Paraísos do Rio são ameaçados pela seca

Chegada da chuva deve recuperar pontos turísticos que perderam a água, um de seus atrativos

Por O Dia

Rio - A previsão de frente fria traz esperança de recuperação a locais que tinham a beleza natural destacada pela água em abundância, mas passaram a apresentar cenários devastadores devido à seca e ao forte calor. É o caso das cachoeiras do Parque Nacional da Tijuca, onde as três bacias hidrográficas estão somente com 20% da capacidade do volume normal. Ao contrário das densas correntezas que cobriam quedas como a Cascatinha e a Cachoeira das Almas, hoje filetes de água traduzem o drama da crise hídrica.

“Visitantes antigos ficam chocados quando veem a escassez de água e nascente agonizando. Mas é bom que vejam mesmo, para terem a noção exata das drásticas consequências provocadas pelo descaso do homem com a preservação da natureza”, justificou o chefe do parque, Ernesto Viveiros de Castro, ressaltando que a falta de chuvas constantes fizeram também com que os lagos do Parque Lage, aos pés do Morro do Corcovado — uma das áreas verdes mais imponentes da cidade —, secassem. No local, rachaduras no chão indicam a gravidade da situação.

ANTES E DEPOIS: Conhecidas pela beleza%2C as quedas d’água na Floresta da Tijuca... hoje apresentam só pedras e vegetação com umidade nos dias atuaisJoão Laet e Severino Silva / Agência O Dia

LAGOA ABAIXO DO NÍVEL

A desolação, na mesma proporção, pode ser percebida na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, um dos principais parque públicos do município. Os espelhos d’água dos lagos deram lugar ao lodo e a grama seca surpreende antigos e novos frequentadores. Os tradicionais passeios de pedalinho tiveram até que ser suspensos. “Dá tristeza de observar. Meus filhos não vêm mais aqui. É frustrante”, lamentou o pintor João Santos, de 39 anos.

Turistas lamentam a mudança radical do panorama na Quinta. “Coloquei no meu roteiro de férias como prioridade, mas estou decepcionada. Nas propagandas vi reservatórios cheios e muita vegetação. Agora não tem nada disso”, queixou-se a publicitária Mônica Almeida, 28 anos, moradora de Andrelândia (MG).

Outro ponto paradisíaco do Rio, a Lagoa Rodrigo de Freitas, com 9,5 km de contorno e ligada ao mar pelo Jardim de Alá, que separa Ipanema do Leblon, também não esconde os reflexos do tórrido verão, que já transformou o Rio na capital mais quente do País, com temperatura média de 36,9 graus, segundo o Instituto Climatempo.

Lagoa Rodrigo de Freitas%3A atração com nível normal de água...e atualmente%2C parte do fundo aparecendo%2C devido à redução de águaSeverino Silva / Agência O Dia

O espelho d’água está bem abaixo do normal, deixando até um píer fincado praticamente na lama. Mas, pelo menos no caso da lagoa, a redução da capacidade traz, de certo modo, benefício para o espaço aquático. É o que garante o conceituado oceanógrafo David Zee, especialista na questão de água.

“Sem água entrando como meio de transporte, a quantidade de esgoto diminui, melhorando momentaneamente a qualidade da água e, consequentemente, o habitat natural de milhares de espécies da fauna aquática”, explicou David. Ele, entretanto, pondera que se o lençol d’água chegar a níveis muito baixos, além de acelerar a degradação da vegetação marginal, há o risco de salinização da água, causando grave desequilíbrio natural e atingindo a camada freática. “Isso pode inviabilizar poços artesianos da região”, adverte.

Interior do Rio também sofre

?A pior seca dos últimos 80 anos também atinge pontos fundamentais para o abastecimento e que funcionam como atrativos turísticos no interior. Um dos principais é a Represa do Funil, em Itatiaia, no Sul Fluminense, que gera energia para 600 mil pessoas.

Na sexta-feira, o reservatório estava apenas com 3,49% de seu volume útil, o pior da história, deixando à mostra ilhas enormes de terra, que, desde 1969, ano de sua inauguração, nunca tinham sido avistadas.

“O entorno da Bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece 14 milhões de usuários, precisa de reflorestamento que acumule água de chuvas. Com 80% da área verde devastada ao redor da bacia, o colapso total se aproxima cada vez mais rápido”, explica Adacto Ottoni, coordenador de Especialização em Engenharia Sanitária e Ambiental da Uerj.

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