De Olho na Política: 'Lá vem Portela, malandro'

A valorização extrema dos carros alegóricos preocupa. Acima de todos os quesitos, as escolas são de samba

Por O Dia

Rio - Vou aproveitar o caminho aberto por Luiz Fernando Veríssimo em seu artigo de domingo, no qual contou por que se tornou salgueirense ao chegar ao Rio em 1962. Diz que a cor ajudou, era o mesmo vermelho do Internacional, sua paixão de Porto Alegre. E explica que sempre achou o Salgueiro bonito, mesmo quando não era “a mais convencionalmente luxuosa e criativa”. Eu torço pela escola vermelho-e-branca da Tijuca por outros motivos.

Minha mãe, dona de casa que passou a infância e a juventude no alto da Rua Uruguai, era salgueirense doente. Nas vitórias do Salgueiro nos anos 1960, ela fazia questão de ir à Praça Saens Peña para acompanhar a festa da campeã. Era a época em que Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona revolucionaram os desfiles, com enredos sobre a cultura negra e personalidades como Zumbi e Chica da Silva.

“Até ali, os passistas só queriam sair vestidos de marquês”, lembrava Pamplona, ao risos. Em torno de Pamplona, surgiu uma geração de carnavalescos que também contribuiu para a evolução das escolas de samba: entre eles, Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães, Maria Augusta e Max Lopes.

Joãosinho foi, sem dúvida, o mais criativo. Depois de conquistar o bicampeonato em 1974 e 1975 no Salgueiro, fez mudanças que tiveram de ser seguidas por todos. Aumentou a altura dos carros alegóricos (para atender à televisão e às arquibancadas cada vez maiores) e, com o competente Laíla à frente da harmonia, exigiu que as alas passassem da forma mais compacta possível. Assim deu vários campeonatos à Beija-Flor de Nilópolis.

Maria Augusta não foi campeã, mas inovou na União da Ilha. Perfeccionista com os figurinos, Rosa Magalhães levou a Imperatriz ao tricampeonato em 1999, 2000 e 2001. O genial Joãosinho já nos deixou, mas Rosinha estará na Avenida hoje com a São Clemente e um enredo que homenageia o pai de todos, Pamplona.

Nos últimos anos, surgiram novos nomes. O principal é Paulo Barros, que começou a dar espetáculo com uma alegoria humana na Unidos da Tijuca em 2004. Depois, conquistou três títulos com a escola do Morro do Borel. No ano passado, venceu em desfile discutível, dedicado a Ayrton Senna e com um carro pesado e sem graça, apinhado de troféus.

Ele se mudou para a Mocidade, que exibiu suas surpresas ontem. Paulo Barros merece a fama, mas seu predomínio marca também a valorização extrema das alegorias. Esse quesito foi decisivo nos julgamentos dos últimos dez anos, segundo pesquisa do ‘Globo’. Atualmente, o investimento em alegorias e adereços dobra a chance de ser campeã.

A tendência preocupa. E talvez explique por que as escolas não atraem mais os jovens da classe média e estão deixando de fazer parte da vida da cidade (já os blocos de rua não param de crescer). Houve tempo em que o Carnaval era decidido pela qualidade do samba. Em 1993, por exemplo, o Salgueiro quebrou um jejum de 18 anos com ‘Explode Coração’, que continua cantado em todo o país.

Hoje à noite, a Portela, que não vence um desfile há 30 anos sempre prejudicada pela ênfase dada aos carros alegóricos, comemora os 450 anos do Rio com um samba-enredo maravilhoso. “Lá vem Portela, malandro, o samba chegou!”, exclama o refrão de Noca. Seria muito bom que a escola de Madureira, de Monarco, Candeia e Paulinho da Viola empolgasse os jurados. Acima de todos os quesitos, as escolas são de samba.

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