Pai de criança especial amarrada diz não entender isolamento do filho

Marcelo Henrique Gomes contou que o menino não fala e, por isso, não havia como ele e a mulher saberem o que se passava no colégio

Por O Dia

Rio - "Eu não consigo entender, como pai, por que o meu filho estava isolado. E tem um agravante, ele não fala. Ele não podia contar isso para a gente", disse ao DIA Marcelo Henrique Gomes, que flagrou o filho de quatro anos, uma criança especial, amarrado a uma cadeira dentro de creche que estava matriculado, em Jacarepaguá, na Zona Oeste, em 24 de fevereiro deste ano. Indignado, o pai contou à reportagem como encontrou o filho: "Ele estava no canto da sala, amarrado, contido com uma fralda na cintura, não podia sair da cadeira e tinha um pau no meio das pernas". 

A versão de Marcelo, que é biomédico, sobre os maus-tratos, contradiz a história da professora da Creche Escola Sonho Meu, que fica no Anil, Conceição dos Santos Oliveira, 58. Segundo ela, a cadeira foi usada exclusivamente para o menino lanchar. Conceição defendeu o uso da cadeira na hora da refeição justamente por se tratar de uma criança especial e que, segundo ela, teria dificuldade para ficar em pé. 

Cadeira onde o menino de 4 anos teria ficado amarradoSeverino Silva / Agência O Dia

O pai do menino discorda. Marcelo conta que voltou à escola com a esposa, Márcia Barbosa Gomes, após ser alertado por uma professora da instituição de que o filho era maltratado na creche. Segundo ele, no dia 23 de fevereiro a esposa estava indo pra casa com o filho, quando uma professora da creche a abordou na rua e pediu para falar sobre o criança. Foi então que ele e a mulher souberam que o filho era amarrado à cadeira.

Pai flagra filho especial sendo vítima de maus-tratos em creche de Jacarepaguá

"Ficamos atônitos. Achamos um absurdo e não quis só escutar o que ela me disse. Quis ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Dormimos mal e no dia seguinte levamos nosso filho na parte da tarde e voltamos logo depois. Quando uma funcionária ia entrar, entrei junto e estava com a câmera do celular em mãos."

O pai ressalta que tanto seu filho, quanto as outras crianças, estavam na sala de aula, e não no refeitório.

Menino de 4 anos estava amarrado numa cadeira quando o pai chegou na Creche Escola Sonho MeuReprodução Vídeo

"Ele tem atraso global psicomotor, passou por diversos médicos. Não tem diagnóstico fechado, e não sei se terá. Ele tem um atraso. O tratamento envolve socialização e prática de atividade e estímulo de vários tipos", disse o pai. 

Pais mudaram criança de escola

Após o episódio, a criança, que estudava na creche havia três anos, foi transferida para uma unidade municipal de ensino. De acordo com os pais, o aproveitamento dele melhorou. "Ele está mais alegre, mais participativo, respeita regras, brinca e se diverte com as crianças sem distinção", disse a mãe, a administradora Márcia Augusto Barbosa Gomes, de 38 anos.

O caso foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal (Jecrim). A Secretaria Municipal de Educação aguarda a conclusão da Polícia Civil para depois encaminhar ao Conselho Municipal de Educação, onde será definido se a creche será punida.

Psicóloga diz que criança precisará de acompanhamento 

De acordo com a psicóloga especializada em atendimento clínico com crianças, Luana Flores, seria importante que o menino passasse por uma avaliação. A especialista acredita que o episódio sofrido configura discriminação e, para ela, naquela cadeira, ela (a criança) se vê diferente das outras e tende a absorver essa culpa, pensando, por exemplo, que há algo de errado com ela. "Provavelmente isso pode interferir em outros campos na vida dela", concluiu. 

"É confuso para uma criança. Ficam marcas. Caso ela esteja todo esse tempo sofrendo, esta é uma situação que precisa ser avaliada e acompanhada de perto. O ideal, no caso da creche, seria rever o treinamento dos funcionários. É muito sério. É uma responsabilidade enorme lidar com uma criança especial", enfatizou. 


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