Conheça as desinibidas candidatas a musa dos 450 anos do Rio

Para além da beleza, atributos ‘carioquíssimos’, como simpatia e solidariedade, vão pesar na eleição da musa dos 450 anos

Por O Dia

Rio - Apenas uma delas vai reinar sobre a cidade, representando o Rio em festas e cerimônias oficiais. Mas até lá, o concurso que irá coroar a Rainha dos 450 anos impõe um ritmo nada fácil: para passar pelo funil, as 33 selecionadas participam de aulas de 10h às 18h por 15 dias, sem intervalo, nem final de semana. A maratona, porém, tem data para terminar — no próximo sábado, quando acontece o desfile que irá apresentá-las ao júri. 

Candidatas a musa dos 450 anos do RioBruno de Lima / Agência O Dia


Cada uma traz mais do que um rosto bonito para representar o Rio na comemoração do seu aniversário. Para conquistar a vaga, é preciso ter boa aparência, sim, mas principalmente, carisma, sorriso no rosto, orgulho de quem são e de onde vêm.

Lembrando o tom cordial e generoso dos discursos das misses, a modelo Rafaella Lemes, de 22 anos, narra que quer vencer a disputa não só para crescer profissionalmente, mas por amor sincero à Rocinha: o lugar onde ela nasceu, cresceu e se criou. Rafaella, que já fez trabalhos publicitários quando viajou à África do Sul,conta com o estímulo da mãe, que também teve experiências como modelo, mas, por falta de apoio familiar, não seguiu adiante.

“Meu sonho são vários, ser uma modelo da Victoria’s Secret, firmar carreira internacional, mas o projeto que não abro mão é um só: ser professora de moda na Rocinha. É para mostrar para a meninada da favela que elas podem mudar o rumo da vida delas. E que, para isso, não dá pra ficar só sonhando. Tem muito mais para elas no mundo aí fora do que elas imaginam”, disse, emocionada, em um dos intervalos das aulas de oratória e passarela.

O sentimento de união ao lugar de origem também não abandonou a administradora Paula Tainá Rodrigues, 22 anos, representante de Realengo. Isso, mesmo depois de ir morar em Niterói.

Quando seu pai abriu uma academia naquele bairro, a família quase quebrou financeiramente, e foi com a ajuda da comunidade — vizinhos de porta e de rua e amigos da região — que Paulo Roberto Rodrigues, 54 anos, conseguiu manter o negócio e continuar sustentando a família.

“Essa história me ligou para sempre ao bairro onde nasci. Descobri ali que, sozinho, não se faz nada. É por isso que a minha decisão pelo bairro recaiu sobre Realengo, e não Niterói”, explicou ela, que morou até os 13 anos no local. 

Diversidade de tipos foi critério

O presidente do Comitê Rio450, Marcelo Calero, acredita que o concurso irá nutrir a nostalgia que as pessoas de mais diade têm dos concursos de miss de antigamente. “Era uma tradição muito forte no Rio, as pessoas sentem falta”, avaliou.

As candidatas recebem lições de oratória, postura e passarela com os professores Patrick Dadalto e André Vagon. As orientações gerais ficam por conta do preparador de misses Thiago Gaspary, que acompanha as meninas desde a primeira etapa do processo, quando havia 66 concorrentes — duas por região administrativa.

Até o grande dia, elas serão avaliadas também nos quesitos espírito de equipe, simpatia, entre outras competências de relacionamento. Afinal, explica Viviane, será ela que que irá representar o espírito carioca, e características como egoísmo e competitividade exagerada estão fora da lista.

“Elas só precisam ter as as virtudes que estão estampadas na alma e no corpo da carioca”, exaltou a coordenadora geral do concurso, Viviane Groisman. Por isso, as candidatas à Rainha Rio 450 vão subir na passarela, no dia da decisão, não só pela força de sua beleza, mas impulsionada por sonhos e trajetória de vida.

Um dos critérios para a seleção era justamente esse: independente de ter nascido no Rio, fundamentais eram a ginga, o riso e a generosidade, entre outros atributos que são marcas locais. E foi para ser fiel aos múltiplos tipos de beleza carioca que o concurso convocou altas, baixas, negras e louras, fazendo jus à diversidade das ruas da cidade, e não só no calçadão do Leblon. 

A entusiasmada atriz Beatriz Magdallena, 20, carrega uma mistura complexa: por parte de pai, a família de Vila Cruzeiro, no conjunto de favelas do Alemão — região que representa —; da mãe, os parentes da Nova Holanda, na Maré.

Delicada e reflexiva, a musa da Rocinha, a modelo Rafaella Lemes, 22, quer mais do que sucesso profissional. Sua meta é se qualificar e dar aulas de moda para jovens na favela: “Tem muito mais para elas no mundo do que elas imaginam”.

A administradora Paula Tainá, 22, guardou seu coração em Realengo e nunca mais foi buscar. Moradora do bairro até os 13 anos, ela viu a força da solidariedade nos vizinhos quando o pai Paulo Roberto Rodrigues, comerciante, quase quebrou. 

Reportagem: Luiza Gomes

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