Por thiago.antunes
Rio - Uma nova modalidade de abastecimento d’água nasce no Complexo da Penha. Saem os canos subterrâneos e entram as mangueiras. No céu do Parque Proletário, um emaranhado de fios de eletricidade se mistura a centenas de borrachas, que saem de bombas direto para as casas. O improviso é resultado da carência de água que a comunidade sofre há quatro anos. A Cedae informou que vai enviar técnicos ao local para apurar detalhes do problema.
As casas que ficam no alto do Parque Proletário são as mais prejudicadas pela escassez. Para sair água na torneira, é preciso de uma força-tarefa que começa já na madrugada. “Esperamos chegar em alguma casa no pé da comunidade. Então ligamos a mangueira na bomba e vai direto para a caixa. Esse processo todo demora umas quatro horas e tem que ser feito na madrugada porque corre o risco da água acabar antes”, explica o morador João Ribeiro Neto, de 65 anos.
Desde a conclusão das obras do PAC, o reservatório da Cedae, que seria a solução para o abastecimento, está sem água. Segundo morador, entrará em funcionamento dia 30 Bruno de Lima / Agência O Dia

Na vizinhança de João, as casas precisam de, pelo menos, 600 metros de mangueira. “Há borracha espalhada pela comunidade toda. Dividimos por cores para não dar confusão”, completou. Nos mais de 4.500 domicílios do Parque Proletário, o abastecimento era feito com apoio da Associação de Moradores. Ao lado da sede, que fica na parte mais baixa da comunidade, uma casa de bombas d’água da Cedae era responsável pela distribuição da água para todas as casas. Cada domicílio pagava uma taxa que custava em torno de R$ 10 para ter a caixa cheia.

Com a pacificação, em 2010, vieram as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) com a promessa de regularização no abastecimento. Mas tudo ainda continua na promessa. “Queremos ter a água regularizada, é nosso direito”, declarou o presidente da Associação de Moradores do Parque Proletário, Celso de Souza Campos.

Desde a conclusão das obras do PAC, no início deste ano, um reservatório da Cedae permanece intacto, e sem água, na praça principal da comunidade, a São Rucas. O espaço, que tem capacidade para um milhão de litros, seria a solução para o fim das torneiras secas.

Moradores usam borrachas de cores diferentes para que não haja confusão nas ligaçõesBruno de Lima / Agência O Dia

“Temos a garantia de que o reservatório será inaugurado pra valer no dia 30 deste mês. Eu digo sempre que, se o prazo for cumprido, faço questão de subir no topo do reservatório para comemorar a entrada em funcionamento”, afirmou Celso.

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Improviso que virou solução
Era para ser uma medida para solucionar o problema a curto prazo, mas as mangueiras ganharam de vez o Parque Proletário. No início da crise de falta d’água, em 2010, alguns moradores começaram distribuindo de forma tímida as borrachas pelas ruas, mas, com o passar dos anos, o novo sistema de abastecimento cresceu de maneira desenfreada.
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“Só as casas no pico colocavam mangueiras, mas hoje, até no pé da comunidade tem borracha”, contou o estudante Luciano Garcia, de 34 anos. Até o ano passado, as mangueiras ficavam pelo chão, ao lado do meio fio, mas por segurança, elas precisaram ir para os postes.
“É que alguns policiais da UPP cortavam as borrachas porque tropeçavam durante as operações. Então os moradores resolveram colocar para cima”, acrescentou Luciano.
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A chegada do verão é a época mais temida no Parque, pois o consumo de água aumenta e a falta dela é ainda mais frequente. “No verão passado ficamos sem água por 15 dias. Nem a bomba resolveu”, relembrou Marilene Santos, 55 anos. Em nota, a Cedae não comentou a distribuição através das mangueiras e informou apenas que vai enviar um técnico no local para vistoriar o sistema.
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