Falta de chuva transformou o cenário das cachoeiras do Horto e das Paineiras

Quedas d'água foram transformadas em conta-gotas, desapontando aventureiros e preocupando especialistas

Por O Dia

Rio - No imaginário popular, estar no Rio de Janeiro durante o verão é sinônimo de calor e dezenas de opções de alívio imediato junto à natureza. Não é por acaso que, na cidade que cresceu espremida entre o mar e as montanhas, o número de interessados pelo ecoturismo se multiplique a cada ano.

Frequentadores reclamam que para se refrescar é preciso apelar para um ‘chuveiro’ improvisadoBruno de Lima / Agência O Dia

Nesta estação, porém, as trilhas realizadas em busca das cachoeiras urbanas podem terminar em frustração por falta d’água. É isso mesmo. A longa estiagem de chuvas transformou a maioria das quedas d’água em conta-gotas, desapontando os aventureiros e preocupando especialistas: a seca já provocou o desaparecimento de algumas das principais nascentes do Parque Nacional da Tijuca.

Morador da Usina, o publicitário Gabriel Campano, de 32 anos, tem nas cascatas das Paineiras algumas das suas principais lembranças de vida. “Não podíamos botar a cabeça embaixo da água. A queda era muito forte, machucava”, recorda, desolado. Não é para menos. Com a piscina natural vazia, foi necessária uma ‘gambiarra’ para se refrescar num dia em que a sensação térmica superou os 50°C. Uma garrafa prolongava o cano e possibilitava o banho. Do contrário, a água escorreria bem rente à pedra.

No caminho até o local pode-se reparar que algo está fora de ordem. As pedras úmidas da Estrada das Paineiras, que em alguns pontos chegavam a pingar gotas sobre os carros — uma atração à parte durante décadas — encontram-se à míngua. Uma camada de limo esverdeado não deixa ninguém esquecer a paisagem de outrora. “Lembro de vir com baldes e lavar o carro em dias de baixa movimentação. Atualmente, tenho que ficar colado à pedra. ‘Tô’ fora! Vou para a praia enquanto ela também não seca”, diverte-se o vendedor Eduardo Carrilho.

A decepção se repete em nove das 13 cachoeiras do Parque Nacional da Tijuca. Carros passam em baixa velocidade e, ao constatar o baixo volume despejado, vão embora. Não tão longe dali, no Horto, o desencanto pela falta d’água ganha uma pitada de revolta ocasionada pelo abandono. Dezenas de despachos religiosos e lixo se misturam à água — que também é pouca.

Locais de peregrinação dos amantes das trilhas, as Cachoeiras do Quebra e do Chuveiro vêm perdendo seus frequentadores. “Todo trilheiro se lança em meio ao verde da natureza na expectativa de ser ‘recompensado’ com um banho de cachoeira ou uma vista deslumbrante ao final da caminhada. Atualmente, só contamos a imagem panorâmica do Rio”, desabafou o ecologista Carlos Perez.

Outra opção é manter o corpo próximo às pedras e aproveitar a pouca água Bruno de Lima / Agência O Dia

Pela primeira vez no local, um grupo de cinco adolescentes se frustrou naquela que deveria ser a celebração de final de ano. Depois de caminhar por uma hora e meia, eles procuravam o famoso espelho d’água do Quebra, quando foram avisados que estavam diante do próprio. “É isso? Imaginava algo bem mais radical”, confessou o estudante Miguel Norma. Mesmo assim, não houve viagem perdida. Entre as gotas que caíam, os jovens comemoraram as férias e prometeram levar reforço na próxima vez em que fossem ao local. “Vou trazer alguns índios para fazer a dança da chuva”, disse a amiga dele, Pietra Blasquez, para gargalhada geral.

O grupo foi embora cedo. Afinal, além de não ter encontrado exatamente o lazer que queria, havia sido alertado para o perigo que cresce na região conforme o sol se põe. São frequentes os assaltos por lá. “O pior é que essa região podia ser tão bem explorada pelo turismo”, concluiu outro integrante do grupo, João Gonzalez, do alto de seus 15 anos de idade.

Volume das nascentes diminuiu 50%

Não há muito a ser feito para restabelecer o volume normal de água das cachoeiras urbanas. O jeito é esperar que a chuva caia em abundância, de preferência com trovoadas, garante o supervisor florestal do Parque Nacional da Tijuca, Carlos Alberto Pereira. “O tremor provocado pelos raios faz com que o volume aumente”, explica.

A seca “nunca vista em onze anos trabalhados no Parque” é agravada pelas altas temperaturas.”Realizamos monitoramento diário pelas trilhas e mata fechada. As nascentes que desembocam em cachoeiras diminuíram seus volumes em até 50%. Alguns ‘olhos d’água’ que não podem ser mais vistos se integraram ao leito subterrâneo. O ecossistema está prejudicado”, confirma.

Mas o supervisor alerta: se acaso a previsão de chuva abundante até amanha, anunciada pela meteorologia se cumpra, é recomendável esperar até 48 horas antes de aproveitar o volume restabelecido das cachoeiras. “Geralmente, a chuva vem acompanhada de muitos resíduos”, conclui.

Além da seca%2C os banhistas ainda precisam enfrentar muita sujeira Bruno de Lima / Agência O Dia


Últimas de Rio De Janeiro