Um dia após menina ficar pendurada, motoristas reclamam de superlotação

Condutores reclamam da tensão no BRT. 'Estão sempre lotados. Os passageiros ameaçam até nos linchar'

Por O Dia

Rio -  Após o acidente com a menina Jenniffer Florêncio, conduzida por um motorista do BRT por mais de 1 km entre as estações Maré e Fundão apenas presa pelo braço na porta, o Consórcio informou que todos os motoristas do sistema passam por “constantes e periódicos treinamentos” para oferecer melhor segurança aos profissionais e aos usuários. Na quinta-feira, 30 rodoviários assistiram à palestra sobre direção defensiva, ministradas por agentes do Detran.

Menina de 6 anos ficou pendurada do lado de fora do coletivo do BRT TransoesteAlexandre Vieira / Agência O Dia

O estudante Diego Marques, 19, que usa o BRT entre Vicente de Carvalho-Alvorada, elogia. “A conduta dos motoristas do BRT é bem diferente dos de ônibus comuns. São mais cordiais”, opina Diego. O chefe de almoxarifado Anderson Souza, 26, concorda. “Até a postura é melhor. São mais prestativos”, diz.

Os condutores, por sua vez, dizem que a reciclagem é válida, mas reclamam da tensão nos veículos. “Estão sempre lotados. Os passageiros ameaçam até nos linchar”, queixou-se um motorista, que pediu para não ser identificado.

Motorista do BRT é indiciado

O motorista do BRT Transcarioca Cláudio Hamilton será indiciado por lesão corporal culposa por ter deixado uma menina de seis anos presa com o corpo para fora da porta do ônibus, na noite de quinta-feira. A família de Jenniffer Florêncio acusa Cláudio de ter circulado com o coletivo por mais de um quilômetro, entre as estações Maré e Fundão, com a criança pendurada, mesmo sendo alertado sobre o ocorrido. O motorista afirma que não viu a menina do lado de fora pelo retrovisor. Nesta sexta-feira, ele foi demitido por justa causa pela empresa Santa Maria, na qual trabalhava há mais de dez anos.

As imagens das câmeras internas do ônibus e das duas estações serão encaminhadas para a 21ª DP (Bonsucesso), responsável pelo caso. “Ouvimos o motorista e a família, mas só teremos a certeza do que aconteceu após assistir às imagens”, declarou o delegado Delmir Gouvêa. Segundo a tia de Jenniffer, que estava no ônibus acompanhada de sua avó e outras três crianças, a menina ficou apenas com o antebraço para dentro do coletivo.

“Ela foi a primeira a descer, mas na hora que saiu, o motorista arrancou com o ônibus. Todo mundo gritou pedindo para ele abrir a porta, mas ele disse que só pararia no próximo ponto. Foi assustador porque a Jenniffer não parava de chorar”, relembrou Michele Florêncio, de 30 anos. Nesta sexta-feira, a menina foi ao Insituto Médico Legal (IML) para exame de corpo de delito junto com a bisavó, Rita Augusta, 81, e o primo de 11 anos, que também se machucaram. Segundo a mãe de Jenniffer, Jéssica Florêncio, 23, ela sofreu apenas escoriações leves. “Minha filha ficou muito nervosa com o que aconteceu. Graças a Deus não foi nada tão grave com ela, mas poderia ter sido uma tragédia”, afirmou Jéssica.

Motorista do BRT%2C Claudio Hamilton%2C prestou depoimento na 21ª DP%2C por ter andado de uma estação a outra com uma menina presa na portaAndré Mourão / Agência O Dia

Quando chegou à estação do Fundão, Cláudio desceu do ônibus e chamou o fiscal para atender à família. “Ele (o motorista) nem prestou socorro e nem quis olhar o que aconteceu”, apontou Michele. Na delegacia, o condutor informou que não viu em nenhum momento a criança presa na porta e chamou o fiscal porque os passageiros estavam o ameaçando. Em nota, o consórcio BRT Rio repudiou a conduta do motorista e informou que está prestando assistência à vítima.

O Procon-RJ autuou o consórcio, que terá que prestar esclarecimentos a respeito do acidente envolvendo a Jenniffer. Caso as explicações não sejam aceitas pelo departamento jurídico da autarquia, o consórcio será multado.

Menores teriam agredido o rodoviário

Na delegacia, o motorista Cláudio Hamilton afirmou que, minutos antes do acidente com Jenniffer, foi agredido por um adolescente que queria descer fora da estação. O auxiliar administrativo Vitor Gabiel Pineda, 31, que estava no mesmo ônibus, afirmou que o motorista demonstrava estar muito nervoso. “Um grupo de adolescentes embarcou em Santa Luzia (uma estação antes da Maré) dizendo que queria descer no meio da pista. Um deles chegou bem perto do motorista e o ameaçou, mas quando chegou na Maré eles desceram. Foi nesse momento que a menina ficou presa na porta”, explicou Vitor.

Na mesma noite do acidente, Cláudio compareceu a uma delegacia para registrar a agressão. Segundo uma outra testemunha, que preferiu não se identificar, é constante a presença no BRT de menores de idade da comunidade que pedem para descer fora da estação. “Na região da Maré isso é super comum. Os meninos pulam a catraca, andam na pista e fazem muita algazarra. Falta segurança também”, contou um passageiro. O motorista responderá por lesão corporal culposa, crime que prevê até três anos de prisão.

Colaborou Francisco Edson Alves

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