Bairros com áreas disputadas pelo tráfico ficam com menos serviços

Violência muda rotina do comércio e mobilidade

Por O Dia

Rio - A violência da guerra entre traficantes dos morros da Pedreira (em Costa Barros), Chapadão (na Pavuna) e Juramento e Juramentinho (em Vicente de Carvalho) está mudando a rotina dos moradores desses e de outros bairros vizinhos. Quadrilhas tomam as casas de cidadãos, limitam áreas e dificultam serviços públicos. Algumas empresas chegaram a fechar as portas, e famílias estão se mudando para não virarem reféns da disputa de bandidos por territórios.

“Chega de ficar na linha de tiro todo dia. Para não ser a próxima a morrer, estou indo embora”, explicou-se, terça-feira, a enfermeira X., de 31 anos, enquanto saía às pressas do Morro do Juramento, levando apenas uma mala. O medo se justifica pelas cinco vítimas inocentes de balas perdidas só este mês, na disputa de facções por território.

Ruas transversais à Ribeyrolles%2C em Coelho Neto%2C foram fechadas por 'cercas' de ferro%2C impedindo a entrada de carros. Moradores dão volta de mais de 2 km para sairPaulo Araújo / Agência O Dia

A Polícia Militar garante que reforçou a segurança nessas áreas por tempo indeterminado. Moradores usam as redes sociais para denunciar o abuso dos criminosos. O principal alvo da polícia na guerra do trpafico nestes bairros é Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy. O Portal dos Procurados oferece R$ 50 mil de recompensa pela sua captura.

“Peço ajuda para as ruas Barão e Detetive Hungria, porque bandidos menores de idade, com armas e bombas, estão colocando medo nos moradores. Há casas onde eles entram e de onde não saem”, descreveu, às 22h do dia 24, um internauta de Guadalupe no site guadalupenewsoficial.blogspot.com.br. Ele afirma que moradores se tornaram reféns de adolescentes, que ocupam as casas. “Os moradores estão convivendo com eles em seus lares”, detalha.

Quadrilhas de jovens

Sem intimidação, jovens se exibem com fuzis e pistolas na internet, demonstrando o poder de fogo que têm em mãos. A formação de quadrilhas infantis é investigada pelas delegacias de Honório Gurgel (40ª DP) e de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA).

Pelas redes sociais%2C jovens do Complexo da Pedreira%2C que aparentam ser menores de idade%2C se exibem com armas potentes no alto do morroGuadalupe News

O envolvimento de menores em crimes na Zona Norte é uma realidade revelada nos números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio. Dos 2.726 apreendidos em flagrante praticando delitos em 2014 pela polícia na capital, 1.083 o foram naquela região. É o equivalente a três por dia.

O sociólogo e especialista em Segurança Pública José Santos Filho cobra maior responsabilidade dos governos municipal, estadual e federal em relação a implementação de políticas públicas para afastar jovens do crime. “É preciso dar horizontes a essa faixa etária em termos de emprego, cultura, esporte e lazer”, defende.

Ninguém descobriu quem instalou as barras de ferro

Nas vias onde os ataques a motoristas são mais constantes, como as transversais das ruas Theremim e Ribeyrolles, nas imediações da Igreja São Jerônimo, em Coelho Neto, foram instaladas barras de ferro que impedem a passagem de veículos pela entrada principal da rua. Motoristas precisam dar volta pela parte de trás, rodando uns dois quilômetros a mais.

No Juramento%2C cansada de tiroteios%2C moradora mudou-seSeverino Silva / Agência O Dia

“É uma aberração. Ninguém sabe quem colocou essas barreiras e nem o objetivo. Me parece que a intenção é impedir que bandidos circulem com carros roubados”, lamenta o pároco local, Flávio de Oliveira. A prefeitura, que não permite fechamento de ruas sem autorização, disse que vai enviar equipe ao bairro.

Só para se ter uma ideia, nas áreas do 41º BPM (Irajá), 17º (Ilha), 16º (Olaria), 9º (Rocha Miranda), 3º (Méier) e 6º (Tijuca), que têm a Avenida Brasil e linhas Amarela e Vermelha como principais rotas de fuga, foram roubados 8.827 veículos ano passado, um por hora, cerca de 654 a mais que em 2013, segundo o Instituto de Segurança Pública. Em toda a capital, no mesmo período, 13.737 veículos foram levados por ladrões.

No Juramento%2C lixo se acumula e há vazamento de água%2C mas violência prejudica prestação de serviços Severino Silva / Agência O Dia

Crime afasta serviços

Quinta-feira, um forte vazamento d’água saía de uma tubulação da Cedae na Av. Prefeito Sá Lessa, paralela ao Rio Acari, em plena crise hídrica. No entanto, moradores ficaram aguardando o conserto que não chegou por causa da falta de segurança na região. “A Cedae alega que não manda técnicos aqui por causa do Morro da Pedreira. Já a Comlurb prometeu recolher o lixo, mas até agora, nada”, lamentou a moradora A., de 42 anos. Em nota, a empresa afirmou que “trabalha normalmente em todo o estado”.

Y., de 39 anos, também se queixa dos assaltos. “Não poupam nem os próprios moradores”, conta, revelando que a cabine da PM, na praça principal, tem ficado vazia desde que a guerra entre as quadrilhas se intensificou. Na quinta-feira à tarde, O DIA constatou a ausência de policiais.

Os roubos de cargas também atingem empresas. Na Zona Norte, conforme relatório do ISP, 2.309 caminhões de mercadorias foram levados por bandidos em 2014, mais que o dobro do ano anterior. Entre as cargas, estão mais de mil carregamentos de cerveja e cigarros. A Ambev e a Souza Cruz evitam entregas, alegando insegurança para os funcionários.

Uma das vias evitadas por motoristas é a Estrada do Camboatá, em Guadalupe. Na altura do chamado Muro da Light, traficantes fazem falsas blitzes, sempre no início da noite. Os confrontos também fazem com que funcionários da Light e dos Correios evitem o local. A assessoria dos Correios informou que as entregas obedecem a levantamento prévio de riscos. O sindicato da categoria denuncia que “há assédio moral” para que os produtos sejam entregues. A PM alega que, às vezes, cabines ficam vazias temporariamente para policiais fazerem lanche ou atenderem a alguma ocorrência.

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