções. O órgão informou ainda que, mesmo durante manutenções, o sistema é acionado quando há um passageiro com necessidades especiais.

Com receio de que a filha continue dependente das incertezas do transporte local, Josefa pleiteia, junto ao Ministério Público, uma moradia em local de acesso facilitado para Brenda ter o direito de ir e vir garantido. “Quero ser independente, arrumar um emprego. Fiquei chateada quando perdi o ano, porque não vou mais começar o preparatório para o Tribunal Federal em 2015”, lamenta a jovem.

Em nota, a Secretaria de Estado de Educação solicitou que “a mãe entre em contato com a direção da escola, localizada no Largo do Machado, para verificar o que pode ser feito em relação à reprovação”. A pasta acrescentou que “a direção da escola deve ser informada sobre qualquer problema enfrentado pelos alunos.” 

População sofre transtornos toda segunda e terça

Os moradores relatam que o bondinho do Santa Marta deixa de funcionar para manutenção pelo menos todas as segundas-feiras, entre as estações 1 e 3, e terças, entre as estações 3 e 5, no topo do morro. Ainda segundo eles, o transporte não tem funcionado no primeiro trecho de meio-dia até as 15h.
Para o guia turístico local Thiago Firmino, as manutenções deveriam ocorrer à noite para não prejudicar a população. Afinal, a base e o topo da favela mais íngreme do Rio são separados por nada menos do que 788 degraus e 195 metros de altura. “Por que não param um dia, trazem todos os mecânicos e resolvem os dois trechos de uma vez? No Pão de Açúcar, a manutenção acontece a noite inteira. Plano inclinado não é luxo para turista subir, é transporte público. Imagina se a cidade cortar os ônibus das ruas. Como as pessoas vão chegar em casa?”, reflete.

A comerciante Andréia Miranda sente no bolso os prejuízos de quando o bonde não funciona, já que os turistas não sobem a pé até a estação 3, onde fica sua loja. Ela se preocupa principalmente com os idosos, gestantes, deficientes e as pessoas que passam mal e precisam do transporte. Os moradores também reivindicam o funcionamento noturno para atender a casos de urgência.

A Emop alegou que as manutenções ocorrem a cada 15 dias, segundas e terças-feiras, mas a paralisação não tem sido necessária. Segundo o órgão, ficou decidido, em reunião com os moradores, que a manutenção seria feita das 12h às 15h no último mês.