De Olho na Política: Muita lama no fundo do poço

O Congresso foi tomado por grupos patrimonialistas. Não há mais lugar para convicções e idealismo

Por O Dia

Rio - No regime militar, os ditadores de plantão fizeram verdadeira devassa na vida particular de Leonel Brizola atrás de indícios de corrupção e de enriquecimento ilícito. O inimigo número 1 já estava longe no exílio no Uruguai, de onde só voltaria com a anistia em 1979, mas, mesmo assim, foi alvo de várias comissões gerais de inquérito. Seus algozes se frustraram: nada foi encontrado que pusesse em dúvida a honestidade de Brizola.

Com o líder comunista Luiz Carlos Prestes aconteceu o mesmo. Dizia-se que Prestes tinha em seu poder uma fortuna, o chamado “ouro de Moscou”. Graças à fonte inesgotável de financiamento externo, daria sustento aos seus e aos movimentos sociais. Depois de 70 anos de vida pública, ele morava num apartamento doado por Oscar Niemeyer. O bravo Ulysses Guimarães fazia campanhas eleitorais de custo zero, quase anônimas, sem santinhos, faixas ou cartazes. Seus amigos, preocupados, cotizavam-se para ajudá-lo a se reeleger.

Eram outros tempos, outros costumes, principalmente outra gente. Brasileiros e brasileiras que faziam política por convicção. Brizola e Prestes foram perseguidos e tiveram mandatos cassados exatamente por isso. O primeiro pagou com longo exílio, e o segundo, com dez anos de prisão, além de clandestinidade e exílio. Já Ulysses deu combate à ditadura, numa odisseia que só terminou com a edição da Constituição cidadã de 1988. São exemplos de que a política neste país já foi exercida por homens (e mulheres) dignos e honrados. Gente que não via na vida pública apenas oportunidade para enriquecer. Infelizmente, nas palavras de Fernando Gabeira, o Congresso foi tomado por grupos patrimonialistas. Não há mais espaço para convicções e idealismo. Decepcionado, Gabeira retornou ao jornalismo.

O resultado da derrocada ética e moral está aí. Quarenta e nove políticos de seis partidos arrolados no pedido de investigação da Procuradoria-Geral da República por envolvimento no caso de corrupção da Petrobras. São 22 deputados federais, 12 senadores e 13 ex-deputados. Há ainda a ex-governadora Roseana Sarney e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Os crimes vão da corrupção passiva à formação de quadrilha, passando pela lavagem de dinheiro. Na internet, alguns eleitores bem-humorados concluíram que não é uma lista de investigados, mas, sim, um álbum de figurinhas.

E que figurinhas! Encabeçam a lista o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Os dois são suspeitos de receber pagamentos oriundos do propinoduto das empreiteiras. Acuados, Renan ameaça o Ministério Público, e Cunha diz que não faz parte da “mesma lama”. Eis aí uma informação relevante para os procuradores e a Polícia Federal: Eduardo Cunha é capaz de identificar seus colegas que fazem parte do lamaçal.

O senador Lindberg Farias, que pediu ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa ajuda de R$ 2 milhões para sua campanha ao Senado, em 2010, diz que agiu dentro da lei. É estranho. Por que ele não se preocupou em saber qual era a fonte dos volumosos recursos que pedia ao intermediário? Bem mais sincero foi o vice-governador da Bahia, João Leão, suspeito de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. A frase está destacada nesta página, abaixo. É o que todos os envolvidos devem pensar, mas não têm coragem de dizer. Assim caminham os políticos no Brasil: para o fundo do poço.



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