Menino que morreu após confronto em UPP é enterrado ao som de 'parabéns'

'Gostaria de pedir ao governador Pezão que coloque uma polícia preparada nas ruas', disse o pai da vítima

Por O Dia

Rio - Ao som de 'Parabéns pra você', o menino Patrick Ferreira de Queiroz, 11 anos, foi enterrado na tarde deste sábado no Cemitério do Catumbi, na Zona Norte do Rio. Cerca de 80 pessoas, entre parentes e amigos, compareceram ao sepultamento, marcado por forte comoção. Patrick, que faria 12 anos hoje, foi morto por um tiro de fuzil disparado por policiais militares durante operação na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Camarista Méier, na última quinta-feira.

"Era um menino alegre e divertido, gostava de soltar pipa e jogar videogame. Patrick era conhecido pela comunidade, todo mundo gostava dele. Gostaria de pedir ao governador Pezão uma polícia mais preparada na rua. Os policiais precisam fazer cursos, se preparar. Isso que aconteceu com meu filho não pode acontecer mais", disse Daniel Pinheiro de Queiroz, 48 anos, pai da vítima.

Durante o enterro%2C familiares cantarem parabéns para Patrick%2C que faria 12 anos neste sábado. Pai do garoto estava inconsolávelMárcio Mercante / Agência O Dia

Emerson Nascimento, 16 anos, conhecia Patrick desde a infância. "Éramos melhores amigos, fomos criados juntos. Ele nunca foi de briga ou confusão. Quando aconteceu, os policiais não deixaram que eu cobrisse o corpo dele, mas eu fui lá e cobri", disse o adolescente, emocionado.

Após o enterro, cerca de 40 pessoas protestaram na Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá contra a morte do menino. Daniele Sampaio, irmã do Patrick, estava indignada. "Ninguém quer quebrar ônibus ou causar confusão aqui. Era para a família estar fazendo festa e tivemos que chorar a perda dele. A UPP não trouxe nada de bom pra comunidade", disse Daniele. Por conta do protesto, a via foi interditada parcialmente no sentido Jacarepaguá. O tráfego ficou intenso no trecho. Pelo menos 60 PMs acompanharam o ato.

Família vai processar o estado

A família de Patrick decidiu procesar o estado . A ajuda virá do advogado João Tancredo, ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ). “A bala perdida da PM tem alvo: pretos, pobres e moradores de favelas. É preciso que algo seja feito contra os autos de resistência que, com o mínimo de investigação, se revelam de homicídios cometidos pelos agentes do estado”, disparou João Tancredo.

'Deram um tiro e ele caiu sentado. Ao chegar perto%2C os PMs deram os outros tiros pelas costas'%2C Denise Silva 24 anos%2C tia do garotoSeverino Silva / Agência O Dia

Nesta sexta-feira, versões diferentes foram dadas, mas nenhuma esclareceu a morte de Patrick. A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) informou quinta-feira que houve uma troca de tiros entre policiais e traficantes e que Patrick foi baleado. Na delegacia, os PMs envolvidos no caso registraram o fato como auto de resistência (morte em confronto com policiais). No entanto, testemunhas contaram à família que o menino teria sido executado.

“Deram um tiro e ele caiu sentado. Quando chegaram perto, os PMs deram os outros tiros pelas costas. Patrick disse que estava com sede e o policial pegou água e jogou na cara dele”, afirmou a prima do garoto, Denise Balu da Silva, de 24 anos.

Delegado da 25ª DP (Engenho Novo), Niandro Lima, acompanhou a perícia no Morro da Cachoeira Grande, Complexo do Lins, e disse que não foram encontradas cápsulas deflagradas de pistola. Esta seria a arma que, segundo a PM, Patrick portava. O armamento foi apreendido e encaminhado ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli. A perícia vai verificar se algum disparo foi feito com a pistola calibre 9 milímetros, se há impressões digitais de Patrick ou de outras pessoas. O laudo sairá em 30 dias.

Nesta sexta-feira, as investigações passaram para a 26ª DP (Todos os Santos). Outra análise, do Instituto Médico-Legal (IML), vai mostrar se havia pólvora nas mãos do menino. Se positivo, o resultado vai contradizer a versão do confronto dada pelos policiais da UPP. O pai de Patrick, o ajudante de caminhão Daniel Pinheiro de Queiroz, 48, voltou a afirmar que foi ameaçado pelos PMs e impedido de socorrer o filho. “Os policiais disseram que, se eu desse mais um passo eu também ficaria estirado no chão igual a ele”, contou Daniel.

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