Transposição do Paraíba do Sul é licitada sem acordo sobre vazão

Edital da obra no Rio foi lançado, mas secretário diz que volume a ser retirado não está definido: 'acordado só o início das obras'

Por O Dia

Rio - O secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, negou ao DIA que já esteja acertado o volume de água que será retirado da Bacia do Paraíba do Sul, na transposição para o sistema Cantareira de São Paulo. Segundo Corrêa, o que ficou acordado foi “apenas” o início das obras. A declaração vai de encontro ao que informaram o governo paulista e a Agência Nacional de Água (ANA).

“Aceitamos apenas o início das obras. Há ainda um ano e oito meses (um ano e seis meses) para que possamos chegar ao consenso sobre a questão da retirada da água da bacia”, disse, por telefone. Ele afirmou, porém, que a proposta de São Paulo é que o volume da retirada seja de 5 mil litros por segundo.

Devido à seca%2C o nível do reservatório de Funil%2C um dos quatro da Bacia do Paraíba do Sul%2C chegou bem próximo de atingir o volume mortoAgência O Dia

Embora, segundo o secretário fluminense, ainda não haja acordo, o edital de licitação lançado nesta sexta-feira prevê a possibilidade de transposição de até 8,5 mil litros por segundo — o volume é capaz de atender a 2,5 milhões de pessoas. Não consta nele contrapartida, porém, para compensar a retirada de água da bacia. Na quinta, o DIA publicou que o Plano Diretor de Aproveitamento dos Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista previa a construção de “reservatórios de regularização nos afluentes do Rio Paraíba do Sul, visando a preservar as condições hídricas atuais”.

A reportagem pediu à ANA as atas e o relatório final dos encontros entre os estados — que inclui Minas Gerais, também interessado na questão —, mas, segundo a assessoria de imprensa, o teor da última reunião só será divulgado após todos os presentes no encontro — André Corrêa, inclusive — assinarem suas informações.

O medo da transposição das águas do Paraíba do Sul está no fato de o rio ser o único capaz de atender o abastecimento da Região Metropolitana do Rio e parte do interior fluminense. É também nele onde se gera parte da energia consumida no estado.

Nesta sexta-feira, o governador Luiz Fernando Pezão assinalou que não vai aceitar a redução da retirada de água do Paraíba para o Guandu, que abastece o Rio, para 110 mil litros por segundo, como propõe a ANA. A vazão normal é de 190 mil litros por segundo e que, por causa da estiagem, a ANA já determinou, desde o ano passado, redução para 140 mil. Nova reunião com a ANA, sobre o assunto, está marcada para o dia 5.

Perdas da Cedae são o dobro do gasto na Baixada

Por dia, 1,3 milhão de pessoas deixam de receber água na Região Metropolitana do Rio, segundo apontou o mais amplo estudo encomendado pelo governo estadual ao Laboratório de Hidrologia e Estudos de Meio Ambiente (Coppetec), da UFRJ. Essas pessoas podem não saber, mas os técnicos da universidade constataram ainda que 38% do volume captado de água pela Cedae não chegam às casas das pessoas.

A perda equivale a 21.015 litros por segundo. Toda esta água é capaz de abastecer uma cidade de pouco mais 6 milhões de moradores. Ou seja, o equivalente a duas vezes a população da Baixada Fluminense — região cujo abastecimento é precário — ou praticamente todos os 6,3 milhões que vivem na cidade do Rio.

O número é contestado por Jorge Briard, presidente da Cedae, que só não é a responsável pelo abastecimento de duas das 21 cidades do Grande Rio — Niterói e Guapimirim. Segundo Briard, a companhia reduziu a taxa de perda para 30,8%. “Já foi pior, reduzimos quase 20%”, defende ele, que atuou, na Cedae, ao lado do antecessor, Wagner Victer. O número, embora alto (16,5 mil litros por segundo, que abasteceriam 4,8 milhões de pessoas), diz ele, é o menor do país. Países desenvolvidos, adotam a meta de menos de 10%. A Alemanha, já em 2007, tinha índice de 6,8%.

Na conta das perdas, entram vazamento das tubulações, a água dos reservatórios de serviço público, aquela que extravasa dos caminhões-tanque, os gatos, as imprecisões nos hidrômetros e erros cadastrais. Ao DIA, Jorge Briard afirmou que a Cedae adicionou equipes para que o trabalho de contenção de vazamentos ocorra 24 horas por dia, além promover a revisão cadastral dos clientes. “Intensificamos ainda o combate ao gato”, afirma.

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