Por nicolas.satriano

Rio - Lugar de botequim, no Rio de Janeiro, é na Zona Norte e no subúrbio. Não tem jeito. Com a oitava edição do concurso Comida di Buteco a todo vapor, basta pegar um guia em qualquer dos bares participantes e fazer a conta: dos 45 concorrentes, 21 são da região, contra 14 da Zona Sul, 8 do Centro, incluindo Zona Portuária e Santa Teresa, e 3 de Jacarepaguá, na Zona Oeste.

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Num tour pelos bares da região, foi fácil descobrir o motivo. E não faltavam especialistas para explicar. No Bar do Momo, tradicional reduto de sambistas na Tijuca, lá estava o cantor e compositor Gabriel Cavalcante, famoso não apenas pela voz e elegância no cavaquinho, mas também como crítico etílico gastronômico.

Manu e a turma do Bode Cheiroso são estreantes no concursoJoão Laet / Agência O Dia

“Em toda cidade há bons botequins, mas nada se compara à Zona Norte. A alma do botequim está aqui. Na informalidade, na conversa fiada. No Momo, por exemplo, nem cardápio tem. A comida às vezes demora. Mas ninguém se incomoda”, contou Gabriel, enquanto devorava o sanduíche de pernil com maionese defumada e picles de carambola, feito especialmente para o festival.

Não muito longe dali está o Bode Cheiroso, tradicionalíssimo bar do Maracanã, fundado em 1950, assim como o estádio, e só agora integrante do concurso. Sob os cuidados dos herdeiros Manu e Lelê, ou Emanuella e Leandro, como queiram, o Bode é reduto do colunista do DIA e o historiador Luiz Antônio Simas, e personagens da boemia carioca como o blogueiro Marcos Bonder, o Bond Buteco.

Gabriel Cavalcante é frequentador assíduo do Bar do MomoJoão Laet / Agência O Dia

“A diferença entre os bares do Rio é que na Zona Norte o dono está presente. Ele cuida do bar e da freguesia. Atende pelo nome. No Cachambeer tem o Marcelo, no Da Gema, a Luiza. Na Portuguesa, a Dondon. Você se sente em casa porque os donos querem, de verdade, que você se sinta em casa”, explica Marcos Bonder.

Vencedoras do concurso em 2014, Valeria e Mariana Rezende, na Praça da Bandeira, viraram referência em boteco com ambiente familiar.

Clientes e amigas de Katia Barbosa, chef do Aconchego Carioca, que funcionava onde hoje é o Bar da Frente, elas decidiram abrir o próprio negócio para não deixar morrer o “espírito boêmio” que havia naquele espaço.

Bar da Frente mantém a informalidade dos tempos de Aconchego Carioca João Laet / Agência O Dia

E não deixaram. Aquele cantinho da Rua Barão de Iguatemi continua sendo referência de cerveja gelada, comida de excelência e conversa fiada. Um dos fãs famosos mais recentes é o sambista Jorge Aragão, que prometeu ir lá conferir o bolinho de camarão com queijo ao molho de taperebá.

“A essência do botequim está aqui. É a vanguarda da boemia. Na Zona Sul há ótimos lugares, mas alguns tentam recriar a informalidade daqui e acaba ficando formal”, conta Pedrinho da Muda, considerado pela boemia tijucana um dos maiores malandros da geração sub-40.

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