Rio - Rápida no gatilho e na construção. O ritmo das obras tocadas pela milícia de Rio das Pedras, em Jacarepaguá, vence — com muita folga — o da fiscalização da Subprefeitura da Barra da Tijuca. O último prédio erguido na comunidade está em pleno vapor e, com apenas 54 dias de trabalho, os operários já levantaram três andares — o ‘projeto’ prevê quatro pavimentos. Está bem perto de ser concluído, inclusive com acabamento.
Agilidade fora do comum para todos os padrões da engenharia. Já os fiscais... Avisados por um morador quando a obra ainda estava na etapa da fundação, eles nunca apareceram para conferir a documentação do prédio. O edifício, com previsão de construção de oito apartamentos e duas lojas comerciais, fica na Via Light, na porta de entrada da comunidade e não tem licença da Prefeitura do Rio.
A velocidade do empreendimento é tamanha, que, mesmo antes do fim da conclusão, as unidades estão à venda. Como numa obra oficial, os compradores podem comprar o imóvel na ‘planta’ (evidente que sem registro em cartório ou na prefeitura). A certeza de que não haverá fiscalização fica explícita quando os vendedores não ocultam a falta de licença.
“Aqui é comunidade. Sabe como é que é, não é? Não tem documento, mas fazemos (registro de venda) na associação de moradores. Lá vale, serve para o cartório”, informa o rapaz, que se apresenta como o responsável da Imobiliária da Hora, encarregada pela venda dos imóveis. “Não precisa pagar nenhum percentual para a imobiliária, não. Só botei imobiliária na placa para ficar bonitinho, valorizar, mas não tem imobiliária nenhuma”, anuncia.
O dono do empreendimento não aparece. Os moradores alegam que a área pertence ao tenente reformado da PM Maurício Silva da Costa, o Mauríção. Ele é investigado por homicídios e condenado por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Mauríção é ‘xerife’ da milícia e nenhuma obra é tocada na comunidade sem a assinatura do chefe. A ‘imobiliária’ aponta um homem conhecido como Cabeludo que seria responsável pela construção.
A cronologia da reclamação
Os operários fincavam as primeiras estacas, quando L. ligou para a prefeitura, em 6 de novembro, e avisou sobre a obra ilegal. Ganhou protocolo e pedido para esperar a fiscalização em até 15 dias. O tempo passou, o prédio subiu e nada.
Segundo Portal de Atendimento ao Cidadão (1746), a queixa foi repassada à Secretaria de Urbanismo, que sete dias depois enviou a reclamação à fiscalização da subprefeitura da Barra. Até sexta-feira, aparecia no sistema o status de “aguardando” a visita do fiscal ao imóvel. A Prefeitura do Rio não explicou a demora no atendimento. Em 4 de dezembro, equipe do DIA registrou que obras estavam no segundo andar e lojas em acabamento. Duas semanas após, fotografou a construção com mais dois pavimentos.
Loja custa R$ 140 mil
Os preços das unidades dão a dica do lucro com a venda de imóveis nas comunidades sitiadas pela milícia. Uma loja com 36 metros quadrados custa R$ 140 mil, mas o valor pode cair um pouco se o comprador negociar as duas lojas do edifício. O pagamento tem que ser feito à vista.
“Os apartamentos custam R$ 80 mil cada um. Se levar os dois, sai por R$ 140 mil. O segundo andar nem terminamos, mas já fechei com um pessoa que mora no Golden Green — condomínio de alto luxo, na Barra da Tijuca —, avisa o vendedor, tentando impressionar.
Na conversa, o “corretor” apresenta as garantias do empreendimento. “Fizemos 73 apartamentos lá no Pinheiro (uma localidade em Rio das Pedras) e, agora, terminamos (também lá) três prédios com seis andares. O melhor negócio é investir por aqui, o retorno é certo. Qualquer apartamento pequeno, o aluguel é (custa) R$ 1 mil", assegura ele.