Líder comunitário do Complexo do Alemão recebia ameaças de morte

Representante da comunidade das Casinhas, no Alemão, apoiava política das UPPs e causa LGBT

Por O Dia

Rio - Maior liderança comunitária do Conjunto das Casinhas, no Complexo do Alemão, Luiz Antônio de Moura, o Guinha, de 41 anos, assassinado com cinco tiros, estaria recebendo ameaças há pelo menos três meses. Um dos motivos seria o apoio dele à política de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no conjunto de favelas.

Morto enquanto conversava com amigos na comunidade na tarde de sábado, Guinha foi enterrado na tarde de ontem, no Cemitério de Inhaúma. Outra hipótese está ligada ao fato de Guinha, que era ativista de movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), ter desobedecido ordens de traficantes, ligados a igrejas do local, que são contra a parada gay que ele organizava na comunidade.

A Divisão de Homicídios (DH), no entanto, ainda está investigando os motivos da execução. Algumas testemunhas já prestaram depoimento. O crime aconteceu na Rua 2, em frente ao Casarão da Cultura. Guinha teria sido atingido por, pelo menos, cinco tiros.

No enterro de Guinha%2C ontem no Cemitério de Inhaúma%2C poucos moradores compareceram e aplaudiram quando o corpo era sepultadoMaíra Coelho / Agência O Dia

Os disparos foram feitos por dois bandidos, que passaram num carro e seriam da comunidade da Fazendinha. Policiais da UPP da Fazendinha foram para o local, assim que ouviram os disparos, mas, quando chegaram, o líder comunitário já estava morto.

Leonardo Garcia dos Santos da Silva, 18 anos, acabou ferido pelos tiros. Ele foi socorrido por moradores, que o levaram para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alemão, e, depois, transferido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha.

O jovem passou por uma cirurgia. Seu estado de saúde é grave, mas estável. Ele será ouvido logo que tiver alta médica.

No cemitério, além de familiares e alguns poucos amigos, compareceram o superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos, do governo do estado, Cláudio Nascimento, e o diretor do documentário ‘Favela Gay’, Rodrigo Felha.

No filme, Guinha fala sobre o homossexualismo em comunidades. “O Guinha tinha uma personalidade muito marcante. Ele não era uma pessoa submissa e falava justamente sobre isso: o preconceito sempre vai existir, mas é você que vai decidir como ele vai te atingir”, disse Felha. O ‘Favela Gay’ ganhou o prêmio de melhor documentário,por voto popular, na edição 2014 do Festival do Rio.

Já Claudio Nascimento contou que recebeu informações de que a morte de Guinha seria represália à participação dele em eventos ligados à UPP. Uma outra denúncia que chegou ao superintendente é de que o líder comunitário foi avisado para não realizar a segunda Parada Gay do Alemão, que aconteceu em setembro. “Havia uma fiscalização moral. Infelizmente, há setores religiosos fundamentalistas que estão tendo uma relação com o tráfico”, afirmou Nascimento.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL) se mostrou indignado. “Horror, tristeza, sensação de abatimento, de impotência, indignação. Tudo isso se mistura em mim quando esses crimes acontecem”, escreveu no Facebook.

Família dispensa proteção 

Apesar do clima de medo no Alemão, por causa da morte de Guinha, a família dispensou proteção policial. “Neste momento, a família dele disse que não precisa, mas iremos conversar amanhã (hoje) de novo sobre o assunto”, afirmou o superintendente Claudio Nascimento.

Guinha não era oficialmente o presidente da Associação de Moradores do Conjunto das Casinhas, mas mesmo assim exercia o papel de maior liderança na comunidade. Era ele quem organizava festas, ajudava os moradores e divulgava ações contra a homofobia . Os motivos que o afastaram da presidência estariam ligados a desavenças com o tráfico local, segundo moradores.

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