Alemão: Investigações sobre o caso do menino morto por tiro não avançam

Protesto pela morte da criança mobilizou moradores, que foram reprimidos pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar

Por O Dia

José Maria F. de Souza (pai) e Terezinha Maria de Jesus (mãe)%2C pais do Eduardo de Jesus de 10 anos%2C morto durante tiroteio no Alemão Fabio Gonçalves / Agência O Dia

Rio - A Sexta-Feira da Paixão foi marcada por sofrimento. Desta vez, o calvário foi percorrido pelos moradores do Complexo do Alemão, território onde quatro pessoas — incluindo Eduardo Ferreira, de dez anos — morreram nas últimas 72 horas, desencadeando protestos. Durante a tarde, a estação da via crúcis do complexo foi a Estrada do Itararé, que dá acesso às vielas da comunidade. A manifestação, pacífica, de um grupo formado sobretudo por mulheres e crianças, com cartazes e lençóis brancos foi combatida por policiais militares com disparos de balas de borracha e lançamento de bombas de gás lacrimogêneo.

Depois disso, estampidos, fumaça e focos de incêndio interromperam o fluxo de carros nos acessos à comunidade e assustaram quem voltava para casa. Desde cedo, as sedes das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) locais estavam protegidas da ação de traficantes por trincheiras, apesar do reforço de 250 policiais dos Batalhões de Choque e de Operações Especiais (Bope).

Mas os conflitos só começaram às 15h, quando mais de 200 pessoas reuniram suas indignações em ato pela morte do menino, atingido na porta de casa por um tiro de fuzil, na quinta-feira. Munidos de panos brancos, o grupo pedia o fim dos confrontos.

“Todo dia é tiroteio. Falam para irmos embora, mas isso aqui não é uma opção”, disse, emocionada, a moradora Maria Gomes.

A investida policial foi respondida com arremesso de pedras e garrafas. De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora, um PM ficou ferido, mas passa bem.

Alguns moradores atearam fogo em sofás e pneus, interrompendo de vez o trânsito. Tiros vindos da comunidade foram ouvidos, além de uma chuva de pedras lançadas na direção dos policiais, que permaneceram em posição de combate.

Mais tarde, mototaxistas fizeram uma manifestação, percorrendo em seus veículos a Estrada do Itararé e outras ruas das comunidades do complexo.

Encenação da Via Sacra ao som de tiros

Em meio à tensão do conflito, a lembrança de outra morte também esteve presente. Um palco montado na entrada da localidade da Grota para a realização de shows e, principalmente, a encenação da Via Crúcis, realizada pela Paróquia São Joaquim de Santa, serviu como esconderijo para aqueles que fugiam dos disparos de balas de borracha e também como esconderijo para jovens que atiraram pedras durante o confronto com os militares.

Apesar do clima de medo, alguns fiéis seguiram os atores que simularam, pela Estrada do Itararé, o caminho feito por Jesus até a cruz, escoltado por soltados romanos. A saída do grupo foi recebida com emoção pelos moradores que aplaudiram a encenação, pontuada por estampidos vindos da favela.

Uma nova manifestação pela paz está marcada para a manhã deste sábado. Nesta sexta-feira, o governador Luiz Fernando Pezão divulgou nota em referência aos incidentes no Alemão. “É minha também a dor das famílias vitimadas. Lamento profundamente e determinei empenho máximo à polícia nas investigações para que os culpados sejam punidos”.

Protesto pacífico acaba em confronto no AlemãoJoão Laet / Agência O Dia

Na noite anterior, cerca de 300 pessoas fizera outro ato pela paz . Com velas e em silêncio, o grupo caminhou pela Rua Joaquim de Queiroz, na localidade do Areal, onde Eduardo foi baleado na porta de casa, até a Estrada do Itararé, principal da comunidade.

A presidente Dilma Rousseff também se juntou ao coro da indignação, por meio de nota: “Espero que as circunstâncias dessa morte sejam esclarecidas e os responsáveis, julgados e punidos”, declarou Dilma.

Investigação sobre caso não avançou

Enquanto a família do garoto Eduardo e a comunidade buscavam uma explicação para a morte trágica da criança, a polícia pouco avançou na investigação para dar essa resposta. Nesta sexta-feira, nenhum policial da Delegacia de Homicídios (DH) foi visto no Complexo do Alemão, assim como nenhuma testemunha do caso esteve na sede da especializada, na Barra da Tijuca.

Horas após a morte de Eduardo, o delegado André Leiras esteve no local para uma perícia e ouviu o depoimento de um policial. De acordo com a assessoria da Polícia Civil, o inquérito está sob responsabilidade do delegado Alexandre Herdy, que, procurado pelo DIA, não atendeu às ligações.

O responsável pela DH, Rivaldo Barbosa, também não foi localizado, mas informou à assessoria da Polícia Civil que não há data marcada para a reconstituição do crime.

As armas dos PMs — do BPChoque e da UPP Nova Brasília — envolvidos no confronto foram apreendidas e eles, afastados do serviço de rua até o fim do inquérito aberto pela corporação. A PM, no entanto, não informou quantos policiais respondem ao procedimento.

Quase cinco anos após a retomada do território do Alemão, a PM voltou a ocupar o conjunto de favelas com suas tropas de elite. Cerca de 250 agentes do Bope e do BPChoque, além de PMs das UPPs, tiveram folgas canceladas e ficarão nas comunidades por tempo indeterminado. Barricadas de concreto foram instaladas para proteger as bases policiais de ataques dos traficantes. Os contêineres da Rua Canitar e da Nova Brasília foram retirados.

'Não quero ficar no Rio'

O casal José Maria Ferreira de Sousa, de 43 anos, e Terezinha Maria de Jesus, de 40, vai deixar o Rio. Eles dizem não conseguir mais entrar na casa onde vivem, no Alemão, depois que o filho Eduardo, de 10 anos, foi assassinado na porta do imóvel.

“Não quero ter lembranças daqui”, disse a doméstica.

Eles têm mais quatro filhos. Um deles mora no Piauí, terra natal da família, que migrou para o Rio, em 1988, em busca de uma vida melhor. O governo do estado vai pagar o traslado e o sepultamento do menino no Piauí, assim como a viagem dos pais.

O casal acusa um dos PMs pelo disparo, supostamente efetuado durante um confronto. “Ele ouviu uma voz que parecia ser a da irmã. Foi na porta e mexeu no telefone, quando escutei um tiro. Eu corri e vi o meu filho caído”, contou a mãe, que diz ter sido ameaçada por um PM. “Ele disse que matou meu filho e iria me matar também. Foi quando outros policiais tiraram ele dali”, afirmou. O pai também diz ter sido ameaçado: “O PM falou que eu era vagabundo como meu filho. Sou trabalhador, de carteira assinada”, declarou o ajudante de pedreiro.

Do outro lado da cidade, mais uma família chorava uma morte na via crúcis do Alemão. Elizabeth Alves de Moura Francisco, 41 — baleada dentro de casa, anteontem —, foi enterrada ontem no Cemitério de Inhaúma, diante de 200 parentes e amigos. “Agora são três filhos sem mãe; o caçula só tem 6 anos. Eles viram tudo. Como conter a revolta?”, indagou o viúvo Carlos Roberto Francisco, 59.

As famílias das vítimas vão se reunir com a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa para cobrar a responsabilidade do estado e celeridade nas investigações.

Reportagem de Athos Moura, Flora Castro, Gabriel Sabóia, Hélio Almeida e Marcello Victor


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