Pacientes de hospital da PM enfrentam fila de madrugada para ser atendidos

No Estácio, sargento deita em banco de cimento a espera de atendimento. Faltam equipamentos para exames e até lençol

Por O Dia

Rio - Além da falta de segurança denunciada na edição de segunda-feira do DIA, nos hospitais da Polícia Militar no Rio e em Niterói também há carência de componentes básicos para o atendimento à saúde dos pacientes policiais e seus parentes. Na unidade do Estácio, três elevadores não funcionavam semana passada, falta água em banheiros, roupa de cama, médicos e enfermeiros, segundo PMs e funcionários. “Tive que trazer lençóis de casa”, comentou a acompanhante de um policial internado na enfermaria.

Em Niterói, é necessário ficar na fila durante a madrugada para conseguir senha. De acordo com pacientes, a máquina de Raio-X está com problema e também não existe aparelho para tomografia computadorizada. “O hospital está sucateado em Niterói. Mandam a gente para o Rio. Mas lá só é possível fazer determinados exames depois de um ou dois meses tentando”, disse uma paciente.

Pacientes fazem fila de madrugada na unidade de Niterói para conseguir senha de atendimento às 6hDivulgação

Por rede social sem restrição de acesso, o policial Fábio Nogueira deu uma sugestão: “Plano de Saúde para a tropa já!” Ele diz que vai tentar tirar o desconto hospitalar do contracheque (os policiais são descontados em folha para ter direito ao hospital). “A última vez que fui, fiquei duas horas esperando. Quando procurei a médica, ela estava numa rodinha conversando e rindo”, escreveu.

O presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Vanderlei Ribeiro, conta que os oficiais têm tratamento diferente. “Vê se você encontra algum coronel nas filas, tendo que esperar semanas para fazer exames... Eles ligam e passam na frente de todo mundo. Prejudica o atendimento dos outros. Todo mundo sabe e ninguém faz nada. Estamos esperando que em janeiro o novo comando coloque a casa em ordem”, disse.

Também pelas redes sociais, uma policial identificada como Adriana Alves desabafou: “O que esperar desse hospital? Estou com uma fratura grave no braço desde abril devido a um acidente de carro quando ia assumir o serviço. Fizeram uma cirurgia horrorosa e meu braço ficou todo torto, a fratura está pior do que antes”.

Em outubro, O DIA denunciou fraude em compras hospitalares e esquema de corrupção no setor de Saúde da corporação, principalmente no que tange aos hospitais de Niterói e do Estácio. O rombo seria de mais de R$ 16 milhões, incluindo compra de 75 mil litros de ácido peracético — usado para esterilizar material cirúrgico —, que nunca foram entregues, como revelou o blog ‘Justiça e Cidadania’. Quatro coronéis que estavam à frente das unidades e da Diretoria Geral de Saúde foram afastados.

?"Dei meu sangue à toa pela PMERJ. Abandonado depois de 20 anos"

?Há 19 anos na Polícia Militar, o sargento Dário Alberto de Melo Etchart, lotado no 24ºBPM é um dos muitos exemplos do mau atendimento. Com suspeita de inflamação do nervo ciático e hérnia de disco, ele conseguiu internação no Hospital Central da Polícia Militar (HCPM), no Estácio, no dia 11 de dezembro. No entanto, contou que aguardou por 48 horas pelo atendimento médico. Desesperado, saiu do quarto e foi para a parte de baixo do hospital à espera de alguém que se sensibilizasse com o seu caso.

Sargento Dário deitou em um banco do hospital para tentar socorroarquivo pessoal

“O que adiantou ser um dos mais condecorados policiais, se na hora da doença me tratam como um cachorro? Tô sozinho nessa luta, morrendo de dor há um mês”, desabafou.

Morador de Seropédica, com muitas dores e dificuldade para dirigir, ele não conseguiu sequer que fosse autorizado que um carro da corporação o conduzisse ao HCPM, no Estácio. “Dei meu sangue à toa pela PMERJ. Tô com dor e deprimido. Me sentindo abandonado depois de 20 anos de puro combate”, relatou.

Agora ele aguarda a consulta com o neurocirurgião, que foi marcada apenas para janeiro.

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