Por thiago.antunes
Publicado 27/01/2015 00:49 | Atualizado 27/01/2015 11:23

Rio - Uma “nação de criminosos”. Foi assim que o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, classificou nesta segunda os responsáveis pela onda de tiroteios que vêm amedrontando na cidade. Somente em dez dias, 17 pessoas foram vítimas de balas perdidas na Região Metropolitana, um dado que ofusca a apreensão recorde de armas feitas pela polícia, 1.128 nos últimos dois meses.

Apesar das operações para coibir a ação de criminosos, o secretário voltou a admitir que, sozinho, não consegue impedir a livre entrada de armas no estado. “Aquelas 11 armas apreendidas no Morro do Juramento (em Vicente de Carvalho, semana passada) são as inimigas do Rio de Janeiro, pois entram por nossas fronteiras, totalmente desprotegidas”, ressaltou Beltrame em entrevista ao canal a cabo ‘Globo News’.

Beltrame argumentou que é responsabilidade do Governo Federal cuidar das fronteiras do país para impedir que drogas e armas cheguem aos estados. Ele ainda lembrou que levou projeto à Câmara dos Deputados e ao Senado, pedindo maior controle das fronteiras, mas que nada foi feito.

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“O tráfico é produto de pessoas que têm desapego com a vida humana e idolatria por armas. Dentro de seus redutos, que ainda não estão ocupados, eles fazem uso dessas armas como quem faz uso de qualquer outro objeto, causando a morte de inocentes que estão fora do império que eles comandam. A polícia têm seus problemas, mas é muito importante o questionamento da sociedade, pois essas balas perdidas foram provocadas por traficantes”, concluiu Beltrame.

Para tentar dar um fim à guerra de bandidos que assola a Zona Norte há semanas, o secretário garantiu que os morros do Chapadão e Juramento deverão ser ocupados por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

O Instituto de Segurança Pública (ISP) revelou que 4.410 pessoas foram presas de novembro até o último domingo. De acordo com o chefe operacional do Estado-Maior da PM, coronel Lima Freire, no mesmo período foram apreendidas 1.236 armas em operações policiais, a maioria na Zona Oeste e Baixada. No balanço, foram tirados de circulação 65 fuzis, 578 pistolas, 539 revólveres e 54 granadas. De acordo com o coronel, cada fuzil apreendido custa entre R$ 30 mil e R$ 40 mil. Também foram apreendidos 1.488 menores.

Sandra dormia em Bangu quando bala perdida atingiu sua cabeça. Ela foi a 17ª vítima em dez diasDivulgação

O professor Ignácio Cano, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Uerj, discordou dos números do secretário. Segundo o especialista, os homicídios têm aumentado “de forma significativa” desde 2012, o que, segundo ele, favorece o aumento de pessoas atingidas por balas perdidas. “Quando há mais mortos pela polícia e também mais policiais mortos, aumenta a estatística. Além disso, desde 2009 que as metas da polícia não foram reajustadas. Resolver um crime de bala perdida também é muito mais difícil do que solucionar um crime direto entre o autor e a vítima”, analisou.

Na madrugada desta setunda, mais uma nova vítima da violência: Sandra Costa dos Santos, de 58 anos, foi baleada na cabeça enquanto dormia, em Bangu. Domingo, Lilian Leal de Moraes, 13, teve a perna ferida num tiroteio entre traficantes no Chapadão, em Costa Barros. Adrienne Solan do Nascimento, 21, também foi atingida no mesmo dia, mas em um confronto entre policiais e traficantes na Rocinha.

Ricardo guardou a bala de fuzil Divulgação

Homem escapa por pouco de entrar para lista de vítimas

Por pouco, o funcionário público Ricardo Cabral, de 29 anos, não entrou para a estatística de vítimas deste mês. Ele caminhava para o trabalho sexta-feira, por volta das 6h, próximo à estação de Metrô de Irajá, quando ouviu um estampido. Quando olhou para trás, viu que uma bala atingiu o portão de uma loja, bem ao seu lado.

“O tiro bateu na minha frente. No momento não havia tiroteio e parecia estar tudo calmo. Ouvi um forte barulho, olhei para o chão e me deparei com um projétil de fuzil, calibre 7.62. Por muita sorte, não fui atingido”, desabafou.

Nas redes sociais, Ricardo postou imagens da bala com um relato onde contava o susto. Ele recebeu diversas mensagens de apoio de amigos e conhecidos. “Deus te livrou, meu parceiro, de virar estatística”, disse um amigo. Somente no ano passado, 2.670 pessoas foram atendidas nos hospitais das redes estadual e municipal, feridas por tiros. Em áreas pacificadas, os confrontos estão cada vez mais frequentes e moradores voltaram a sentir medo.

Peritos examinam casa de vítima em Bangu

Agentes da 34ª DP (Bangu) fizeram perícia ontem em Bangu, região onde Sandra foi ferida enquanto dormia. Segundo o comando do 41°BPM (Irajá), houve tiroteio entre bandidos no momento do crime. Policiais do 14°BPM (Bangu) também realizaram operação para coibir o tráfico na comunidade da Vila Aliança, em Senador Camará.

A filha da vítima disse que a mãe apareceu em sua casa no meio da noite, ensanguentada. “Ela acordou sentindo dor na cabeça, colocou a mão e viu que estava banhada em sangue”, Thaís Costa. Sandra chegou consciente ao hospital e teve alta ontem no final da tarde. O local onde a vítima mora fica próximo de onde a menina Larissa de Carvalho, de 4 anos, também foi atingida por uma bala perdida dia 17 a menian moreru horas depois.

Já Alexandre do Nascimento, irmão de Adrienne — que morreu na Rocinha e deixou dois filhos —, criticou o preparo dos PMs que atuam na UPP local. “É gente despreparada. Nós que somos trabalhadores sofremos com os tiroteios. Isso não tem solução.” Ontem à noite, um jovem também foi atingido na Fazendinha, Complexo do Alemão.

Vítimas

26/01

Sandra Costa dos Santos, 58 anos, ferida na cabeça quando dormia, em Bangu

25/01

Adrienne Solan do Nascimento, 21 anos, morreu baleada na Rocinha.

25/01

Lilian Leal de Moraes, 13, ferida em Costa Barros na guerra entre traficantes.

25/01

Wilian Dias, 24 anos, Marcelo Marques dos Santos, 42, Milton dos Santos Mota, 56, e Norman Maria Silva Rego, 53, feridos em Mesquita durante tiroteio.

24/01

Caio Robert Carvalho Rodrigues, 15, baleado ao visitar amigos em Niterói.

24/01

Uma mulher e um adolescente ficaram feridos em tiroteio no Juramento.

23/01

Edilton de Jesus dos Santos, 20, atingido dentro do Parque Madureira.

22/01

Lavínia Crissiullo, 3, ferida no Estácio.

22/01
William Robaiana, 35, baleado em Santa Cruz.

20/01

Márcia Costa, 44, ferida em Bangu.

18/01

Asafe Ibrahim, 9, baleado no Sesi de Honório Gurgel, morreu dias depois.

17/01

Carlos Eduardo Rodrigues de Paula, 33, atingido por tiro em Bangu.

16/01

Larissa de Carvalho, 4, morreu após ser atingida por bala perdida ao sair de restaurante em Bangu.

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