Clube São Conrado de Voo Livre atrai mais de 70 idosos do mundo inteiro

Dos 300 voos diários, metade é feito por integrantes da terceira idade e turistas de outros países

Por O Dia

Rio - Manhã do último domingo. O engenheiro aposentado Ronaldo Paraíso Rocha, de 80 anos, realiza um sonho: pula de parapente de uma altura de 520 metros da Pedra Bonita, em São Conrado. O voo duplo, com o instrutor Eduardo Soares, 48 anos, dura pouco mais de dez minutos. O suficiente para misturar adrenalina, emoção e sensação de liberdade.

“É indescritível o que se sente lá em cima, vendo, ao mesmo tempo, as belezas do mar, das montanhas, e do conjunto arquitetônico”, afirma Ronaldo, que diz ter se inspirado no filho, Rodrigo, 46, para dar asas à ousada aventura. “Ele tinha uma asa delta e eu pensava: ‘um dia vou fazer igual’”, conta.

No Clube São Conrado de Voo Livre, cerca de 70 idosos do mundo inteiro saltam diariamente da Pedra Bonita. Os “velhinhos voadores”, como são carinhosamente conhecidos, e os aproximadamente 80 estrangeiros que também utilizam a mesma rampa todos os dias, já chegam à metade dos praticantes desse tipo de esporte radical no Rio.

“Dos 300 voos diários, metade é feito por integrantes da terceira idade e turistas de outros países”, comenta o professor Eduardo.

Ronaldo%2C 80 anos%2C voa de parapente com o instrutor Eduardo%3A ele se inspirou no filho%2C que tem uma asa deltaDivulgação

Com 120 instrutores e infra-estrutura superior à de países onde o esporte é bem difundido, como Nova Zelândia, o clube quer ser reconhecido pelo Guinness Book, o livro dos recordes, como a entidade que mais realiza voos duplos no mundo.

Além disso, os instrutores querem que o clube seja incluído na lista de patrimônio imaterial do Rio. “Fazemos mais que o dobro de voos relativos a Nova Zelândia. E o colorido dos equipamentos já faz parte da paisagem carioca”, justifica Luciano Alves, o Popo, 31, que, praticando quatro voos diários, há 18 anos, é reconhecido como um dos melhores pilotos instrutores do planeta.

O coronel paraquedista da reserva do Exército, Justo Santiago, 79, é um dos mais experientes “vovôs da asa delta” entre os 3 mil associados. “Quando completei dois mil voos, parei de contar”, diz Santiago, que, “dependendo do tempo”, voa todos os dias.

Check-up antes é fundamental

Antes de tranquilizar a família e saltar de parapente, Ronaldo Paraíso Rocha também fez um check-up para saber se suas condições físicas suportariam, principalmente, o impacto da aterrissagem. A atitude do engenheiro aposentado é elogiada pelo instrutor Eduardo Soares: “Ronaldo praticou esportes por muitos anos e ainda caminha todos os dias, por isso mantém boa forma. Mas muitos, nessa idade, não têm condições de voar.”

Para quem quer se tornar adepto do voo livre, um aviso: os equipamentos são importados e custam entre R$ 7 mil e R$ 35 mil. Já os voos duplos custam, em média, R$ 480.

Rio terá primeira escola para instrutores de voo duplo

O voo livre do Rio vai de vento em popa. Tanto que a Confederação Brasileira, recém fundada no lugar da associação brasileira, anunciou a criação da primeira escola de instrução de voo duplo na sede do Clube São Conrado, que começará a funcionar este semestre.

“A repercussão da organização do clube em nível internacional, acaba de nos render também, a permissão da Federação Aeronáutica Internacional (FAI), que regulariza os esportes aéreos no mundo, para sediarmos o Campeonato Mundial de 2017, em Brasília”, diz o presidente da confederação, Chico Santos.
Para obedecer regras da Aeronáutica os mil praticantes do esporte no Rio são descritos nos contratos como “alunos”. Por lei, os adeptos de asa delta e parapente só podem voar num raio de 25 quilômetros da Pedra Bonita e a uma altura de até 1,2 mil metros”.

Pioneiro no Brasil tem 81 anos e parou de voar em 2014

Morador de Jacarepaguá, o empresário Luiz Cláudio Mattos, de 81 anos, foi, há 40, o primeiro brasileiro a voar de asa delta no Brasil. Para realizar a proeza, utilizou a rampa do Morro da Agulhinha, em São Conrado.

O feito foi alcançado depois de Luiz Cláudio ter tido rápidas aulas com o francês Stephan Segonzac, que, no mesmo ano, já havia feito um voo partindo do Monumento do Cristo Redentor.

“No dia 7 de setembro de 1974 subi o Morro da Agulhinha com Stephan. Antes de saltar, ele se dirigiu a mim e disse: ‘Vou decolar e você vem em seguida. Ok?’. Eu fui, mesmo inexperiente. Porém, tive problemas com um cinto do equipamento, que era novo e sem regulagem ainda. Decolei com o pescoço na barra de apoio e não conseguia controlar direito a direção. Dei sorte de pousar com segurança, no campo de golfe de São Conrado. Meu voo foi traumático. Um sufoco. Stephan veio me cumprimentar, efusivo, e eu ainda apavorado com o que tinha acabado de fazer”, lembra Luiz Cláudio.

Amante do esporte, Luiz Cláudio acabou montando uma fábrica de asas delta, a Astral. Seu último voo foi há pouco mais de um ano. “Chega uma hora que, infelizmente, não dá mais”, justifica.


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