Por karilayn.areias
Paulo Melo%3A 'Cabral não escolheu me liderar%2C eu o escolhi como líder'Estefan Radovicz/Agência O DIA

No PMDB todo mundo se acerta. Mesmo depois de ter suas chances de reeleição para a presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) minadas pelo estilo implacável de Jorge Picciani, Paulo Melo não guarda mágoas. Pudera: trocou o que seria um “simples” gabinete de deputado por um belo espaço no Palácio Guanabara, onde dá expediente como secretário de Governo. Nem bem arrumou suas coisas e ele já quer se mudar de novo, desta vez para o Tribunal de Contas do Estado (TCE), que deverá abrir vaga em março. Para isso, precisará do apoio dos deputados e dos poderes de sua legenda, que, segundo ele, “não tem medo da guerra, mas quer sempre a paz”.

O DIA: O que faz um secretário de Governo?

Paulo Melo: Jamais pensei em vir para o Executivo, mas agora deixei de ser general e virei soldado. Vou fazer a intermediação do governador com o poder político, e ajudar no que o Pezão me colocar para fazer. Vou ouvir as demandas dos deputados, e tentar intermediar os pedidos do jeito que for possível.

Nessa função próxima dos deputados o senhor poderá buscar apoios para levá-lo ao Tribunal de Contas do Estado?

A vaga no TCE pode abrir ou não. Precisamos respeitar quem está lá. Não podemos discutir vaga, e sim pretensões. Eu presidi o PMDB, a Alerj, fui líder de governo. Tenho uma história política, que não me legitima a ganhar, mas me coloca para disputar qualquer cargo. Os deputados sabem o que eu fiz como presidente da Alerj, então não vou influenciar ninguém. Tenho conversado, e vou continuar fazendo isso, mas não estou em campanha porque ainda não tem uma vaga aberta.

Se o senhor virar conselheiro, terá ficado apenas dois meses na secretaria de Governo.

A gente pode ficar dois meses ou não, aqui. A política é muito dinâmica, nem sempre o que você planeja consegue cumprir. Todo mundo na vida pública tem aspirações. Já tenho, inclusive, apoios, alguns já manifestaram isto, como o ex-governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes.

O deputado Domingos Brazão terá o presidente do PMDB, Jorge Picciani, como cabo eleitoral. O senhor teme este apoio?

Picciani não é para temer, é para respeitar. A disputa pelo TCE não é uma guerra: o Brazão tem toda legitimidade para colocar seu nome, se tiver uma vaga. Mas tenho certeza de que a gente vai encontrar algumas nuances que possam minimizar qualquer enfrentamento dentro do partido. Política não se encerra numa frase, é um processo permanente de discussão.

Em entrevista ao DIA, Brazão enfatizou que Sérgio Cabral já “apoiou” muito o senhor, minimizando a influência dele numa eventual disputa pelo TCE.

Estou com o Cabral há 25 anos e ele é meu eleitor. Nunca tinha visto um candidato a governador pedir voto para deputado, e ele fez isso. Ninguém ajudou ninguém; sempre teve uma troca, longe de qualquer interesse. Lá atrás, ajudei muito ele, quando ele assumiu a liderança do PSDB na Alerj. Quando ele se tornou presidente da Casa, entendia ele pelo olhar no plenário. Então, nessa relação fraterna de lideranças, não há dívidas. O Cabral não me escolheu para ser liderado por ele, eu que o escolhi para ser meu líder.

Sua fidelidade aos governos Sérgio Cabral e Pezão pode trazer algum constrangimento na hora de julgar problemas nas contas do Estado pelo TCE?
Iria me declarar impedido de julgar o processo. Não posso julgar as minhas contas. Como deputado, sempre votei de acordo com o que acreditava, e entendi que fidelidade é algo do caráter de cada um: fui fiel ao Marcelo Alencar, a Rosinha Garotinho, quando assumi compromissos com o Garotinho, fui correto. Mas se a gente acha que vai viver de rosário e prosa na política, está muito enganado. Não quero solidariedade por erros.

A secretaria de Governo foi um prêmio de consolação, já que o Picciani minou as suas chances de reeleição na Alerj?

Não. O governador Pezão me ofereceu para ocupar qualquer secretaria técnica, antes mesmo do processo eleitoral da Assembleia. Tem gente que parece promotor de luta, querendo que eu brigue com o Picciani. Estou com ele há 25 anos. Quando vi que minha candidatura não se viabilizou, não teve acordo, eu só retirei. Vi que não havia viabilidade na minha campanha, então liguei para todo mundo que caminhou comigo e anunciei que não era mais candidato. Nós somos um grupo político. Só teria perdido se fosse para o PT, PR, PRB...

O senhor queria ter continuado lá, então?

Era onde eu estava, não é? Pela opção do Fernando Henrique Cardoso, ele teria continuado prefeito de São Paulo, mas perdeu e virou presidente da República depois. Prioridade é aquilo que se oportuniza.

Já nos primeiros dias como presidente da Alerj, o Picciani pediu para analisar todos os contratos que o senhor fez, além de ter exonerado mais de 500 pessoas. Isto lança alguma sombra sobre sua administração?

Ele está certo. O governo do estado está cortando gastos também. É preciso aprimorar a máquina. Em nenhum momento ele fez qualquer comentário sobre qualquer suspeita. Ele está aperfeiçoando a Casa, e isso não me melindra em nada, só me faz aplaudi-lo. Nunca tive problemas em ligar para ele e tirar dúvidas, quando fui presidente da Alerj. Só consegui deixar um fundo de mais de R$ 164 milhões porque recebi uma boa gestão. Sobre os exonerados, também fiz isso quando assumi, e muitos retornarão.

Prevê-se uma disputa entre Pedro Paulo e Leonardo Picciani pela sucessão de Eduardo Paes. O partido seguirá unido?

O Jorge Picciani é de briga, mas é pragmático. Sabemos que o Eduardo Paes tem o direito de escolher seu sucessor, e nós temos dois quadros qualificados. São as condições políticas que vão escolher quem irá para o pleito. Não acredito que o Cabral vá querer ser candidato, ainda que seja uma unanimidade para todos, mas nós aqui temos alternativas.

O que mudou na sua rotina depois que seu sítio foi atacado por criminosos, no ano passado? Fugindo dos tiros, Paulo Melo teve fratura exposta em um dos pés. Dois seguranças foram baleados. Mantive os três seguranças, mas não vou mais aos jogos do Botafogo. Os caras foram presos e tinham uma história de roubo, mas não de entrar atirando, nem levaram nada. Só não mataram todo mundo porque os seguranças estavam armados. Corri 300 metros no meio do mato com o pé destruído.

Desconfia de quem pode ter ordenado o ataque?
Deixa isso pra lá.

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