Cartazes do Disque-Denúncia: Traficantes valem mais que assassinos

Critérios que determinam valores variam de acordo com estratégia

Por O Dia

Rio - Bem ao estilo de filmes de bangue-bangue no Velho Oeste americano, cartazes com fotos de foragidos da Justiça se multiplicam pela cidade. Os valores chamam atenção para a periculosidade dos criminosos. Com a segunda recompensa mais alta da história do Disque-Denúncia (2253-1177) — a primeira foi R$ 100 mil pelo esconderijo de Fernandinho Beira-Mar,  o paradeiro de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, que aterroriza a região do Complexo da Pedreira, chegou a R$ 50 mil.

Os critérios que determinam os valores são variados. O prêmio faz com que o denunciante passe a ficar mais alerta em relação ao paradeiro de um bandido. Com isso, o número de denúncias aumenta, e as chances de captura também.

A prisão de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, vale R$ 50 milDivulgação

Mas não são denúncias motivadas por interesses financeiros. “Paga-se muito pouco em recompensa. As pessoas não se apresentam para receber. Elas denunciam por pura indignação”, relata José Antônio Borges Fortes, o Zeca Borges, coordenador do programa, que completa em agosto 20 anos de atividade. Apenas R$ 20 mil foram investidos em recompensas no ano passado.

É o que a equipe do Disque-Denúncia chama de princípio de oportunidade. Quando delatado, o bandido é obrigado a se movimentar e, dessa forma, aumentam as chances de ser preso. A estratégia de inflacionar o valor da captura de um traficante não significa que ele seja mais perigoso do que um outro, acusado de assassinatos, por exemplo. No entanto, informações sobre homicidas, estupradores e estelionatários estão cotadas em menos de R$ 5 mil.

Os traficantes Rafael Alves, o Peixe, e Edson Silva de Sousa, o Orelha, estão com os valores em alta. Cotados a R$ 20 mil cada, eles dominam a Vila Aliança e o Complexo do Alemão. Além de desafiar o estado, a presença deles causa medo aos moradores das regiões. Até o dia 8, o ‘valor’ de Playboy se equiparava aos outros dois, porém, com os recentes episódios — que relacionam o criminoso ao roubo de mais de 190 motos do depósito da empresa Rodando Legal, na Fazenda Botafogo —, seu preço subiu.

A hipótese de aumentar a recompensa de Playboy já estava sendo estudada com a Secretaria de Segurança. O roubo das motos foi somente a gota d'água. Ao aumentar o valor, a estratégia do Disque-Denúncia é deixá-lo exposto, já que a população fica ainda mais atenta aos movimentos do criminoso.

Para a professora de Direito da PUC-Rio Elizabeth Sussekind, a valoração desses criminosos se deve a uma cultura que vê o tráfico de entorpecentes como o maior problema de criminalidade no Brasil. “Outros crimes acabam ficando mais invisíveis. A polícia acaba por diminuir a categoria de outras ações, que são altamente nocivas”.

Recursos vêm de empresas

Não é só o tráfico que inflaciona o prêmio do Disque-Denúncia. Em alguns casos, a própria família da vítima oferece a recompensa. É o caso de Heloísa Gonçalves, a Viúva Negra, que matou o marido e o amante, e está sendo procurada pela Interpol. Seu paradeiro bate os R$ 11 mil. Os recursos do Portal dos Procurados vêm de iniciativas privadas, como o Instituto Brasileiro de Combate Contra o Crime.

Outros crimes minimizados

Para a professora de Direito da PUC-Rio Elizabeth Sussekind, todas as formas de corrupção, de má utilização dos recursos públicos, de crimes de colarinho branco, estupros e assassinatos são minimizados pelo Judiciário, trazendo graves consequências para o estado.

“Com a cabeça exposta e com a alcunha de ‘o mais temido da região’, o traficante acaba subindo na hierarquia do tráfico. Com essa exposição, ocorre uma espécie de ‘glamourização’ do bandido”. O especialista em segurança pública e violência no Rio de Janeiro Lênin Pires concorda com a Elizabeth Sussekind. “É uma forma de maquiar a real situação do tráfico de drogas. É um mercado negro que movimenta muito dinheiro e não tem apenas um líder. O sistema é mais profundo”.

Segundo Pires, tudo é feito de modo a transformar a ‘caçada’ num espetáculo, cuja solução está longe de ser alcançada. “Essa ‘glamourização’ na forma de uma monetização de recompensas parte da construção para transformar esse cara no grande inimigo”, diz ele. “Toda hora tem ‘o mais perigoso’. É eficiente porque o criminoso paga pelo crime que cometeu. No entanto, do ponto de vista antropológico, capturar somente o líder de uma facção não significa que o problema acabou”.

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