Praia do Flamengo sem aviso de presença de bactéria

Órgãos públicos divergem sobre micro-organismo super-resistente encontrado na saída do Rio Carioca

Por O Dia

Rio - Um dia depois de O DIA revelar que um estudo do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) apontou a presença de superbactérias na foz do Rio Carioca, que deságua na Praia do Flamengo, a reportagem também constatou a ausência de alertas sobre as condições de balneabilidade ao longo da praia. Os órgãos de fiscalização de águas e esgoto na cidade divergiram sobre as responsabilidades e não anunciaram medidas para prevenir a população sobre os riscos.

Superbactéria pode causar infecções urinária e pulmonar

As superbactérias surgiram no ambiente hospitalar e ficaram conhecidas porque produzem uma enzima chamada KPC — característica que impede que os remédios façam efeito contra elas. A infecção humana ocorre tanto por entrada da bactéria no corpo como pelo contato ou ingestão. Por isso, o ideal é evitar água contaminada. A suspeita dos pesquisadores é que as superbactérias estejam chegando à praia devido ao descarte de esgoto hospitalar no rio. Segundo eles, os organismos podem se produzir na areia também, mas não há certeza sobre o tempo que conseguiriam sobreviver. No entanto, alimentadas por antibióticos do esgoto hospitalar, poderiam ter maior sobrevida.

Adultos e crianças ontem na Praia do Flamengo%2C bem perto de onde foi encontrada a superbactériaAlexandre Brum / Agência O Dia

O Instituto Estadual de Ambiente (Inea), principal responsável pela avaliação da balneabilidade da água, disse que a bactéria está inserida no conjunto de micro-organismos analisados nos testes e “é geralmente encontrada em praias impróprias ao banho”. Segundo o Inea, porém, a bactéria “é pouco resistente no meio ambiente, sobretudo, em águas salinas”.

A Cedae, do estado, e a Rio Águas, da prefeitura, trocaram responsabilidade. Em nota, a Cedae informou que “os hospitais devem possuir estações de tratamento próprias” e que a responsabilidade pelo tratamento na região é da prefeitura. Já a Rio Águas informou que o esgoto da área “é de competência da Cedae”.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) disse não ter registrado casos de banhistas contaminados pela superbactéria A secretaria afirmou seguir “a legislação para a destinação do esgoto de suas unidades hospitalares”, mas admitiu que há um processo de modernização do sistema com estações próprias de esgoto para os hospitais.


Banhistas se surpreendem

Sem saber sobre a presença da superbactéria, que pode provocar males como infecções urinária e pulmonar, pessoas mergulhavam ontem tranquilamente na Praia do Flamengo, inclusive grupos de crianças. Ao serem informados pela equipe de reportagem, Marcio Luiz Batista, 34, e Ester Silva, 22, ficaram assustados. “Não vamos mais entrar, senão eu vou ter que levá-la para o hospital. Eu entro nessa água desde pequeno e acho que por isso nunca fiquei doente, criei resistência! Falta um emissário”, disse Marcio. “Obrigada por avisar, a gente ia continuar mergulhando sem saber”, afirmou Ester.

O pescador Otavio Germano, de 64 anos, não se surpreendeu ao ver a manchete sobre a superbactéria antes de jogar a isca a poucos metros do local onde ela foi detectada. “Já vi até feto humano aqui e todo tipo de lixo, estou até acostumado. Não sei como querem fazer competição aqui durante as Olimpíadas, os atletas vão todos ficar doentes”, afirmou. “Mas a gente pesca uns robalos, anchovas, linguados. Eu como e nunca tive nada”, garantiu.

A empresária Andrezza Luiza, de 36 anos, aproveitava as férias escolares para levar o filho e dois sobrinhos para a Praia do Flamengo. Por pouco as crianças não correram risco. “Não vi nenhum aviso, uma placa sequer sinalizando o problema. Sorte que uma moça veio me avisar. É muito descaso das autoridades”, comentou.

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