Por paloma.savedra

Rio - Um esquema milionário de corrupção e tráfico de drogas interestadual, que envolvia policiais civis, militares e traficantes, foi desmantelado nesta quarta-feira pelo Ministério Público (MP), em ação em parceria com a Polícia Civil. A Operação Adren cumpriu, até 22h, 27 de 43 mandados de prisão preventiva expedidos por crimes como associação ao tráfico de drogas, organização criminosa, extorsão mediante sequestro e roubo.

Os mandados foram cumpridos na Região Sul Fluminense e no município do Rio; em São Paulo (capital e interior) e no interior de Minas Gerais. De acordo com o delegado responsável pelo caso, as investigações evidenciaram a conexão entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), principais facções criminosas do Rio e de São Paulo.

Operação Adren foi comandada pela delegacia de Barra Mansa%2C no Sul Fluminense%2C e por promotores do Gaeco%3A 27 mandados de prisão foram cumpridos até a noiteDivulgação

Entre os citados na denúncia, estão quatro PMs e dois policiais civis do Rio, acusados de transportar, em viaturas, entorpecentes vindos de São Paulo. A droga era vendida a outros criminosos.

GALERIA: Operação do MP e Polícia Civil tem 27 presos no Rio, São Paulo e Minas

?De acordo com o promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Fabiano Gonçalves Oliveira, as investigações começaram no ano passado no município de Barra Mansa. Escutas telefônicas comprovaram que as remessas de drogas que circulavam na região vinham do Paraguai, por intermédio de traficantes paulistas. Três dos réus da investigação, beneficiados por delação premiada, não foram presos.

O delegado da 90ª DP (Barra Mansa), Ronaldo Aparecido, comentou a aproximação entre CV e PCC. “A remessa fornecida por uma (PCC) é vendida em áreas dominadas pela outra (CV)”, disse o policial, que avaliou o montante comercializado pela quadrilha em mais de R$ 1 milhão por mês.

O promotor, por sua vez, destacou a participação dos policiais no esquema.
“Alguns se associaram ao tráfico de drogas e, após realizar apreensões, repassavam os carregamentos de drogas a traficantes parceiros, ao invés de levá-los para a delegacia. Outros formaram organizações criminosas, cometendo extorsões (muitas mediante sequestro) contra outros traficantes que não faziam parte do esquema”, explicou.

Durante a operação — que pretendia ainda cumprir 72 mandados de busca e apreensão — foram desmanteladas cinco refinarias (quatro em São Paulo e uma no Rio de Janeiro). Foram apreendidos mais de cem quilos de drogas, entre maconha, cocaína e crack, além de solvente para aumentar o volume do produto final.

Conexões com Fernandinho Beira-Mar

No Rio, a prisão mais esperada era a do policial civil Ricardo Wilke. Morador de um apartamento na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, ele foi surpreendido por policiais no meio da tarde quando chegava em casa.

Wilke já havia visto o seu nome envolvido em acusações de recebimento de propina do narcotraficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Em gravações telefônicas obtidas pela polícia, por coincidência, o criminoso afirma que foi obrigado a transferir um apartamento na Barra da Tijuca para o advogado do inspetor de polícia. De acordo com agentes que participaram da prisão, Wilke não ofereceu resistência e foi levado para a sede da Corregedoria de Polícia.

Megaoperação do Gaeco com a Polícia Civil ocorreu nos estados do Rio%2C São Paulo e Minas e teve 27 presosDiário do Vale / Agência O DIA

Segundo o promotor do caso, as extorsões mediante sequestro de criminosos que rivalizavam com a quadrilha partiam de valores mínimos de R$ 80 mil. Crimes patrimoniais também eram uma especialidade do bando. “Em um caso, foi simulado auto de apreensão na casa de um traficante. No sistema da Polícia Civil, no entanto, apenas uma parte dos bens confiscados foi declarada e, logo depois, o registro foi cancelado. Claramente tentaram mascarar o crime”, disse Fabiano Oliveira.

Alianças do crime

Era a ousadia de transportar drogas confiscadas de traficantes rivais em viaturas da Polícia Civil que mais chamou a atenção dos investigadores. “Depois de apreendidos, os materiais eram levados em ‘fretes’ nas próprias viaturas, até criminosos de menor expressão, para os quais a droga era revendida”

Para ele, a chegada de entorpecentes vindos de quadrilhas de fora do estado pode refletir o enfraquecimento do tráfico carioca em função das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). “O aumento da repressão no Rio pode estar forçando o crime a buscar alternativas, como alianças interestaduais”, opinou.

Os mandados foram cumpridos nas cidades de Barra Mansa, Volta Redonda, Barra do Piraí, Pinheiral, Resende, Itatiaia, Penedo, Angra dos Reis, além de Pouso Alegre, em Minas Gerais, e em São Paulo capital e nos municípios de Mogi Guaçu e Itapira, no estado de São Paulo. Os criminosos responderão por tráfico, associação para o tráfico, roubo, extorsão e organização criminosa.



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