No Rio, ato contra Dilma terá forte esquema de segurança

Apelidado de ‘coxinhaço’ pelos defensores do governo, protesto promete reunir 40 mil pessoas

Por O Dia

Rio - Um megaesquema de segurança com 800 homens de 13 batalhões da Polícia Militar (PM) foi montado para acompanhar a manifestação contra o governo Dilma Rousseff que vai acontecer hoje em frente ao Posto 5, em Copacabana, às 9h30. De lá, o grupo promete marchar até o luxuoso Copacabana Palace. Previsto para ocorrer em todo o país, o protesto conta com o apoio de partidos, principalmente o PSDB, e de lideranças pró-impeachment da presidenta, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP).

Sindicalistas e movimentos sociais também se mobilizaram em protestos pelo BrasilAnderson Pinheiro/ Parceiros/ Agência O Dia

“Acredito que não terão menos que 40 mil pessoas. Mas a gente espera que o tempo ajude”, disse a advogada Mariana Cardoso, 37 anos, uma das coordenadoras no Rio do movimento Vem Pra Rua. Apesar de ser filiada ao PSDB, ela garantiu que o ato é apartidário. “Não vamos permitir que nenhum político com cargo eletivo discurse”, disse ela. Dois carros de som vão dar apoio ao grupo. Empresários e celebridades devem falar com o público sobre corrupção, Petrobras e democracia.

A preocupação principal da polícia é de confrontos entre partidários. O PSDB, que disse ser contra o impeachment da Dilma, mas a favor do protesto, divulgou um vídeo em que seu presidente nacional, o candidato derrotado à Presidência e senador Aécio Neves, conclama o povo a ir para as ruas. “A rua é do povo como o céu é do avião. Portanto, pegue seus amigos, reúna sua família e vá para a rua defender a democracia. Vá para rua defender o Brasil”.

COXINHAÇO

O protesto, que nas redes sociais os simpatizantes do governo apelidaram de ‘Coxinhaço’, está tão organizado que ganhou uma espécie de manual de sobrevivência para o ato. Uma das dicas é não usar roupas vermelhas ou pretas. “Elas lembram o PT e os Black Blocs”, diz uma das regras. Mas os cuidados vão além. Os manifestantes são orientados a levar água “para se hidratar durante o percurso” e guarda-chuva, já que há previsão de tempo ruim. “Se chover, vá mesmo assim! Não somos feitos de açúcar”. Além disso, devem ficar atentos “aos cânticos que serão puxados pela organização” e registrar situações incômodas. “Viu qualquer movimento ou atitude suspeita? Utilize da melhor arma que tem para isso: seu celular. Filme tudo e entregue o arquivo para a organização do ato, a fim de que providências legais sejam tomadas”.

Se for pela expectativa da internet, as ruas do país vão ter mais de um milhão de manifestantes hoje. Pelo menos essa é a quantidade de pessoas que confirmou presença em três perfis sociais que estão fazendo a convocação para os atos. São Paulo deverá reunir o maior número de manifestantes.

Não há fatos para pedir impeachment

Embora o movimento diga que não serão permitidas bandeiras e camisetas de partidos, o protesto é um ato da direita. A opinião é do professor de História de Unirio, Vanderlei Vazelesk Ribeiro. Para ele, o discurso de conclamação não toca, por exemplo, na questão de uma mudança na estrutura social do país.

“Neste momento, apesar da crise, do escândalo da Petrobras, não há elemento para o impeachment. Se a CPI descobrir alguma informação, isso pode até ganhar razão. Mas, se a comissão investigar muito, pode descobrir coisas contra outras pessoas. Não por acaso, o ex-presidente Fernando Henrique já começou a pisar no freio ao falar sobre a saída da presidenta”, afirmou Ribeiro.

O cientista político e professor da PUC, Ricardo Ismael, também acredita que, até o momento, não existe nenhum fato que se justifique o impeachment. “Existe uma insatisfação em relação ao governo. Os indicativos são de que estamos diante do maior caso de corrupção numa estatal, mas não há um fato concreto ainda que ligue a presidenta com o recebimento de propina na Petrobras”.

O deputado federal Alessandro Molon (PT) defende o direito aos protestos, mas acha que por trás há um desejo de golpe. “Há pessoas que querem manifestar contra o governo. Isso é uma conquista. Mas há misturado aqueles que nunca respeitaram o resultado da eleição, a não ser quando eles têm a vitória”.

Oposição busca respaldo em juristas

Como o PT e sua base aliada têm maioria no Congresso, a estratégia da oposição tem sido buscar juristas que sustentem o argumento do impeachment de Dilma. O jurista Ives Gandra, a pedido do advogado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, divulgou parecer garantindo as possibilidades do processo. O deputado federal Paulinho da Força Sindical (Solidariedade) iniciou campanha para recolher assinaturas dos que são a favor do afastamento da presidenta. Já o PSDB se posicionou oficialmente contra o pedido de impeachment de Dilma, mas não poupou esforços para arregimentar simpatizantes.

Um dos organizadores da passeata de hoje, o engenheiro Dênis Abreu, de 37 anos, do movimento ‘Cariocas Direitos’, opina que a presidenta cometeu crime e deve sair. Ele garante, no entanto, que o movimento não vai tolerar defesa de intervenção militar. “Se aparecer alguém com cartaz defendendo intervenção militar, vamos abafar”, diz Dênis.

Ele e a administradora Luciana Morgado, de 46 anos, estiveram juntos antes, em protestos na época do mensalão e pela aprovação da Lei da Ficha Limpa. “Nossa bandeira é por um país melhor, mais limpo, sem corrupção. Isso pode passar por impeachment, renúncia, ou mudança na forma que o PT governa o país.” (Reportagem de Leandro Resende)

MINISTROS CONDENAM ‘POSTURAS GOLPISTAS’

O tom das convocações para os protestos de hoje pela internet foi duro e polêmico nos últimos dias por parte de muitos internautas. As críticas, consideradas exacerbadas, principalmente pelos defensores de Dilma Rousseff, recheadas de palavras de baixo calão e termos pejorativos, mobilizaram até o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que apelou para que as pessoas “abandonem posturas golpistas e intolerantes” e protestem “sem ódio”, mesmo, segundo ele, “não havendo qualquer razão jurídica para um eventual impeachment” da presidenta.

Pelo Twitter, o ministro da Defesa, Jacques Wagner, repudiou ofensas. “É triste ver como os fascistas destilam ódio nas ruas”, afirmou.

No Facebook, no perfil Revoltados Online, com quase 700 mil seguidores, há uma série de xingamentos contra Dilma, como os que ocorreram no domingo passado, quando, durante a fala da presidenta na TV, o grupo compartilhou vídeos com pessoas gritando as palavras ‘vaca’ e ‘anta’ contra ela. Usando a rede mundial de computadores, o fundador do grupo, Marcello Reis, argumentou que não vê nada demais nas postagens, que classificam petistas também de ‘imbecis’ e ‘burros’, uma vez que tudo é, na sua visão, “ liberdade de expressão”.

Com os ânimos exaltados, vários internautas pregam a volta do militarismo, exibindo imagens e conclamando internautas para as ruas. “Intervenção militar! Vamos para a rua pedir o fechamento do Congresso Nacional com pena de morte”, postou o militar Lucas Costa. “Pessoal, começam (sic.) a fazer cartazes. A hora é essa”, escreveu Rosemery Dias. (Reportagem de Francisco Edson Alves)

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