‘Não tem santo que me faça votar em Eduardo Cunha’, dispara Jean Wyllys

Primeiro deputado federal orgulhosamente gay, Wyllys revela ao DIA, porém, que enfrentou resistência no Psol

Por O Dia

Rio - O baiano Jean Wyllys sabe ganhar. Na primeira disputa nacional, em 2005, teve a preferência de 55% dos espectadores do Big Brother Brasil e levou R$ 1 milhão para casa. Na segunda, no Rio, concorreu à vaga na Câmara dos Deputados. Foram apenas 13 mil votos, em 2010, mas, ainda assim, embarcou para Brasília — graças à votação do colega Chico Alencar.

'Vamos ter que achar pontos em comum%2C senão%2C eles (da direita) vão sambar na nossa cara'Carlo Wrede / Agência O Dia


Na terceira disputa, em 2014, aumentou em 1.000% seu eleitorado. Primeiro deputado federal orgulhosamente gay, Wyllys revela ao DIA, porém, que enfrentou resistência no Psol e defende que a esquerda carioca mergulhe nas complexidades da cidade para conquistar corações. E prega união contra os conservadores.

O DIA: A Câmara dos Deputados elegerá Eduardo Cunha presidente?

JEAN WYLLYS: Eu não quero.

Como o Psol vai se posicionar?

A gente estuda a possibilidade de lançar candidatura própria, embora saiba que não vai ganhar. E, havendo segundo turno, a gente vai conversar na bancada. Não tem santo que me faça votar em Eduardo Cunha.

Já fez um balanço do seu primeiro mandato?

Posso dizer que foi um mandato vitorioso. O crescimento expressivo da minha votação — saí de 13 mil votos, em 2010, para 145 mil em 2014 — é prova do sucesso. Cumpri o meu objetivo.

Qual?

Quis fazer um mandato de promoção e afirmação dos direitos humanos, mas em especial das minorias, que estão excluídas das comunidades de direitos. Foi um mandato que buscou estender direitos através dos dois caminhos que cabem a um deputado federal: que é o legislativo propriamente dito, ou seja, proposição, debate e votação de leis; e o político, de relação com a sociedade civil organizada, com instituições e com outros poderes.

Aprovou alguma lei?

Não tive projeto de lei aprovado no plenário — somente nas comissões. Mas o trabalho político foi significativo. Foram emendas parlamentares, cobrança de políticas públicas dos ministérios e a própria decisão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de regulamentar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, depois do meu questionamento.

A sua relação com o Psol foi boa nesse período?

Estreitou-se. O Psol é um conglomerado de tendências, um partido em busca de identidade. Mas está encontrando uma identidade a partir das figuras públicas — eu, Marcelo Freixo, Chico Alencar, Ivan (Valente, de São Paulo) —, que acabam dando uma cara ao partido para quem está fora.

Como o senhor entrou para o Psol?

A convite de Heloísa Helena, quando era a presidenta. Hoje, ela não está mais.

O fato de ter sido global incomodou militantes?

Tive que enfrentar a ‘globofobia’ típica da esquerda. Entrei trazendo o histórico não só de ter participado de um programa da Globo, mas de ter vindo de um reality show.Muitas pessoas tinham reservas. Mas a relação melhorou. Não dei importância para as reservas e, com trabalho e resultado, puderam ver que não sou inimigo.

Sentiu-se constrangido por Daciolo, do seu partido, ter tirado foto com Bolsonaro e defender militares para a Defesa?

Daciolo é líder de uma categoria de trabalhadores. E, num momento em que a relevância do movimento sindical cai, ele emerge com uma greve dos bombeiros.Mas também fiquei profundamente constrangido que, logo depois da vitória, ele tenha colocado um vídeo em que se compromete mais com Jesus do que com a Constituição.

Nada contra a fé dele, que tem de ser respeitada. Mas em nenhum momento ele diz que, eleito, vai defender os princípios da Constituição Cidadã. Para completar, no dia da diplomação, quando os parlamentares do Psol fizeram uma ação para dizer que o Congresso não pode conter vozes que defendam a violência contra a mulher, ele faz uma foto com o alvo dessa ação, Jair Bolsonaro. Fico na dúvida se é inabilidade, ingenuidade ou cinismo. Mas foi o partido que ofereceu legenda a ele.

O Psol é um conglomerado de tendências, como eu disse há pouco.

Mas há corrente que defenda o que ele defendeu?

Não.

E como ele conseguiu concorrer pelo Psol?

O grupo que está com o Daciolo é o da Janira (Rocha), que tem o apoio da direção do partido. Por isso, o nome dele passou. Mas ele só foi eleito graças aos nossos votos — os meus e os do Chico (Alencar) — e temos responsabilidade agora sobre isso.

Os eleitores cobram?

Tenho acalmado alguns, que me dizem: “Votei em você, não num fundamentalista”. E tenho dito: “Calma. Ele ainda não é fundamentalista. É religioso, temos de respeitar e se, por ventura, misturar religião com política, é óbvio, vai sofrer as sanções do partido.”

O Rio gosta de se ver progressista, mas tende a eleger conservadores.

Sim. Tende-se a pensar o Rio como Zona Sul. Não é. É Zona Oeste, Norte, subúrbio, Baixada. O Rio tem problemas sérios com educação. Tem tráfico de pessoas! Na CPI da exploração sexual de criança e adolescente que presidi, achamos um cemitério clandestino de meninas. Há embriões de estado, comandados por milícia. Lugares onde o tráfico é o Estado.Temos que pensar essa complexidade se quisermos conquistar corações e mentes.

E o novo Congresso?

Claramente a tendência conservadora se acentuou.

Por quê?

A redemocratização do Brasil e a Constituição Cidadã desenharam a promessa de assegurar direitos. E isso não aconteceu como se esperava. Principalmente depois que o PT assumiu o poder, houve avanços — melhor distribuição de renda e um número maior de pessoas deixou a miséria —, mas o principal débito, que é de educação de qualidade, não foi pago. Por outro lado, essa população, embora tenha melhorado de vida, tenha entrado para o mercado de consumo, tenha podido comprar TV, carro a prazo, computador, se plugar em rede, virou alvo fácil para manipulação.

Tem uma geração que cresceu a partir do governo Lula e identificou o poder — e seus males — com o PT e com a esquerda, para quem dirigiu sua antipatia e ódio. E se criou este clima, em que toda a agenda da esquerda é problemática.

A direita nunca teve contato popular, mas conquistou corações e mentes. Faltou à esquerda capacidade para influenciar esta população?

A esquerda tende a ser fratricida. Mas foi, por exemplo, uma vitória muito grande o que a gente conseguiu no segundo turno das eleições. Conseguimos nos unir. O que falei sobre as correntes no Psol se digladiando se estende a toda esquerda.

Mas na eleição da Dilma houve união. Sabemos dos erros do PT, mas seria uma perda para o país se o projeto do PSDB fosse vitorioso. Não sei o que acontece que o PT não consegue se associar aos avanços de seu governo.

A valorização da universidade pública é infinitamente maior do que no governo de FHC. Há muito mais universidades públicas abertas. Alunos saindo do Brasil ampliando sua formação nem se fala. No entanto, colou nele, no imaginário popular, a pecha de partido corrupto.

Gostou das escolhas do ministério de Dilma?

Não faria essas indicações, mas não estou no governo nem na situação da presidenta Dilma: uma vitória apertada, em que o partido que ficou em segundo lugar tem manipulado o sentimento antipetista e surfado na onda fascista que se levantou no Brasil e, sobretudo, uma oposição da imprensa. Nessa posição, é difícil. Entendo que essas indicações tentam responder um pouco a essas pressões.

Como a esquerda atuará, se é tão dividida, no Congresso ainda mais conservador?

Vamos ter que achar pontos em comum, convergência, senão, eles (da direita) vão sambar na nossa cara.

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