Jovens saem de comunidades carentes para os trampolins olímpicos

Meninas sonham em medalhas nas Olimpíadas do Rio, em 2016

Por O Dia

Rio - Até pisar no trampolim de três metros do Parque Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, às 8h, Jéssica Hillary, de 16 anos, enfrenta uma marotona. Acorda às 4h30 da madrugada e pega dois ônibus. Moradora da comunidade Parque União, no Complexo da Maré, Jéssica é uma das sete cariocas que disputam vaga para competir pelo Brasil na modalidade de salto ornamental sincronizado, nas Olimpíadas de 2016.

A longa jornada, repetida de segunda a sábado, é encarada com naturalidade por Jéssica, diante de tantos desafios que a adolescente já venceu. Sem infraestrutura na comunidade da Maré, ela aprendeu com a irmã mais velha os movimentos da ginástica olímpica, utilizados nos saltos. Quando tinha apenas 5 anos, fez teste na Vila Olímpica da comunidade que atraiu olhares de Georgette Vidor, então técnica do Flamengo, que viu em Jéssica um futuro promissor no esporte.

Nicole e Natali Cruz%3A gêmeas sonham com a medalha em 2016Maíra Coelho / Agência O Dia

Apesar da pouca idade, ela já coleciona muitas medalhas, entre elas a de ouro do Campeonato Brasileiro e a mais recente, de bronze, no Sul Americano, conquistada semana passada, no Peru. As vitórias são ainda mais significativas quando a adolescente lembra das condições precárias de sua comunidade. “Sem o convite para treinar no Flamengo, com certeza não estaria no nível que estou hoje. Na Vila Olímpica da Maré, só tem um solo e tatame para crianças pequenas, não dá para treinar”, explica.

Entre piruetas, mortais e parafusos, Jéssica repete pelo menos outras dez vezes o mesmo salto, até que espalhe o mínimo de água possível para fora da piscina — algo fundamental para uma boa pontuação. Hoje, a atleta se considera exemplo para as crianças da comunidade e capaz de estar entre as escolhidas pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, em dezembro.“Estou famosa na Maré. As crianças veem em mim uma esperança. Querem chegar aonde cheguei e não se envolver com pessoas erradas”, diz ela, que hoje treina pelo Tijuca Tênis Clube.

Elas fizeram as acrobacias mais difíceis: saíram de comunidades carentes para os trampolins olímpicosMaíra Coelho / Agência O Dia

A história é parecida com a de Giovanna Pedrosa, de 16 anos, atleta com grande potencial para levar a medalha pelo Brasil. Moradora do Vidigal, ela conquistou, no mês passado, a prata do circuito do Grand Prix, em Porto Rico, à frente de atletas de EUA, Canadá, Colômbia e México. “Consegui isso com o apoio da minha mãe, que até hoje me traz para o treino”, explica.

Giovanna também vai competir com outra atleta do Tijuca, Gabriela Jade, de 22 anos, moradora do Andaraí e com as gêmeas Nicole e Natali Cruz, de 22 anos. Ganhadoras de medalhas no Pan-americano Guadalajara 2011, as irmãs treinam pela Associação Peneira Olímpica de Esportes (APOE).

?'Se no treino deu certo, na comepetição também vai dar'

?Por ser país sede, o Brasil já garantiu 313 vagas para atletas nas Olimpíadas de 2016, incluindo oito em saltos ornamentais: duas duplas de pulos sincronizados em trampolim de três metros (feminino e masculino) e outras duas em plataformas. O país ainda tem que lutar para conquistar as vagas para os saltos individuais, na pré-olimpíada, em fevereiro do ano que vem.

De acordo com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, há 15 atletas com potencial para competir nas Olimpíadas. Para o supervisor de saltos ornamentais da confederação, Ricardo Moreira, o Brasil vai surpreender. “Temos uma garotada nova forte, com muito potencial”, afirma. Para ele, as atletas que vieram de comunidades carentes têm um diferencial das demais na hora da disputa. “Como elas têm poucas oportunidades para se dar bem na vida, quando têm uma chance, querem aproveitar e se esforçam mais para não perdê-la. Agarram com muita vontade”, afirma.

Para a treinadora do Tijuca Tênis Clube, Ana Paula Shalders, que cuida da equipe ao lado de Alexander Ferrer, vencer a competição é como ter dois sonhos realizados: “Fazer um atleta olímpico e o prazer de ser técnico de um atleta olímpico”, diz.

Já o técnico da APOE, Roberto Gonçalves, que treina as gêmeas Nicoli e Natali, afirma que a meta é passar tranquilidade para as meninas. Quando questionada se na hora H o nervosismo pode pôr tudo a perder, Nicoli já demonstra resultado na maneira técnica que encara a resposta.

“Se estamos bem preparadas, o nervosismo não aparece. É só pensar que, se no treino deu certo, na competição também vai dar”, diz Nicoli de 22 anos, natural de Manaus e moradora de São Cristóvão.

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