William da Rocinha acusa deputado, policiais e o MP pela sua prisão

Líder comunitário foi capturado sob a alegação de ter ligações com Nem, que chefiava o tráfico na favela

Por O Dia

Rio - Absolvido no início do mês pelas acusações de tráfico de drogas e associação para o tráfico, o ex-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, William de Oliveira, deu uma entrevista exclusiva contundente revelando pela primeira vez a sua versão, onde acusa um deputado, policiais e o Ministério Público pela sua prisão sob a alegação de ter ligações com Nem, chefe do tráfico na Rocinha preso em 2011.

Ex-colega de turma de Amarildo, ele denuncia a promiscuidade existente entre políticos, traficantes e líderes comunitários, e diz que a sociedade tem que discutir a fundo a forma de combater o crime organizado, a legalização das drogas e a política das UPPs.

Conte um pouco, para quem não te conhece, da sua história na Rocinha.

Sou nascido e criado na comunidade. Hoje estou com 43 anos. Tive uma infância difícil. Minha mãe é empregada doméstica e meu pai é pedreiro. Até hoje. Sou de uma família como muitas outras, que buscam dar sustento e educação aos filhos. E agradeço a Deus por poder ter desfrutado de muitas coisas que os jovens de hoje não fazem mais. Joguei bola, soltei pipa, rodei pião, joguei bolinha de gude, comi batata doce assada na brasa batendo papo com amigos. Não tinha telefone, nem internet. A onda era ir na mata pegar jaca, goiaba, cajá, abiu, jambo, jamelão. Nossa vida era essa.

William da Roconha acusa um deputado%2C policiais e o Ministério Público pela sua prisão sob a alegação de ter ligações com NemFabio Gonçalves / Agência O Dia

E você estudou? Começou a trabalhar quando?

Completei o segundo grau (atual ensino médio). E comecei a trabalhar com 14 anos vendendo roupa de porta em porta, aos sábados e domingos. Depois comecei a entrar para o mundo da música, quando ganhei meu primeiro disco, Planet Rock, da Soulsonic Force (de Afrika Bambaataa), um funk famoso que toca até hoje. Comecei trabalhando nas equipes de som até virar DJ de música lenta. Nem sabia o que era política ou onde era a associação de moradores. Era o DJ William da Rocinha.

Tive o prazer de colocar a primeiro rádio FM da Rocinha no ar. Trabalhei em programas que foram líderes de audiência, com gente que era mais conhecida que nota de um real. Fizemos vários festivais de galera na Rocinha, era uma coisa de louco. Bailes que mudaram a vida de muita gente. Criei uma história na comunicação da Rocinha, primeiro nas rádios, depois na associação de moradores, onde comecei como diretor de eventos, em 1999.

E quando se tornou presidente da associação de moradores?

No fim de 2003. Tomei posse em 2004 e fiquei até 2007. Na minha gestão conquistamos muitas coisas, como o PAC, por exemplo, o Programa de Aceleração do Crescimento. Foi uma eleição histórica, uma exemplo de democracia na Rocinha, com várias chapas participando por vontade própria, sem receber dinheiro de ninguém, como acontece hoje.

Mas você tomou posse e a Rocinha entrou em guerra.

Sim, em feveireiro de 2004, a Rocinha quando morreram aqueles três meninos, Jean, Lineker e Leandro. Teve repercussão internacional. Eles foram criminalizados como traficantes, como aconteceu comigo depois, e eu fiz de tudo para mostrar o contrário. O governo falava que eles eram traficantes, a imprensa não nos ouvia, ou tudo o que a gente falava não saía na mídia. Então, eu reuni as famílias, juntei a documentação dos rapazes que provavam que eram pessoas de bem, e coloquei as famílias para falar. Isso mudou o rumo da história. Até a governadora na época, Rosinha Garotinho, veio a público pedir desculpas e dizer que estava equivocada. O que não adiantou nada, porque até hoje o Estado não indenizou as famílias. Mas dali para frente, para mim, tudo mudou.

Mas não fica parecendo conversa para boi dormir dizer que largou a música do para fazer um trabalho comunitário?

Era melhor ter paz do que qualquer outra coisa. Mas não é que eu não ganhava nada. Eu ganhava, por exemplo, R$ 5 mil e passei a ganhar R$ 1.300 na associação, sem roubar. Se eu roubasse, ganharia mais. Mas não roubava. Por isso marquei história lá. Quem trabalhou lá, sabe. Tínhamos mais de 20 diretores, todos remunerados, que faziam tudo o que a comunidade precisava.

Aquela guerra só não foi pior porque eu, modestamente, contribuí muito como mediador. É muito fácil falar em mediar uma ocupação. Quero ver é mediar duas facções em guerra e polícia do outro lado. Eu que falei para a polícia não subir a favela naquela madrugada de 2004 senão haveria uma chacina sem precedentes, tipo Vigário Geral.

Mas você foi preso na época por gravações telefônicas que mostravam sua ligação com o tráfico, não com a polícia.

Cara, numa boa, naquela guerra eu fui um herói. Se outras vidas não foram ceifadas é porque eu mediei aquele conflito com a polícia e com o crime. Principalmente a polícia. Essas escutas é que deveriam ter sido divulgadas. Eu fiz com que a polícia não entrasse até pela vida dos PMs, porque eram sei lá quantos mil homens armados na Rocinha. A guerra era entre eles. Era preferível deixar o dia clarear e as coisas se acalmarem. E os próprios traficantes diziam que não queriam matar policiais, mas resolver os problemas entre eles. Só que se a polícia entrasse eles diziam que ia dar problema. Mas essas gravações ninguém mostra.

'Eles editaram o vídeo%2C basta ver que diz o delegado Alexandre Herdy no meu processo. E entregaram este vídeo ao deputado ligado a eles'Fabio Gonçalves / Agência O Dia

E por que você acha que editaram as gravações para te incriminar?

Porque eu tive uma grande discussão com as autoridades na época, o secretário de Segurança, que era o Anthony Garotinho, com alguns tapas na mesa. O subsecretário de Segurança Marcelo Itagiba dizia que eu era muito abusado e poderia ser preso. Na frente do Rubem Cesar, presidente do Viva Rio, do doutor (advogado) Jorge Hilário de Gouveia. E foi o que aconteceu um mês depois.

Como foi?

A história que eu soube é que havia uma equipe da 16ª DP que fazia mineração (extorsão) na Rocinha, e que faziam várias escutas. E entregaram estas escutas ao Álvaro Lins, então chefe de Polícia Civil. Em juízo eu disse à juíza que a voz era minha, mas parte do que estava no áudio não era. Nas gravações, eu pedia ao traficante Bem-Te-Vi para entregar os fuzis senão ia entrar tanque de guerra e tudo na Rocinha. Mas nem sabia se ia entrar ou não, era um blefe. Que acabou dando certo porque eles entregaram. E isso evitou a morte de muita gente.

A outra é que encontrei ele na rua, ia rolar a festa da associação e eu, de conversa fiada, perguntei se ele não poderia patrocinar, dar uma ajuda. Papo de dia a dia na favela, para fazer a social, brincar com ele, que sempre foi conhecido por ser mão de porco (pão-duro). E assumi isso também, não tem nada demais. E acabei preso, mas graças a Deus há policiais diferentes, honrados. A delegada Marina Magessi, chefe da Polinter, me chamou, me ouviu, investigou, revirou minha vida toda, foi na minha casa, viu como eu morava, que não era bandido. Ela virou até minha testemunha de defesa, hoje é minha amiga. A Justiça revogou a minha prisão e entendeu que eu não oferecia risco à ordem pública, muito pelo contrário. Eu era um contribuidor da ordem pública.

Foi a partir dali que começou sua ligação com o Viva Rio?

Sim, procurei o Carlos Costa, que é jornalista, fizemos uma reunião com o coronel Ubiratan Ângelo, que era o comandante do 23º BPM na época, com o comandante Hudson de Aguiar, um homem de caráter que existiu dentro da Polícia Militar e sempre esteve presente quando a Rocinha precisou. O policial é um servidor público e eles sempre atenderam a comunidade com excelência. Houve uma ocupação na época com 1.500 homens que resolveu uma série de problemas da comunidade, só para citar um exemplo.

E isso não te criava problemas com os traficantes?

Eu fui eleito pelos moradores da Rocinha, não pelos traficantes. Hoje, se bobear, são eleitos presidentes de associação pelos traficantes. Eu não fui.

Mas os traficantes são moradores da Rocinha.

O traficante tem que entender que quando eu faço um bem para a comunidade, é também para ele. Mas é tudo uma questão política. Se o candidato do tráfico perdeu e eu ganhei, sou visto como uma ameaça a ele, como X-9, sei lá. E por isso fui perseguido. Mas eu sempre fui um adversário político, nunca fui inimigo. Porque adversário político o tráfico enfrenta, inimigo ele elimina.

E como se deu sua aproximação com os políticos?

O Luiz Paulo Conde, quando foi secretário de Meio Ambiente e vice-governador, participou de vários fóruns que ajudaram a montar o plano urbanístico da Rocinha. E ele me apresentou ao Sérgio Cabral, que ainda era senador e seria candidato a governador. Expus para ele o projeto e ele gostou. Um projeto de R$ 80 milhões. Ninguém na favela acreditava, isso nunca tinha acontecido. Ele gostou do projeto e até me chamou para a posse dele, que foi onde conheci o ex-presidente Lula, que veio falar comigo e a minha vida deu, então, uma grande guinada. As fotos saíram em todos os jornais.

De que maneira se deu essa guinada?

Quando acabou o meu mandato na associação de moradores, fui trabalhar na Faferj (Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio), com uma mão na frente e outra atrás. Nem dinheiro para pagar a passagem eu tinha. Foi quando a vereadora Andrea Gouveia Vieira, que tinha uma ONG na Rocinha, me nomeou para o gabinete dela e comecei a trabalhar firme.

E foi candidato em 2010?

Em 2010 me desvinculei do gabinete para ser candidato a deputado. O vereador Claudinho da Rocinha havia morrido, mas eu não quero falar sobre ele porque já está morto. A história dele está na internet para quem quiser ver. Ele foi o candidato único da Rocinha em 2008, todo mundo sabe disso. Na campanha, as pessoas que trabalhavam comigo aos poucos foram saindo, um por um. E aí eu soube o que estava acontecendo, quais os candidatos que tinham o apoio do Nem.

'Fui o primeiro líder comunitário a dizer que a pacificação era uma esperança%2C mas se tornou um pesadelo na vida de muitas pessoas'Fabio Gonçalves / Agência O Dia

Quem são?

Basta procurar na internet que todo mundo vai ver. Eu não tenho que falar sobre ninguém. É público. Mas na verdade até o Nem foi usado por essas pessoas. Por pessoas que levaram para ele um artigo que escrevi no O Globo dizendo que associação de moradores deveria ser independente. Nem controlada pelo tráfico, nem pela polícia. Ele ficou chateado e acabou me perseguindo através dessas pessoas. No último mês de campanha eu já não podia trabalhar dentro da Rocinha.

Você diz que foi perseguido pelo tráfico e pela associação de moradores, mas foi preso por um vídeo recebendo dinheiro do tráfico junto com o pessoal da associação de moradores! Como foi isso?

No último dia da campanha de 2010, fiz panfletagem no Vidigal, não podia fazer na Rocinha, liberei a rapaziada, fechei o comitê e fui para casa. Quando cheguei em casa, mandaram eu falar com o Nem, dizendo que se eu não fosse ele iria me buscar em casa. Eu disse que não iria, mas minha esposa mesmo pediu para eu ir, com medo de acontecer alguma coisa. E acabei indo. Eram umas 20h, e fiquei até 1h da manhã. Já havia uma mesa cheia de bebida deles, e água para mim, que sou evangélico. Falamos de política, futebol, religião, até que ele chegou e disse "pô, tô querendo de ajudar na eleição". Eu agradeci, disse que não precisava, que já tinha até dispensado o pessoal e tudo. Ele insistiu: "pô, dinheiro da burguesia você aceita e da gente não?". A situação ficou esquisita e eu achei melhor pegar o dinheiro e ir embora, porque estava achando esquisto também ele pegando no telefone toda hora. Eu achei que tinha alguma coisa errada ali. Tava um clima estranho.

E fez o quê depois da reunião?

Fui para casa e comecei a chorar porque sabia que tinha ido contra os meus princípios, contra o pessoal de todas as igrejas evangélicas da Rocinha, que me apoiavam e por quem eu não poderia fazer aquilo. Só que eu quero ver quem é o herói dentro da favela que vai receber uma ordem do traficante e não cumprir. É muito fácil falar que não vai cumprir sem receber uma ordem. Quando recebe, eu quero ver se cumpre ou não cumpre. Oficial de Justiça manda intimação. Traficante manda ordem.

E o que aconteceu depois?

Em março de 2011 saiu uma matéria no DIA mostrando que uma rua havia sido fechada pelo tráfico. E aí a gente vê que o pior criminoso é o que usa a caneta, não o que usa a arma. O que usa arma é fácil de ser pego, pior é lidar com pessoa com ficha limpa e está dando as ordens. Se você comanda 500 homens e alguém comanda você sem uma arma na cintura... essa pessoa merece é mais perigosa ainda.

O que você quer dizer com isso?

Que a assessoria de um parlamentar que todos sabem quem é que fez chegar ao Nem que eu havia passado a foto para O DIA através da vereadora Andrea Gouvea Vieira. Essa informação, inclusive, colocava a minha vida em risco. O Nem, então, me chamou de novo e me mostrou o vídeo daquele encontro em que ele me deu o dinheiro.

E você acha que o Nem entregou este vídeo para a polícia? Ele produziria prova contra ele mesmo? Não é uma versão fantasiosa?

Bem, foi a Justiça que entendeu assim. Os desembargadores. Não sou apenas eu que estou falando. Não é a minha desculpa ou versão.

E por que ele faria isso?

Para me paralisar politicamente. Na verdade, ele nunca quis usar este vídeo criminalmente. A intenção dele era me constranger e intimidar quando eu causasse algum problema para o grupo dele. Era uma carta na manga que ele tinha contra mim.

E por que você não denunciou isso?

Com medo do que pudesse acontecer comigo. Se eu contasse para a minha esposa, ela contaria para a Andreia Gouveia Vieira, para o Marat Troina, vice-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Se sai no jornal que líder comunitário denuncia traficante, eu nunca mais entro em favela nenhuma, não apenas na Rocinha. Ia virar "o cara que denunciou o Nem" e minha vida iria acabar. Ia morar onde? Na Barra? Com que dinheiro? Eu não posso ser inimigo de traficante.

Você não temia que esse vídeo te comprometesse?

Não. Achei que as pessoas fossem acreditar em mim se o vídeo vazasse, que fossem me ouvir, me dar o direito de defesa. Mas nada disso aconteceu. E antes eu não podia falar nada. Para quem está fora da favela, é fácil falar. Ainda mais agora que as pessoas acham que está tudo pacificado, mas a gente que vive lá dentro sabe o que está acontecendo.

E o vídeo vazou depois da prisão do Nem?

Quando ele foi preso, eu levei toda a Comissão de Direitos Humanos à Rocinha acompanhando a ocupação para implantação da UPP. Foi quando começaram os problemas. O DIA até deu uma matéria mostrando uma discussão minha com o Léo, da associação de moradores, que chegou para mim e falou: "ó, se a gente quiser, a gente te ferra com aquele vídeo". Eu falei que pagava para ver. E fiz uma reunião onde disse que entraria com um processo no Ministério Público para tirar esse pessoal da associação. Mas no dia seguinte a polícia estava na minha porta.

Eles entregaram o vídeo para a polícia?

Eles editaram o vídeo, basta ver que diz o delegado Alexandre Herdy no meu processo. E entregaram este vídeo ao deputado ligado a eles com a intenção de me tirar do caminho deles. E o deputado já tinha a quem entregar. Ele entregou a uma equipe da polícia onde um dos policiais foi preso durante o governo Garotinho após denuncia do presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, que é parente da Andrea Gouvêa Vieira, que é minha amiga. E este policial queria se vingar da Andrêa e incluí-la nisso. Este policial, que segura a minha cabeça na hora da minha prisão, é ligado ao deputado. Aí tudo vai se encaixando. Forjaram tudo.

É uma situação muito, muito grave ver um deputado envolvido com policiais para prejudicar um trabalhador. E aí me faz pensar que eles podem estar envolvidos nisso desde o início da gravação. E estas pessoas usam o Ministério Público; Da minha prisão preventiva por associação para o tráfico para a prisão temporária colocaram tráfico, formação de quadrilha e uma porção de coisa. Me bucharam numa porção de processo e depois disseram em juízo que se equivocaram. Só que por este equívoco eu já estava preso há dez meses. E ficou por isso mesmo, porque a juíza concordou com tudo. Ela foi muito infeliz. Na véspera do Natal.

E como foram os dias na cadeia?

(Chorando) Até preso continuei perseguido. O subsecretário de Tratamento Penitenciário, Marcos Lips, hoje é chefe de gabinete deste deputado. Eu morava num cubículo com 60 pessoas, e na véspera de Natal, 24 de dezembro me colocaram num isolamento, sem visita, sem poder desfrutar da Ceia. Minha mãe fala que o filho dela, eu, mesmo preso, foi preso de novo sem fazer nada. Preso duas vezes. Não tem preço que pague uma humilhação dessa. Abalou minha vida, meu casamento, minha carreira política que estava começando.

E você acha que fizeram isso para manter o curral eleitoral na Rocinha?

Isso. Quem convence um cara que comanda um exército a sentar diante de uma câmera e se deixar ser filmado é mais perigoso que esse cara. O poder da palavra, da persuasão, é pior do que o da arma. Eu ainda estou tendo a sorte de poder contar essa história. Quantos não puderam em várias favelas por aí? Muitos.

E o que você pretende fazer daqui para a frente?

Viver em paz. E dar paz à minha família. Fui acusado de tanta coisa e ando de ônibus. Nunca tive patrimônio nenhum.

Duas perguntas para encerrar: você mora na favela, já foi próximo do governo, da polícia, esteve preso. O que pensa sobre a legalização das drogas?

Acho que pode criar uma desordem maior. Qual a farmácia na favela que vai colocar cocaína para vender? Vai rivalizar com o crime?

Mas este modelo de combate ao tráfico vai resolver alguma coisa?

Não! Não vai porque o cara do morro ganha um pouquinho e fora do morro, nos gabinetes, ganha milhões.

E como fazer para acabar com essa guerra?

Acho que primeiro é preciso identificar quem é usuário, sem que o cara responda criminalmente por isso, para entender o que está acontecendo e saber se o caminho é a legalização ou tratamento. E falo, também, como ex-usuário de cocaína, que usei como DJ até os 27 anos, para ficar ligadão a noite toda. Mas acho que esse debate tem que acontecer para a gente trazer à tona vários atores da sociedade que não aparecem quando o assunto é tráfico de drogas. Quem traz tonelada de cocaína por helicóptero está solto. O filho da Dona Maria que tem dois baseados e um sacolé no bolso está preso e é traficante. A sociedade precisa desse debate.

E sua avaliação das UPPs?

Fui o primeiro líder comunitário a dizer que a pacificação era uma esperança, mas se tornou um pesadelo na vida de muitas pessoas. Hoje é pobre matando pobre. É todo mundo gemendo. E aí tem gente que hoje prefere o tráfico do que a polícia. Vê se pode! Policial virou babá de morador, tendo que resolver problema de falta d'água, falta de luz, som alto. Não dá certo. A quantidade de conflitos diários é enorme. E policial trabalhando insatisfeito é um profissional trabalhando insatisfeito que nunca vai trabalhar direito. Outro dia encontrei com a mãe do policial civil Eduardo Oliveira, que foi morto por outro policial. E não foi a polícia que descobriu porque ela nem investigou. Foi a Comissão de Direitos Humanos da Alerj (presidida pelo deputado Marcelo Freixo). Sabe o que ela falou para os outros policiais que estavam no local? "Eu espero que a família de vocês não ganhe o que eu ganhei. Em troca do meu filho, ganhei uma bandeira, uma saudação de tiro de festim e um helicóptero jogando flores". É o que sobra para a mãe do policial que está na comunidade e para o jovem que está na criminalidade. É pobre matando pobre.

E sua relação com os Direitos Humanos?

O maior crime do estado é abandonar uma família sem emprego, sem moradia, sem escola, sem nada. E este crime é cometido frequentemente em várias comunidades. O desrespeito aos direitos humanos é isso, não apenas quando o policial mete o pé na porta do morador. Cadê a UPP social? O saneamento? A Rocinha está mais abandonada hoje do que quando não tinha UPP. O governador ia mais lá antes do que agora. Ouvi que isso vai ser revisto. Tem que ser mesmo. As comunidades precisam ser ouvidas. A UPP precisa mudar e é preciso ouvir a comunidade para encontrar o melhor caminho.

Eu não posso terminar uma entrevista com um líder comunitário da Rocinha sem perguntar sobre o Amarildo.

Não quero falar nada agora. Prefiro aguardar. Escuta o que eu estou te dizendo. Acho que este caso ainda vai ter uma reviravolta e vão aparecer aí os mesmos atores que nós acabamos de falar. Depois você me diz.

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