'Há muita gente que defende que o Paes seja o vice do Lula', diz vice-prefeito

Leal, Adilson Pires afirma que só será candidato se seu 'líder' não emplacar o deputado Pedro Paulo em 2016.

Por O Dia

Rio - Atrás da cadeira do vice-prefeito do Rio, uma foto eterniza o clima fraterno entre Adilson Pires (PT) e os aliados Eduardo Paes (PMDB) e o senador petista Lindberg Farias. Estão lá ainda os adversários, responsáveis pelo movimento que vitaminou a campanha de Aécio Neves (PSDB) no Rio contra a presidenta Dilma Rousseff: Sérgio Cabral (PMDB) e o vice-governador atual, Francisco Dornelles (PP).

Unidos, eles sorriem. São de um tempo em que relações do PT eram bem mais estreitas com o PMDB. Hoje, estas limitam-se a Paes, a quem Pires exalta como o melhor prefeito que o Rio já teve. Leal, afirma que só será candidato se seu ‘líder’ não emplacar o deputado Pedro Paulo em 2016.

'Não é coerente ficar num partido e fazer campanha para outro. É mais coerente que mudem de partido'%2C Adilson PiresPaulo Araújo / Agência O Dia

O DIA: Petistas históricos têm dito que o PT mudou e que precisa mudar de novo. O senhor concorda?

Adilson Pires: Mudou não só o PT. Tudo 35 anos atrás era diferente. Sempre fui ativista do movimento popular e da Igreja Católica e os dois mudaram bastante. O Brasil mudou.

Mas o PT mudou para melhor ou pior?

O PT foi criado a partir do movimento comunitário, social, dos grupos de esquerda que voltavam do exílio, de intelectuais, de trabalhadores. Havia muita ideologia, militância. Com os anos, o PT assumiu o governo. E, aí, deixamos de ser oposição e passamos a ser governo. Isso muita gente ainda não entendeu. O que tínhamos no passado, de olhar para o poder e ser opositor, não há mais.

E a parte boa?

Passamos a olhar o que é possível fazer pelas pessoas. O que o partido fez no Brasil em 12 anos, grupos políticos que estavam no poder há meio século não fizeram. Hoje é comum o filho das classes populares tomar iogurte. 15 anos atrás, não. Claro que há questões que poderíamos avançar mais, porém, é certo também que o partido fez o Brasil melhorar muito.

'Não é coerente ficar num partido e fazer campanha para outro. É mais coerente que mudem de partido'Paulo Araújo / Agência O Dia

O senhor partilha da opinião de seus colegas de que se o partido não mudar vai morrer?

Todos nós precisamos mudar o tempo todo, mas há uma carga por trás dessa frase — usada por Marta Suplicy e depois plagiada pelo Robson (Leite, ex-deputado estadual) em entrevista ao DIA — que passa a ideia de que está tudo errado. Afirmo: não está.

Se não está errado, de onde surgiu o ódio de setores da sociedade ao PT?

Vejo pelo menos quatro pontos: pessoas erraram e já pagam por isso; a evidente má vontade de parcelas da mídia contra o partido; o desgaste natural de quem está no governo há 12 anos; e um problema de comunicação com a sociedade. Faltou entender que aquela estratégia do PT de 30 anos atrás, de panfleto na porta da fábrica, não cabe mais.

O antipetismo atrapalhou campanha no Rio?

Não acredito. Nosso desempenho tem mais a ver com um erro de estratégia que adotamos. Um deles, por exemplo, foi investir na lógica da cidade partida. O Rio é diferente, é mais misturado.

Mesmo que dê vitórias ao PT nacional, por que o Rio não elege o partido nos pleito locais?

O PT ganhou a prefeitura de São Paulo três vezes, a de Belo Horizonte quatro e a de Porto Alegre cinco. Nunca ganhou na cidade do Rio. Ao longo dos anos erramos, mas também houve fatalidades, que é quando se faz tudo certo e ainda assim dá errado. A política tem disso. É um paradoxo. Cresceu nacionalmente mas aqui foi o inverso.

Saiu daí a aliança com Eduardo Paes em 2012?

Avaliamos que não teríamos força com candidatura própria e que não devemos buscar o poder pelo poder, mas para mudar a vida das pessoas. A maioria do PT tem este sentimento: o de que fazemos parte de um projeto político que está mudando a cara do Rio. Há investimento em revitalização e em mobilidade, mas em Bangu, por exemplo, chegaremos a 100% de cobertura do Saúde da Família. Fazer parte de um projeto político que melhora a vida daquelas pessoas é uma satisfação.

E o projeto do estado do Rio não é bom também?

O lançamento do Lindberg ao governo do estado era consenso. Mas houve incômodo quando a campanha deu um tom agudo de crítica. Eu falei: não podemos fazer isso, fizemos parte deste governo, que, aliás, foi responsável por melhorias também. Há oito anos, não tinha UPP, UPA, profissionalismo nas finanças. Houve inclusive a ajuda do governo Lula. O Rio estava quebrado, quando Sergio Cabral assumiu. Não podemos esquecer disso.

'O Rio estava quebrado%2C quando Cabral assumiu. Não podemos esquecer disso'Paulo Araújo / Agência O Dia

Em que momento, então, o PMDB de Cabral parou de buscar a melhoria para o cidadão?

O movimento de junho de 2013. O Eduardo chamou o pessoal que liderava uma parte do movimento para conversar. Trouxemos 30 pessoas. Ele optou pelo diálogo, além de recuar no aumento da tarifa. Já o governo do estado controla o que talvez seja das políticas mais antipáticas para aquelas pessoas que foram às ruas. Mais do que isso, o Cabral deu declarações que tacou mais fogo no que já estava inflamado. Muita gente do movimento anti-Cabral era próximo ao PT e criou uma situação que ficou insustentável. O movimento mudou a história.

Se não tivesse junho de 2013, o Lindberg não teria sido candidato?

Acho que o rompimento do PT com o PMDB teria ocorrido de outra forma.

Haverá outro embate entre os partidos em 2016?

Não existe disputa do PT com o prefeito. É ele quem comanda o processo. Sempre digo que o Paes é o cara certo, no lugar certo para fazer a coisa certa. Acompanho o Rio desde a redemocratização e ele foi o melhor prefeito que a cidade já teve. Nós reconhecemos isso. Aliás, nós o ajudamos. Então, não há disputa. Com maioria folgada, o partido está com Paes.

Tem a ver com Paes ter apoiado a Dilma?

Sim. Ele teve a coragem de enfrentar a direção regional, que debandou para o Aécio. Isto é reconhecido pelo PT nacional, pela Dilma, pelo Lula. Há a interpretação de que se ele não fizesse este gesto, Dilma perderia no Rio. Se houver um projeto que não seja o afiançado pelo Eduardo não vamos estar junto.

E se o “afiançado” for Leonardo Picciani ou Sergio Cabral?

O rumo que o PT tomou nas eleições de 2014 não nos permite ter entendimento com eles. Nós elegemos o prefeito para que conduza o processo de sua sucessão.

A impressão é que o PT tem Eduardo Paes como o grande líder do Rio.

Não tenho a menor dúvida disso. Não só do Rio. Que prefeito de capital tem mais expressão pública que Eduardo Paes? O (Fernando)Haddad, de São Paulo, que é do meu partido, não tem. Nem qualquer governador. Há muita gente que defende, inclusive, que o Paes seja o vice de Lula, em 2018. Mas ele quer tentar o governo.

É impossível então o PT apoiar o Marcelo Freixo?

Pode ser que tenha dissidência. Aconteceu em 2012, quando fui vice do Paes. Tenho dificuldade de aceitar que pessoas do PT participem do processo de escolha de forma democrática e que depois não aceitem a decisão da maioria. É mais coerente que mudem de partido. Não é coerente, no entanto, ficar num partido e fazer campanha para outro.

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