Playground está de cara nova para adultos e crianças modernas

Mudança na concepção de prédios deve-se à internet, economia e prevenção à violência

Por O Dia

Rio - Se a tendência de comportamento se confirmar, os dicionários de língua portuguesa terão de revisar o significado da palavra ‘playground’ nas próximas edições. Idealizado na década de 1970 exclusivamente para crianças e adolescentes se esbaldarem em brincadeiras coletivas, os plays de prédios residenciais agora são dedicados a uma outra tribo que fez questão de entrar no jogo: os adultos.

São uns tais de espaço gourmet, espaço fitness, espaço lounge, espaço sauna... haja espaço para gente grande nos novos playgrounds! A garotada também é contemplada no pacote de divertimento, mas, verdade seja dita: em proporções menores que o dedicado à galera na faixa etária dos 28 aos 40 e poucos anos, público maioritário na compra de imóveis em prédios que já oferecem esse tipo de serviço.

“O ramo imobiliário sempre está atento a transformações na sociedade e procura se adequar às novas demandas”, frisa Márcio Pegado, diretor de marketing da Júlio Bogoricin Imóveis. Uma das percepções foi a de que, na última década, a garotada a partir dos 7 anos de idade não frequentava mais o play como outrora, quando o espaço ficava apinhado de guris. Eles já estavam em outra praia: surfando na internet.

A comerciante Simone Rose Silva desfruta todos os dias do espaço fitness no prédio onde mora%2C em São Cristóvão%2C e economiza com mensalidade de academia de ginástica José Pedro Monteiro / Agência O Dia

“Aos 10 anos parei de brincar no play. Era a época do Orkut e eu ficava o tempo todo em casa, no computador. Agora é mais ainda. A galera fica direto no celular, no tablet, acessando as redes sociais, e não vai muito ao play”, admite Beatriz da Silva Alves, de 15 anos, que há quatro se mudou com os pais e duas irmãs para um desses edifícios modernos, em São Cristóvão.

Que o diga Maria Orlanda Xavier Pereira, de 82 anos, síndica do condomínio onde mora há 30 anos, no Grajaú, e que ainda mantém o playground engessado no antigo conceito de espaço exclusivo para a criançada. “Aqui vivia apinhado de crianças. De uns anos para cá, ficou desértico”, constata a síndica.
Na opinião da mãe de Beatriz, a comerciante Simone Rose Silva, de 42 anos, outros ingredientes foram adicionados à questão da baixa frequência na área de lazer.

“Segurança, economia financeira e comodidade influenciaram muito a nova concepção de playground”, arrisca Simone. “Nossos amigos vêm para cá. Usamos o espaço gourmet ou o espaço da churrasqueira, encomendamos umas comidinhas e bebidas. No final, os convidados pegam táxi na porta e vão para casa. Nos divertimos, sem preocupação com assaltos ou a Lei Seca”, completa a comerciante.

Outro ponto favorável apontado por condôminos é a economia financeira. “Não preciso ser sócia de clube para desfrutar de piscina, nem pago academia. Também não preciso levar minha filha a parquinho, já que no play tem brinquedoteca”, alegra-se a secretária Bárbara Almada, que mora em Jacarepaguá.

Há ‘plays’ com lan house e sala de videogame para atrair a garotada

O novo modelo de lazer em playground, implantado inicialmente nos bairros mais nobres do Rio como Barra, Recreio dos Bandeirantes e alguns na Zona Sul, se desenvolve em larga escala na Zona Norte e já é encontrado em edifícios no Cachambi, Méier, Tijuca, Grajaú, São Cristóvão e Vila Isabel, entre outros.

Para atrair a garotada acima dos 7 anos, tem play que conta até com lan house, sala de videogame e garage band - um espaço com instrumentos musicais. Para os pequenos são oferecidos divertimentos como a brinquedoteca — um pequeno espaço com brinquedos para meninos e meninas.
Quase todos os novos plays têm piscina infantil e de adulto, que é um dos principais atrativos para filhos e pais na hora de fechar o negócio. “Eu, por exemplo, comprei a academia. Minhas filhas compraram a piscina”, afirma Simone Rose Silva

Síndica do prédio onde mora%2C Maria Orlanda sente falta das crianças no playJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

“O ideal dessas superestruturas modernas é que elas atendem a toda a família, com segurança, economia e diversidade de lazer. Esse é o diferencial na hora da compra”, analisa Márcio Pegado, da Julio Bogoricin.

Pelo andar da carruagem, quem sabe as próximas edições de dicionários da Língua Portuguesa definam playground como “espaço reservado para o recreio de pais e filhos, com brinquedos para todas as idades”. É esperar para ver.

?'Tendência só não pode ser opção ao medo do mundo'

?O psiquiatra Elson Mota, da Clínica de Medicina e Comportamento, analisa a nova tendência e afirma que pode ser uma alternativa na questão da praticidade exigida nessa época de ansiedade e falta de tempo. Mas alerta para o perigo de as pessoas verem nessas superestruturas de playground uma opção ao medo do mundo.

“Se a escolha for pela convivência nesses espaços, que elas possam de fato realizar e cultivar essa convivência, sem perder de vista as possibilidades que existem fora dos nossos muros de segurança. Mais uma vez, equilíbrio é tudo”, pondera Mota.

Professora da PUC-RJ, a psicóloga Teresa Negreiros acredita que o exercício da criatividade infantil não se encerra por causa da internet.

“É apenas uma nova cultura, uma mudança de direção. A infância também mudou. As crianças agora viram adultas mais precocemente e já não precisam mais de tanto espaço para brincar. Por outro lado, na atual dinâmica da família, os pais ficam menos na companhia dos filhos. É natural que busquem formas de lazer que incluam a todos, como forma de compensar a falta de tempo para estar com os filhos”, diz Negreiros.

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