Vizinhos de estação de tratamento em Nova Iguaçu sofrem com falta d'água

Guandu é responsável pelo abastecimento de nove milhões em 12 municípios

Por O Dia

Rio - Na última terça-feira, por volta das 14h, debaixo de um sol de 38 graus, o comerciante Vauter Soares, de 36 anos, cumpria uma rotina que não muda há dois anos: carregava nas costas um galão de água cedido por um vizinho que tem poço artesiano, no bairro Prados Verdes, em Nova Iguaçu. Suas torneiras estavam secas, como ocorre praticamente todos os dias, há meses.

Vauter e a rotina quase diária de carregar galão de água cedida por vizinho em frente a ETA Guandu%2C em Nova Iguaçu%3A 'Muita humilhação'João Laet / Agência O Dia

Ironicamente, a casa de Vauter fica em frente à Estação de Tratamento de Água do Guandu, a maior do mundo, segundo o livro dos recordes ‘Guinness Book’, e responsável pelo tratamento de 43 metros cúbicos por segundo, que abastecem nove milhões de pessoas em 12 municípios, incluindo 85% da capital.

“É uma situação humilhante e inexplicável. Não dá para entender porque a minha casa (na esquina da antiga Estrada Rio-São Paulo com Estrada Francisco Amorim Viana) e dos meus vizinhos, a menos de trinta passos do muro da Estação do Guandu, do outro lado da rua, nunca tem abastecimento regular. É como viver num árido sertão de frente para um rio caudaloso. Parece piada, mas é nossa dura realidade”, desabafa Vauter.

Na mesma situação está boa parte dos mais de 50 mil moradores da localidade, onde a maioria dos consumidores quer regularizar suas ligações junto à Cedae. No entanto, as negociações não avançam. Procurada, a empresa informou que está investindo para resolver o problema da falta de água na região, que se agrava com a falta de chuvas e o forte calor.

Pesquisa do Instituto Climatempo revelou que com uma temperatura média de 36,9 graus, o Rio é a capital mais quente do país neste verão, superando, pelo segundo ano consecutivo, cidades historicamente mais quentes, como Teresina (PI) e Cuiabá (MT). “Na Baixada não é diferente. O inferno é o mesmo. Todos os dias eu tenho que levar 200 litros de água do meu trabalho para casa, num tambor acoplado a uma carroça de ferro que fiz. Desde o ano passado, só cai um palmo de água encanada na minha caixa a cada 24 horas”, ressalta o mecânico Sérgio Domingues, 52, morador da Rua Marcelino, paralela à de Vauter.

No mesmo bairro Prados Verdes, a 150 metros da Estação do Guandu, a direção do colégio particular Professor Santana, para não fechar as portas este ano, mandou perfurar um poço no pátio da unidade. “Vamos conseguir agora encher duas caixas de mil litros por dia. Mas a qualidade da água não é boa. Só vai servir para limpar banheiros e salas de aula”, diz Sebastião Palagar, 50, funcionário da instituição, que tem 150 alunos.

Hospital teve que cancelar cirurgias

A crise hídrica, além de escolas, também afeta hospitais. Em Nova Iguaçu, o Hospital Geral da Posse teve que suspender, na segunda-feira, quatro cirurgias programadas (eletivas) por conta da falta d’água. As operações foram feitas ao longo da semana. Parentes denunciam ainda que pacientes estão ficando sem higiene adequada.

Ana%2C 6%2C observa a caixa vazia de sua casa%2C em MagéJoão Laet / Agência O Dia

Em São João de Meriti, poços artesianos têm sido a solução para muita gente. “Juntamos R$ 4 mil e mandamos abrir um poço de 40 metros de profundidade. Há oito meses não temos água da Cedae, que também parou, pelo menos, de nos mandar contas”, afirma Jorgenete dos Santos, de 59 anos. Ela mora numa das dez casas de uma vila na Rua Nilópolis, no bairro Éden.

O desespero e a revolta pela falta d’água estão se traduzindo em protestos. Em Magé, por exemplo, moradores do bairro Barbuda e adjacências interromperam, semana passada, por dois dias, o trânsito na BR-493 (Magé/Manilha), ateando fogo em barricadas. “São dois meses sem água tratada”, diz Juliana Santos, 27, que mora com a filha, Ana, 6, às margens da rodovia.

Sérgio leva água do trabalho para casa em um carrinho de mãoJoão Laet / Agência O Dia

Cedae garante melhorias

Questionada, a Cedae não explicou porque motivo moradores que residem no entorno da ETA Guandu não recebem água regularmente. Em nota, a direção da empresa informou que o novo presidente, Jorge Briard, recebeu recomendação expressa do governador Luiz Fernando Pezão para solucionar o problema da escassez de água na Baixada, por meio dos projetos Água para Todos e Guandu 2, duas de suas principais promessas de campanha.

Só para o Guandu 2, Pezão já assinou junto à Caixa Econômica Federal empréstimo no valor de R$ 1 bilhão, correspondente à operação de R$ 3,4 bilhões para a construção do novo sistema, que vai produzir água suficiente para mais três milhões de habitantes.

Além de um novo reservatório de 57 milhões de litros e linha de recalque (que abastecerá o reservatório), os recursos serão destinados à construção, em diversos municípios da Baixada, de 17 novos reservatórios e reforma de outros nove que hoje estão fora de operação. Dezesseis elevatórias de grande porte e assentamento de 95 quilômetros de adutoras, mais 760 quilômetros de troncos e rede distribuidora, sairão do papel.

A Cedae informou ainda que concluiu obras importantes nos últimos anos, entre elas, a interligação de adutoras e construção, recuperação e melhoria operacional de pelo menos 15 reservatórios em várias cidades da região, entre as quais, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Nilópolis e Caxias.

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