Crise econômica ameaça lua de mel de Dilma, Pezão e Paes

Pela primeira vez em seis anos, presidenta, governador e prefeito têm discordado

Por O Dia

Rio - Foram seis anos de lua de mel, sintetizados no perfeito casamento entre os governos federal, do Estado do Rio e da prefeitura carioca. Mas como em casa que falta dinheiro, todo mundo briga, os tempos de bonança e de entrosamento do trio parecem estar em risco com a crise econômica que promete ser cada vez mais acirrada.

Desde 2006, no segundo governo do petista Luiz Inácio Lula da Silva e dos peemedebistas Sergio Cabral, e mais tarde, em 2008, de Eduardo Paes na prefeitura do Rio, o clima que embalou as relações dos três níveis de poder foi de ‘paz e amor’. Isso foi essencial, por exemplo, para trazer os Jogos Olímpicos para a cidade. Com isso, estimou a Firjan no ano passado, seriam injetados no estado R$ 235 bilhões até 2016.

Com a mudança dos ‘noivos’ da união que parecia estável — de Lula para Dilma Rousseff e de Cabral para Luiz Fernando Pezão —, mudaram-se também os estilos de governar e, principalmente, a conjuntura econômica do país é outra. Resultado: não faltam reclamações e mágoas. Dinheiro é a principal queixa, mas a política não fica de fora.

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Paes e Pezão, por exemplo, em uníssono, acusaram o governo Dilma, em encontro na Firjan dia 16 de março, de não se abrir ao diálogo e reclamaram da articulação do Palácio do Planalto. Agora, com a escolha do vice Michel Temer, presidente nacional do PMDB, a presidenta espera não ouvir mais deles esta reclamação. Mas outras permanecem, como a cobrança de juros altos dos estados e municípios pelo governo federal.

O governador chamou de agiotagem o valor cobrado, e Paes recorreu à Justiça, onde depositou os R$ 28 milhões que considera justos. O governo federal diz que são R$ 6 bilhões o total da dívida da prefeitura, embora Dilma tenha sancionado uma lei que a reduz. A crise econômica, contudo, fez com que o Palácio do Planalto, na necessidade de fazer dinheiro, empurrasse com a barriga a implementação da lei.

Entretanto, não se restringem ao governo petista os entreveros peemedebistas. Prefeitura e governo do estado se estranharam quando, questionado, José Mariano Beltrame, secretário estadual de Segurança, reclamou da ausência de projetos sociais nas comunidades ocupadas por UPPs. Foi chamado a conhecer alguns deles. Noutro momento, lembrado da promessa de que construiria sedes para UPPs, Paes retrucou que, se construísse, “seria um favor”.

Pezão%2C Dilma e Eduardo Paes na inauguração do Túnel Rio 450%2C na Zona Portuária%2C no início de março%3A convivência pacífica%2C apesar das divergênciasRoberto Stuckert Filho / Divulgação

Procurado pelo DIA, o estado nega qualquer rusga com os governos federal e municipal. A prefeitura informa que Eduardo Paes, em viagem, não poderia comentar eventuais desavenças. Já o Planalto não respondeu à reportagem.

De olho nas eleições presidenciais

A dois anos e meio das eleições presidenciais, o prefeito Eduardo Paes está se preparando para alçar voos políticos mais altos. Não à toa Paes tem se dedicado nos últimos tempos a polemizar em temas de repercussão nacional, como a suposta falta de diálogo do governo federal com sua base aliada e o das dívidas dos estados e municípios, além da discussão que teve com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre o pagamento da dívida do município com a União.

Paes vem pautando sua atuação na vontade de se viabilizar como um nome real para concorrer à Presidência da República em 2018. Ele espera se tornar uma referência em todo o país e conhecido para além dos limites do Estado do Rio. A avaliação é que os Jogos Olímpicos de 2016 são insuficientes para projetar seu nome nacionalmente

Ao mesmo tempo, Paes tenta se equilibrar entre a crítica “justa” e a de oposição. Ele não quer fechar portas, porque avalia que o PT não chegará em condições de bancar sozinho o candidato à sucessão de Dilma Rousseff, em 2018. Alguns setores petistas, inclusive, já balbuciam seu nome. A possibilidade já teria sido levantada até pelo ex-presidente Lula.

Desavenças começaram na campanha de 2014

A cizânia entre os governos federal e do Rio começou antes das eleições de outubro de 2014, quando o ex-governador Sergio Cabral decidiu se aliar a Jorge Picciani, presidente do PMDB, e apoiar a candidatura do tucano Aécio Neves à Presidência da República. Candidato à reeleição, Luiz Fernando Pezão decidiu ficar ao lado de Dilma Rousseff e ignorar o movimento ‘Aezão’, idealizado por Picciani.

A lealdade à candidatura de Dilma, no entanto, não serviu para impedir as rusgas com a administração federal, em fevereiro. Na época, Pezão foi obrigado a ameaçar a Petrobras com a retirada de benefícios fiscais. Reclamava o repasse de R$ 500 milhões, referentes à exploração de petróleo do Campo de Tupi.

No mês seguinte, Pezão cobrou de Dilma dívida de R$ 120 milhões com as empreiteiras do Arco Metropolitana. Também culpou a frágil fiscalização do governo federal nas fronteiras pela entrada de armas e drogas para o Rio.

Sem dinheiro em caixa

A crítica situação econômica do Estado do Rio, que teve sua nota de crédito rebaixada na última semana pela agência de classificação de risco Standard & Poor (S&P), estremeceu as relações entre o governador Pezão e seu antecessor, Sergio Cabral, de quem foi vice até abril de 2014.

O DIA apurou que Pezão confidenciou a amigos de Piraí, sua cidade natal, que não imaginava encontrar tantos problemas nas contas do estado. Mesmo diante deste cenário, o governador manterá o discurso público de lealdade a Cabral, sem atribuir a ele qualquer responsabilidade.

A interlocutores, o governador chegou a usar a expressão de que seu antecessor “raspou o tacho”, referindo aos cofres do estado. Sem dinheiro em caixa, o governo do Rio acumulou uma dívida de R$ 170 milhões com a Oi, referente a faturas não pagas de serviços de transmissão de dados e de telefonias fixa e móvel. Os telefones do governo do Rio foram, então, cortados.

Procurado pela reportagem, o governador negou qualquer crise política com seu antecessor Sergio Cabral. Já a Secretaria de Fazenda afirmou que a redução da nota de crédito do estado foi recebida com “serenidade” pelo governo e que está dentro do quadro de “deterioração” do cenário econômico do país.

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