'O favelado é visto pela PM como inimigo a ser abatido', diz Tarcísio Motta

Candidato a governador em 2014 pelo Psol, Tarcísio Motta participou de debate na PUC com o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP) sobre a desmilitarização da Polícia Militar

Por O Dia

Rio - Com o tema da desmilitarização da Polícia Militar em pauta, o candidato a governador em 2014 pelo Psol, Tarcísio Motta, fez duras críticas às ações da corporação — sobretudo nas comunidades do Rio — em debate com o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP), no ginásio da PUC-Rio, na Gávea, Zona Sul do Rio. O evento foi organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Debate sobre a desmilitarização da PM lota ginásio da PUC-Rio

Cerca de 1.500 pessoas lotam o ginásio da universidade. Uma pequena confusão entre partidários de Bolsonaro e Tarcísio chegou a ser registrada perto do fim, interrompendo por 10 minutos o debate. A segurança teve de intervir e a discussão só foi retomada quando os ânimos se acalmaram.

"Não é Direitos Humanos versus Polícia Militar. Ninguém sonha com a sociedade com tantas mortes. O favelado é visto como inimigo a ser abatido. Temos que mudar nosso modelo de sociedade", discursou Tarcísio, lembrando o alto índice de mortes cometidas por PMs no Brasil, além do de policiais mortos em serviço: "Não é natural", disse. Para o psolista, o debate é para a "desmilitarização da vida":

Tarcísio Motta (Psol) lembrou os altos índices de mortes provocadas pela PM e diz que desmilitarização é necessáriaFabio Gonçalves / Agência O Dia

Criticando a militância pela desmilitarização da PM — que classificou como "demagógica —, Flávio Bolsonaro citou problemas enfrentados pelos policiais. "Isso é demagogia. Se desmilitarizar fosse a solução, a Polícia Civil seria o exemplo a ser seguido, e não é. A PM tem mais de 200 anos, se fosse para acabar já teria acabado", declarou. Depois, o deputado chegou a dizer que a PM é a instituição "mais democrática do Brasil".

Ao fim de sua fala, Bolsonaro chegou ainda a defender o impeachment da presidenta Dilma Rousseff — que não estava na pauta do debate —, gerando reação da pleita: metade ovacionou o deputado, enquanto as outras pessoas responderam com vaias e gritos de "machista".

Para Tarcício Motta%2C que defende a desmilitarização da instituição%2C a PM vê o favelado como inimigoFabio Gonçalves / Agência O Dia

O Coletivo de Mulheres da PUC questionou os debatedores sobre a relação entre a militarização da polícia e o fato de negros, LGBTs e mulheres. "O correto seria uma mulher responder essa pergunta. Nunca enxergarei a realidade delas. Mas essas violências fazem parte da lógica do inimigo usada pela PM", afirmou Tarcísio. Bolsonaro minimizou. "Essa premissa é equivocada. Vamos colocar o pé no chão, e entrar numa viatura para ver o que o PM passa quando está perto do Morro da Coreia".

Provocações e 'selfie'

As provocações entre os grupos deram a tônica do evento. A cada fala de Tarcísio, gritos de "comunista", "vai para Cuba" e "esquerda caviar". Nas intervenções de Bolsonaro, xingamentos, vaias, e coro de "machista" e "fascista", além de gritos contra o pai do parlamentar, o controverso deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). Por diversas vezes foi difícil ouvir as ponderações dos participantes.

Bem longe do alvoroço da plateia, os debatedores trocaram provocações em meio à divergência de ideias. Tarcísio brincou com o fato de ambos serem torcedores do Vasco da Gama. "Pelo menos nisso a gente concorda. A não ser que você apoie o Eurico (Miranda, presidente do clube)", disse, arrancando risos da plateia. Bolsonaro provocou ao responder pergunta da plateia sobre descriminalização das drogas. "Se liberarem, vai ter traficante de carteira assinada trabalhando em gabinete de político".

Ao fim do evento%2C jovens partidários tiraram fotos com Flávio Bolsonaro (PP) no ginásio da PUCFabio Gonçalves / Agência O Dia

Quando o assunto foi o desarmamento, Tarcísio, em réplica, questionou o deputado. "Fico imaginando o que pensa o professor de História do Bolsonaro ao ver o que ele diz". O psolista argumentou que a hierarquia rígida da PM é um dos problemas apontados principalmente pelos praças. Em resposta, o parlamentar ironizou. "Fico imaginando como seria o governo do Tarcísio. Até Black Bloc tem hierarquia", retrucou.

Ao fim, sobraram 'selfies' de cada um dos debatedores com seus apoiadores. Bolsonaro saiu da universidade escoltado por seguranças.

Na página do evento no Facebook, o Diretório Acadêmico da PUC fala da importância da discussão do tema lembrando diversas mortes provocadas pela PM, como o Massacre do Carandiru e até mesmo o desaparecimento do pedreito carioca Amarildo de Souza, na favela da Rocinha. Em um trecho, os estudantes chegaram ainda a falar da recomendação da ONU, em 2012, para a extinção da PM no país.

"Esse histórico trouxe novos questionamentos sobre o papel da Polícia Militar. Assim, com as manifestações que ganharam as ruas do país desde junho e os episódios de violência na atuação da Polícia Militar registrados em algumas ocasiões, a desmilitarização das polícias estaduais voltou a ganhar espaço no debate público. Em maio de 2012, a Dinamarca chegou a recomendar, na reunião do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que o Brasil extinguisse a Polícia Militar. A ideia, no entanto, foi negada nacionalmente por ferir a Constituição Federal de 1988 e a dúvida permaneceu sobre o que de fato significaria uma proposta pela desmilitarização", dizia parte do texto na rede social.


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