Vídeo mostra policiais de delegacia combinando propina de extorsão

Nas imagens, advogado vai à Delegacia do Meio Ambiente para entregar propina a quadrilha e negociam valores

Por O Dia

Rio - Um vídeo obtido pelo DIA, que faz parte da denúncia do Ministério Público do Rio contra a quadrilha que se instalou dentro da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), mostra um advogado combinando o recebimento do dinheiro da propina que era cobrada de empresas. Nesta quarta-feira, o ex-titular da especializada, Fernando Reis, foi preso junto com um perito criminal. Outras sete pessoas já haviam sido capturadas por participação no esquema. 

O homem, que afirma ser advogado e está filmando a conversa, chega à delegacia e se mostra receoso de 'falar sobre o assunto' dentro da especializada. Lá dentro, ele é levado pelos policiais para uma pequena sala. Na conversa, é possível perceber que ele cumprimenta os agentes Conrado Coimbra e Anderson Pinheiro Dias, conhecido como Jesus. O homem ainda mostra preocupação com o local ser monitorado, mas um dos policiais avisa. "'Aqui não é não."

O advogado revela aos agentes que o dinheiro está dentro de um carro no pátio da Cidade da Polícia, no Jacarezinho, mas que não vai entregar em mãos aos criminosos. "Dinheiro de vocês está dentro do carro. Eu não peguei, não contei nada, não meti a mão. (...) Fiquei bolado ontem e dei umas piruetas (voltas). Quando achei que estava mais tranquilo, liguei. (...) Enfim, vocês querem falar aqui não tem problema. O dinheiro está no carro, o carro está aberto. Sai, eu não vou pegar o dinheiro com vocês, porque é tudo monitorado, fica a vontade, o carro está aberto e é só pegar e 'meter o pé'.

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Fernando Reis é apontado com um dos mentores de esquema de extorsão montado dentro da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA)Carlos Moraes / Agência O Dia

O homem revela que a propina foi paga por uma mulher e foi entregue dentro de uma mochila. Logo depois, ele exige a sua parte. "Eu quero meus R$ 12 mil, como é que vai ser feito o pagamento dos meus 12 mil? (...) Vai me pagar agora, vai me pagar quebrado?", pergunta. Um agente argumenta que a parte dele vai dar mais de R$ 12 mil, já que equivale a 10% do valor extorquido. Ele rebate: "Eu só quero meus honorários, mais nada. Só isso", provocando risos dentro da sala. O homem também fala de um dos funcionários da empresa que teria 'sumido' após tomar uma 'pressão' dos agentes, por isso a propina foi paga por outra pessoa.

Em outro trecho da gravação, ele diz que a segunda parte do montante, que seria de R$ 100 mil, seria paga em mais vezes. O advogado também pergunta se a 'chefia e todo mundo' estaria ciente do valor acordado e os agentes confirmam que sim. Ele também demonstra preocupação de ser ligado em algum momento ao esquema de extorsão.

Em dado momento do vídeo, que tem duração de pouco mais de 18 minutos, a certeza de um dos agentes de que agia 'dentro da lei' chama atenção. Rebatendo uma história de que policiais em um carro descaracterizado teriam buscado uma empresa fazendo mil perguntas e procurando a pessoa identificada como Sérgio, um dos policiais declara: "Quando nós fomos, fomos com viatura caracterizada, distintivo pendurado, número da denúncia. O polical honesto faz isso, quem não faz isso é bandido."

O ex-titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) Fernando Reis, junto com o comissário José Luiz Fernandes Alves, montou o lucrativo esquema criminoso dentro da especializada em 2012. José Luiz seria o responsável pela administração operacional da arrecadação de propina, realizada diretamente pelos integrantes das equipes de investigação da DPMA, intituladas de Fênix.

Essas equipes tinham o compromisso de arrecadar quantias em dinheiro para os mentores do esquema, por meio da prática de extorsões, extorsões mediante sequestro ou concussões, a empresas que, potencialmente, poderiam vir a praticar ou efetivamente causavam danos ao meio ambiente.

Através do perito José Afonso, a quadrilha forjava laudos periciais, que apontavam crimes ambientais inexistentes. As vítimas eram, então, ameaçadas de prisão em flagrante ou de instauração de investigação.

Com informações de Eduardo Ferreira e Maria Ignez Magalhães 

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