'Não quero que ele vire estatística', diz irmão de comerciante morto

Filhas presenciaram a cena e perguntam constantemente pelo pai. Segundo morador, UPP não tem diálogo

Por O Dia

Rio - O irmão do comerciante Alexandre Cavalcante de Oliveira, de 36 anos, morto por um tiro de fuzil na cabeça quando saía de casa no Morro dos Telégrafos, na Mangueira, na noite deste sábado, contou que policiais demoraram duas horas para levá-lo para o hospital, que ele chegou com vida, mas não não resistiu. Alexandre foi morto durante uma suposta troca de tiros entre policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Mangueira e traficantes.

Alexandre seguia para o trabalho quando foi atingido pelos disparosEstefan Radovicz / Agência O Dia

"Acabaram com a nossa família. Mataram um paí família, de cinco filhos, que era trabalhador, casado há dez anos. A PM disse que houve uma tentativa de invasão de traficantes. Mas, a comunidade não está pacificada? Como tem isso? O que sei é que meu irmão está morto. Eu só peço que ele não vire estatística", disse Arídio, de 38.

"Meu irmão era um pai amoroso", contou Arídio. "Ele desejava muito ver a filha nascer", completou. A mulher de Alexandre está grávida de oito meses.

Segundo Arídio, as filhas de Alexandre, uma de 6 e a outra de 13, presenciaram a confusão. "Elas perguntam constantemente pelo pai".

Ele não sabe dizer se a mãe das meninas já contou sobre a morte, já que ainda encontra-se em estado de choque. A filha mais velha do casal faz aniversário neste domingo.

Arídio ressaltou que não há possibilidade de a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ter boas relações com a comunidade. "A UPP não tem diálogo com a comunidade, não tem um projeto social", criticou.

Arídio e Alexandre eram sócios em uma lanhouse próximo a localidade conhecida como Buraco Quente, na parte baixa da Mangueira. A vítima tinha se despedido das filhas e saía de casa para render o irmão no negócio quando foi baleado na cabeça, por volta das 21h.

De acordo com informações da Delegacia de Homicídios da Capital (DH), foi aberto um inquérito para investigar a morte de Alexandre. As armas dos PMs foram apreendidas para perícia. Testemunhas e policiais militares foram ouvidos no inquérito.

Irmão disse que policiais só socorreram Alexandre cerca de duas horas após ele ser feridoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Guerra em comunidades com UPP já tem 14 mortos

A morte do comerciante Alexandre Cavalcante de Oliveira aumenta a estatística de mortos em morros com Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em nove dias no Rio. Na tentativa de invasão de traficantes do Morro da Fallet ao Morro da Coroa, ambos no Complexo de Santa Teresa, na região central do Rio, e no complexo do São Carlos, no Estácio, o número de mortos chegou a 14 até sexta-feira. Entre as vítimas fatais que seriam inocentes estão um rapper e dois mototaxistas, além de outras seis pessoas baleadas.

Nesta sexta-feira, dois ônibus foram incendiados no Estácio e no Rio Comprido, em protesto pela morte dos dois mototaxistas. Os corpos foram encontrados no alto do Morro de São Carlos. Familiares deles acusam PMs do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) pelos crimes, em resposta a um policial da unidade ter sido baleado durante uma operação no dia anterior. O clima ficou tenso na região durante todo o dia.

No Complexo de Santa Teresa, no dia 8, três homens foram mortos na invasão de bandidos da Fallet a Coroa. Na intensa troca de tiros uma grávida foi baleada no Morro da Mineira e três adolescentes em um campo de futebol no acesso ao Fallet. No último domingo, Dia das Mães, o rapper Diego Rodrigues, de 20 anos, conhecido como 'Di Cria Luniere', foi assassinado no Morro da Coroa. Ele tinha ido visitar o pai na comunidade e teria sido ferido por uma bala perdida.


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