Igreja acolhe filhos de gays

Batismos de crianças de casais homoafetivos são cada vez mais aceitos em templos católicos

Por O Dia

Rio - Apesar de ser contra o casamento gay, a Igreja não se opõe ao sacramento do batismo aos filhos de uniões homoafetivas. Casos como o dos gêmeos Natalie e Valentin — filhos biológicos do casal de empresários Marco Aurélio Lucas e Roberto de Souza Silva, gerados com ajuda de uma barriga de aluguel nos Estados Unidos —, que foram batizados aos pés do Cristo Redentor, como O DIA mostrou ontem, são cada vez mais comuns no universo LGBT.

Marco e Roberto%2C com Valentin e Natalie%3A sonho que levou um ano e meioMaíra Coelho / Agência O Dia

“Recentemente, houve um batizado de quatro crianças, filhos de uma união homoafetiva, em uma igreja no Méier”, conta a advogada Silvana do Monte Moreira, secretária-executiva da Comissão Estadual Judiciária de Adoção do Estado do Rio (Ceja).

Segundo ela, há pelo menos dez anos, uma convenção de bispos nos Estados Unidos já liberava que a Igreja batizasse filhos de homossexuais. “O documento dizia que não se pode negar o sacramento do batismo aos filhos, que não podem ‘pagar pelos pecados dos pais’”, disse. “O batismo é para todos”, declarou Padre Omar Raposo, pároco do Santuário do Cristo, ao justificar a concessão do sacramento aos gêmeos americanos, filhos do casal de brasileiros.

Em junho deste ano, um documento divulgado pelo Vaticano mostrava que a Igreja Católica Romana deve “receber os filhos de casais homossexuais na fé com igual dignidade”. O documento é mais um sinal claro da disposição da Igreja em abrir um novo diálogo com esse público. Em sua visita ao Brasil, em julho de 2013, o Papa Francisco sacudia a comunidade gay internacional com a declaração: “Se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, quem sou eu para julgá-la?”

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Para Marco e Beto, católicos, a bênção da Igreja aos filhos é uma conquista tão importante quanto o reconhecimento legal da paternidade, sem intervenção judicial, obtida com a certidão do Consulado do Brasil nos EUA em nome dos dois pais. “Isso só foi possível porque a barriga de aluguel é regulamentada lá. Por isso optamos por esse caminho”, contou Beto.

‘Se adotar fosse mais fácil, muita gente não precisaria sair do país’

É cada vez mais comum a procura de casais brasileiros — gays ou heteros — por inseminação artificial, com ajuda de barrigas de aluguel. Os países mais procurados são Estados Unidos — onde o método é legalizado nos estados da Califórnia e Flórida —, Tailândia, Índia, Ucrânia e México. Em novembro, os mineiros Pedro Maciel Filho e Janderson Lima voltaram da Tailândia com as gêmeas Luísa e Valentina. Em fevereiro de 2015, eles retornarão àquele país para buscar Victor, que ainda vai nascer. Diferentemente de Beto e Marco, eles contrataram duas barrigas de aluguel.

“Se o processo de adoção no Brasil fosse mais agilizado, muita gente não precisaria sair do país para ser pai ou mãe”, diz Silvana Monte. Segundo ela, o que deveria levar no máximo 120 dias pode levar quatro anos. “Chegamos a pensar em adotar, mas desistimos quando vimos que seria muito demorado e burocrático”, diz Beto. “Além do mais, nosso sonho mesmo era ter filhos biológicos.”

A realização do sonho começou em dezembro de 2012, quando procuraram uma agência britânica especializada em barrigas de aluguel. Primeiro, coletaram os sêmens, que ficaram congelados. Depois, selecionaram a doadora dos óvulos, por meio de um catálogo virtual. A partir daí, começou a escolha da barriga de aluguel. “A primeira desistiu, pois, por serem gêmeos, o risco era mais alto”, conta Marco.


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