Santo padroeiro que traduz a alma carioca há 450 anos

No Dia de São Sebastião, prefeito eleva Igreja dos Capuchinhos a ‘templo afetivo’

Por O Dia

Rio - O prefeito Eduardo Paes assina nesta terça-feira, após a missa em homenagem a São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, decreto relacionado à comemoração dos 450 anos de fundação da cidade, que elevará a Igreja dos Capuchinos, a Templo religioso de especial valor afetivo do povo carioca. A Arquidiocese do Rio também concederá à igreja a condição de Santuário Arquidiocesano.

“É o reconhecimento da igreja à importância do local, que é de peregrinação e devoção ao santo”, disse o arcebispo da cidade, Dom Orani Tempesta, que realizou uma missa no local. O presidente do Comitê Rio 450, Marcelo Calero, contou que a iniciativa em elevar a igreja a templo afetivo aconteceu pela sua ligação com a história da cidade. É lá que estão os restos mortais de Estácio de Sá, fundador da cidade, e também os marcos da fundação do Rio. Calero, comentou ainda que serão assinados outros dois decretos relativos ao aniversário da cidade, mas adiantar o teor.

O arcebispo do Rio%2C Dom Orani Tempesta (ao centro)%2C segura a imagem restaurada do padroeiro da cidade%2C encerra com missa no Cristo Redentor a trezena de São SebastiãoBruno de Lima / Agência O Dia

A Arquidiocese encerrou nesta segunda, no Cristo Redentor, a trezena de São Sebastião, com a presença da imagem peregrina do santo. As comemorações em homenagem ao padroeiro da cidade começam às 7h, com a corrida de São Sebastião, no Aterro do Flamengo. São esperados cinco mil participantes que antes da largada serão abençoadas por Dom Orani.

Em seguida, o arcebispo irá à Igreja dos Capuchinos para uma missa, às 10h (haverá celebrações também às 5h, 6h, 7h, 8h, 10h, 12h, 14h, 15h, 16h, e 18h). Ao fim da celebração, haverá uma carreata até a Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. O grupo levará os restos mortais do seminarista Guido Schaffer, que está em processo de beatificação em andamento no Vaticano, até o templo, onde serão depositados.

De acordo com a Arquidiocese, as maiores novidades serão durante a procissão, que sai às 16h, da Igreja dos Capuchinos. Pela segunda vez, desde 1958, a imagem original de São Sebastião será retirada da igreja. Segundo os religiosos, a imagem foi trazida por Estácio de Sá, de Portugal, no século XVI.

O trajeto de 4Km, percorrerá desde a igreja, na Rua Haddock Lobo, na Tijuca, até a Catedral Metropolitano, na Avenida Chile, no Centro. Quando passarem pelo bairro do Estácio, 450 crianças soltarão bolas vermelhas e brancas, para fazer menção ao aniversário do Rio de Janeiro. Quando a procissão já estiver próxima da Catedral, policiais no helicóptero da Polícia Civil jogarão pétalas de rosa sobre os fiéis.

A festa será encerrada com um auto que conta a história de São Sebastião, porém, de forma diferente. Neste ano, os personagens também farão referência a episódios com a História dos 450 anos da cidade.

Depois de restauro, costelas e umbigo de fora

Sob as dez camadas de massas e tintas retiradas da imagem de São Sebastião, que tinham sido usadas em intervenções anteriores, sem registros, uma surpresa: apareceram relevos das costelas e do umbigo. “O material retirado fez a estátua, que ganhou cinco flechas de prata, literalmente emagrecer um quilo. Não foi preciso nem academia”, brinca o frei Cassiano Gonçalves, de 36 anos, perito especializado em obras de artes sacras e conservação, responsável pelo trabalho, ao lado da restauradora Graça Costa, mostrando uma imagem antiga, bem mais “rechonchudinha”.

Protegida por vidros blindados e seguranças, a imagem vai integrar, hoje, dia dedicado ao santo, a tradicional procissão em sua homenagem. A estátua, de 89,5cm de altura e 11Kg, será conduzida numa carruagem antiga, às 16h, da Paróquia São Sebastião dos Frades Capuchinhos, até a Catedral Metropolitana.

A imagem%2C antes (E) e depois (D) da restauração%2C ganhou flechas e olhos escuros%3A costelas e umbigo escondidos por camadas de tintasArte%3A O Dia

“Há tempo esta imagem, de madeira de lei, que era carregada em andor por fiéis há 15 anos, estava enclausurada na igreja”, ressalta o frei. O resultado do esforço dos dois, documentado em mais de mil fotos que vão compor um livro, foi exibido pela primeira vez na missa de Natal de 2014.

A proteção à escultura tem explicação: durante oito meses foram gastos pelo menos R$ 80 mil no restauro da obra, cujo autor é desconhecido. “O valor religioso para os católicos, que bancaram a recuperação da peça, é inestimável e, claro, mais importante”, pondera frei Cassiano, adiantando que a imagem, que é guardada em lugar de acesso restrito na paróquia, será colocada num nicho para visitação permanente ainda este ano. O local também será protegido por vidros blindados e alarmes.

Para se chegar ao mais próximo possível da aparência original, a imagem datada de 1563 foi submetida a exames, entre eles, tomografia e raios X no Laboratório de Instrumentação Nuclear da Coppe/UFRJ. Frei Cassiano revela outra curiosidade. “Descobrimos que os olhos originais eram castanhos e não azuis, como os de vidro que foram colocados em 1958, após uma queda. Agora os atuais são de cristais castanhos, feitos na Itália”, comenta o religioso.

Devoção une os cariocas

A devoção à imagem de São Sebastião se confunde com a História do Rio. Os frades capuchinhos receberam do imperador D. Pedro II a atribuição de serem os guardiões das três relíquias da cidade: a imagem de São Sebastião, a pedra fundamental da cidade e os restos mortais de Estácio de Sá. Todas estão na Igreja dos Capuchinhos, na Rua Haddock Lobo, 266, na Tijuca. “São Sebastião é capaz de colocar todos os cariocas juntos, até por causa do sincretismo religioso”, diz Frederico Araújo, um dos 15 frades da paróquia.

Para o cardeal-arcebispo do Rio Dom Orani Tempesta, São Sebastião “é a cara do Rio e do carioca”. “O carioca tem isso, enfrenta problemas, sabe conviver com dificuldades, não desanima. Isso está em sua gênese”, resume.

O mártir católico se identifica com a cidade também por conta de um episódio lendário. Um dos combates da guerra que duraria até 1567, na enseada de Botafogo, contrapôs mais de uma centena de canoas dos indígenas contra quatro do lado português. “Houve quem afirmasse ter visto um jovem guerreiro de armadura, vindo dos céus, saltando de canoa em canoa e matando os tamoios”, conta o professor de História Leonardo Seiichi.

A mistura de crenças e raças faz com que São Sebastião seja representado também nos cultos afro. Segundo o babalorixá Batista D’Obaluayê, o santo, que nos terreiros foi sincretizado com Oxossi, se identifica com o carioca, que “tem vontade de viver a vida, e gosta da liberdade”, lembra.

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