Alemão: Comissão de Direitos Humanos da Câmara e da Alerj receberão vítimas

Objetivo é reunir relatos de abusos praticados pela PM no Alemão e levá-los a órgãos nas esferas estadual e federal

Por O Dia

Rio - As comissões de Direitos Humanos da Câmara Federal e da Assembleia Legislativa do Rio irão receber, no início da tarde desta segunda-feira, vítimas e familiares de pessoas que foram alvos da violência cometida por policiais militares no Complexo do Alemão.

Eduardo Ferreira estava sentado com o caderno escolar na porta de casa quando foi atingidoReprodução

Também participarão do encontro entidades que atuam em defesa dos moradores das comunidades da região, assim como os presidentes das comissões da Câmara e da Alerj, Paulo Pimenta (PT) e Marcelo Freixo (PSOL), respectivamente. O objetivo é reunir relatos de abusos praticados pelo Estado no Complexo do Alemão para que os casos sejam encaminhados aos órgãos responsáveis nas esferas estadual e federal.

?Encontro busca rumos para diálogo e paz no Alemão

?Lançar pontes e valorizar o diálogo como a principal saída em busca da paz. Com o objetivo de encontrar soluções para o clima de guerra no Complexo do Alemão, que deixou quatro mortos na última semana, entre eles o menino Eduardo Ferreira, de 10 anos, O DIA, o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec) e o Instituto de Estudos da Religião (Iser) se uniram para realizar o fórum ‘Alemão: saídas para a crise’. O evento será nesta quinta-feira, às 18h, na sede do Iser/Viva Rio, na Glória, e terá transmissão ao vivo pelo 'DIA Online'.

“Essa crise tem produzido sentimentos difusos. E está faltando um espaço para sentarmos e discutirmos. É importante ouvir, ao mesmo tempo, várias correntes e pontos de vista em busca do diálogo”, defende Sílvia Ramos, do Cesec, uma das organizadoras do evento.

Pedro Strozemberg, diretor do Iser, anfitrião do encontro, diz que o Complexo do Alemão é um território simbólico na geopolítica das favelas do Rio de Janeiro. Segundo ele, apesar dos problemas dos últimos tempos, não se pode dizer que o projeto de pacificação desenvolvido ali seja um fracasso, mas precisa ser repensado.

“A ocupação em 2010 foi uma decisão arriscada, porque até então os resultados das UPPs estavam restritos a favelas menores. E houve um investimento social muito grande no complexo, que tem líderes locais fortes com grande visibilidade. É preciso parar, refletir e agir”, acredita.

Ramiro Alves, publisher do Grupo Ejesa, que comanda os jornais O DIA, ‘Meia Hora’ e ‘Brasil Econômico’, saudou a iniciativa da empresa em conjunto com a sociedade civil: “Como disse o coronel Frederico Caldas (coordenador das UPPs), no futuro da UPP está o destino do Rio de Janeiro. Todos os esforços devem ser feitos para se manter a pacificação de verdade, e não apenas um projeto de repressão policial.”

Elisabeth foi morta com um tiro na boca%2C dentro de casa%2C enquanto do lado de fora policiais trocavam tiros com bandidosReprodução Facebook

Para o diretor de redação do DIA , Aziz Filho, o jornal não poderia ficar de fora do debate em um momento tão importante para a sociedade. “ O DIA é um jornal profundamente identificado com as classes populares. Não poderíamos deixar de contribuir nesse momento.”

Já estão confirmadas no evento as presenças do coronel Róbson Rodrigues, chefe do Estado Maior operacional da PM; Eduardo Alves, do Observatório de Favelas; José Mário Hilário, presidente da Associação de Moradores do Santa Marta e diretor da União Comunitária; Júnior Perim, do Circo Crescer e Viver; Lúcia Cabral, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos e presidente da ONG Educap; Daiene Mendes, diretora da ONG Voz da Comunidade; Alan Brum, da ONG Raízes em Movimento; e Ignácio Cano, do Laboratório de Análises da Violência, da Uerj.

O encontro será mediado pelo jornalista André Balocco, que coordena o projeto ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’, do DIA . Uma hora antes de seu início, haverá distribuição de senhas para os interessados em participar, respeitando a lotação do auditório.

Pais levam corpo para o Piauí

José Maria Ferreira de Souza e Terezinha Maria de Jesus, pais do menino Eduardo Ferreira, de 10 anos, morto após ser atingido por um tiro, na localidade conhecida como Areal, no Complexo do Alemão, embarcaram na manhã deste domingo, no Aeroporto Internacional, para Teresina (Piauí) — de lá eles viajarão mais 864 km até a cidade de Corrente, onde o menino será enterrado.

“Minha esposa reconheceria o policial que matou meu filho. Estamos muito machucados, não queremos falar muito, mas vamos voltar depois do enterro para ajudar nas investigações”, comentou José Maria.

A Delegacia de Homicídios informou que “aguarda o retorno e restabelecimento emocional” da mãe do menino Eduardo Ferreira para que ela possa fazer o reconhecimento do policial que teria feito o disparo.

No sábado, o delegado titular da especializada, Rivaldo Barbosa, e o delegado assistente, Alexandre Herdy, estiveram no Alemão e acompanharam a família em uma reunião com a Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

INVESTIGAÇÃO

Polícia conversará com líderes

Amanhã, líderes comunitários do Alemão serão recebidas na Delegacia de Homicídios para uma reunião. A especializada está à frente das investigações da morte do menino Eduardo Ferreira.

Ontem, já chegava a pelo menos 500 o número de policiais militares de diversos batalhões, como Bope e Choque, além de diversas UPPs, que reforçam o policiamento no Complexo do Alemão.

Segundo a Coordenadoria das UPPs, não há data para que os agentes deixem a região, que nos últimos três meses, vinha sofrendo com intensos tiroteios entre bandidos ou entre traficantes e policiais militares.

Copacabana: ato por morte de crianças

Cerca de 40 voluntários da ONG Rio de Paz fizeram ontem, em Copacabana, um ato contra a violência e para lembrar as 18 crianças mortas a tiros em favelas do Rio desde 2007, especialmente a última delas, Eduardo Ferreira, 10. Desta vez, nenhum parente das vítimas participou e poucos moradores de comunidades estiveram presentes.

Carregando um pequeno caixão branco e folhas de papel com os nomes das jovens vítimas fatais, os manifestantes, vestidos de preto, fizeram, a partir do Posto 6, um cortejo fúnebre simbólico pela Avenida Atlântica. Na altura do Othon Palace Hotel, houve o “enterro coletivo” na areia.

Apenas uma viatura do 19º BPM (Copacabana) com quatro policiais acompanhou a silenciosa manifestação, assistida por banhistas e turistas a certa distância, no calçadão.

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