Todos os caminhos levam à praia

Corredores expressos e mais ônibus vindos da Baixada criam novas rotas para o banho de sol

Por O Dia

Rio - O reflexo do ônibus cruzando a lente dos óculos espelhados de uma passageira significava que a espera tinha acabado: era hora de embarcar para a praia na Estação de Madureira do BRT. Junto com duas moradoras da Vila da Penha, O DIA registrou a viagem que leva quase 500 mil pessoas para a Praia da Barra nos fins de semana de verão.

Enquanto o ambulante anunciava o preço da garrafa d’água, os passageiros que aguardavam o ônibus na fila conversavam sobre o calor do início da tarde de quinta-feira. “Quem dera que eu estivesse indo para a praia”, comentou um homem de terno. Indiferentes, Susi Dias e Niedja Silva, ambas de 22 anos, aproveitavam para passar protetor solar, quando foram interrompidas pela equipe de reportagem: “Pode vir que a gente não tem timidez”.

A reportagem acompanhou duas cariocas desde o embarque no BRT até a chegada na Praia da Barra da TijucaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Quando as portas da estação se abriram, o filho de Susi, Gustavo Dias, de 6 anos, correu para garantir um lugar sentado dentro do veículo. Depois de uma viagem de 20 minutos entre Penha e Madureira, e a espera na estação, elas comemoraram a chegada do veículo expresso. “Não vejo a hora de dar um mergulho”, disse Susi. Durante a viagem, o passatempo das meninas não era diferente do da maioria dos outros passageiros dentro do veículo lotado. “É a melhor invenção de todos os tempos”, disse Susi, apontando para o celular.

Gustavo era o mais animado. Ele brincava com os desenhos do estofado nos bancos do ônibus e morria de rir cada vez que o veículo passava na lombada. “Você gosta de pular as ondas? É assim que eu pulo”, disse o garoto.

Segundo elas, desde que que o BRT foi implantado, a preferência virou a Praia da Barra. “Antes, a gente ia para a Zona Sul de metrô, mas hoje é mais rápido chegar na Barra pelo BRT. Sem contar que a água é mais limpa”, disse Niedja. Depois da viagem de cerca de 30 minutos, elas deram os primeiros passos na areia da praia. “Tem morador que se acha dono, mas a praia é de todos. Se vier com preconceito, a gente mete logo um processo”, afirmou Susi.

A reportagem acompanhou duas cariocas desde o embarque no BRT até a chegada na Praia da Barra da TijucaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

Segundo a assessoria de imprensa do Consórcio BRT, a média mensal em dezembro, somando sábados e domingos, foi de 530 mil passageiros nos BRTs Transoeste e Transcarioca. Em outubro, aproximadamente 100 mil pessoas a menos utilizaram o serviço nos dias de fim de semana. Nos últimos dias 10 e 11, o sistema carregou um total de 265 mil passageiros no sábado, e 194 mil no domingo. Grande parte desta multidão, ávida por um mergulho nas águas da Barra.

Menos lotada e maior, Barra atrai novos banhistas

Desde a criação dos BRTs, a Praia da Barra virou destino de muitas pessoas que antigamente frequentavam a Zona Sul. “Chego rapidinho e acho a praia aqui muito melhor, menos lotada, apesar de ficar cheia também”, disse a estudante Cristina Souza, de 21 anos.

Na mesma roda de amigos, o DJ Fabio Andrade, 33, disse que o sistema de transporte mudou o perfil do frequentador da praia. “Fica dividido em pedaços. Tem o lugar do morador da Barra, o de quem vem da Cidade de Deus, o do pessoal que vem da Baixada. Cada um com a sua galera”, disse. Moradora de um condomínio do bairro, a estudante Nathália Gomes, 24, critica a discriminação com quem vem de longe. “A educação da pessoa não é definida pelo lugar de onde ela vem. Vejo muito morador deixando lixo na areia, por exemplo.”

Grupo de moradores das zonas Oeste e Norte e Baixada aproveitam a tarde de quinta na Praia da BarraDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

De ônibus, entre a paz e a bagunça

Não é só aos moradores da Zona Sul que as imagens de depredação de ônibus veiculadas constantemente na última semana causam incômodo. Acompanhada dos filhos e sobrinhos, a cabeleireira Nádia Soares, de 47 anos, espera sempre uma viagem de paz quando leva a família de Bonsucesso para a praia, pela linha 484. 

“A gente que vem da Zona Norte só quer curtir a praia na educação, como qualquer outro. É assim que eu ensino meus filhos. Quem faz essa bagunça é a minoria”. Na altura da Estação Cardeal Arcoverde do metrô se concentram cariocas de diferentes lugares que chegam à praia pelo subterrâneo. As primas Brena e Priscila Freitas, de 17 e 31 anos, partem da Estação do Irajá.

Brenda e Priscila vão de Irajá até a Praia de Copacabana de metrôDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

“O pessoal de longe se sente em casa dentro da estação, fazendo piada. Tem morador daqui da Zona Sul que pensa que a praia é particular, mas isso não tem cabimento. É um espaço de todo mundo”, disse Priscila. “Para mim, o que falta é policiamento adequado. Onde tem aglomeração de gente pode ter confusão, se tiver pouca gente fiscalizando”, completou Brena.

Linhas que levam aos corredores

Para moradores de bairros que não contam com as estações de BRT, uma opção para ir à praia usando o serviço pode ser por meio das linhas de ônibus que fazem ligação até o sistema dos corredores expressos.

As linhas Del Castilho-Tanque (610A), Taquara-Curicica (800A), Méier-Madureira (690A), Praça Seca-Madureira (702A), Boiuna-Taquara (815A), Sulacap-Taquara (889A), Gardênia Azul-Tanque (932A) e Santa Maria-Taquara (963A) são algumas que levam até estações do BRT Transcarioca.

Pela pegar o BRT Transoeste, as opções de linhas de ônibus são: Vila Kennedy-Mato Alto (853A), Bangu-Magarça (855A), Sepetiba-Santa Cruz ( SV870A), Sepetiba-Cesarão (871A), Pingo D’água-Mato Alto (891A) e Jardim Sete de Abril-Paciência (857A).

Reportagem de Lucas Gayoso

Últimas de Rio De Janeiro