Por karilayn.areias

Rio - Que o perfil dos estudantes das universidades federais mudou, tanto na questão geográfica quanto social, ninguém duvida. No entanto, com a ampliação de vagas dos últimos anos, a política de cotas e as mudanças no vestibular, por meio do Enem e do Sisu, as universidades não têm conseguido atender a todos que procuram assistência estudantil. No Rio, as universidades Federal Fluminense (UFF), Rural do Rio (UFRRJ) e Federal do Rio (UFRJ), recebem anualmente cerca de 18 mil novos alunos — e são as federais que oferem moradia.

Estudantes reclamam das condições nos alojamentos da Cidade Universitária no Fundão%3A sem ter como pagar aluguel%2C quarto é a soluçãoAndré Mourão / Agência O Dia

“Saímos formados em dois cursos. O da faculdade e o de convivência”, brincou a estudante Leidiane Batista, de 21 anos. Ela veio de Barbacena, em Minas Gerais, para estudar medicina veterinária na Rural, em Seropédica. “Aqui aprendemos a conviver, a passar perrengue e a nos virar. Passamos o dia inteiro juntos, somos uma família”, contou.

Leidiane não trocaria a residência estudantil, em que mora desde o início da universidade, por um apartamento no município da Baixada pela distância. Mas reclama da infraestrutura. “A falta de manutenção é o pior problema. Falta luz e água direto. Sem falar que as vagas são insuficientes”, declarou. A estudante mineira morou por dois semestres como agregada, também chamada de “acochada” pelos colegas, até conseguir a vaga oficial. O alojamento da Rural é o maior das três universidades, com 1.344 vagas.

Nas outras instituições, o problema é mais profundo. A UFRJ, maior em número de estudantes na graduação entre as três, recebe quase 10 mil novatos por ano — 22% vindos de fora do Rio e metade por cotas socioeconômicas e raciais.

A moradia estudantil, com capacidade para 504 alunos, disponibiliza atualmente apenas 250 vagas, por conta de obras. “Tem pombo ali em cima”, disse Carlos Menezes, 19, apontando para o teto do banheiro do módulo que ocupa. O estudante de Engenharia Elétrica veio para o Rio em julho do ano passado, mas seus pais não conseguiram manter a sua vaga na Vila Residencial, na Ilha. “Sou do Maranhão. Meus pais ajudam, mas não tenho como pagar R$400 para morar”, disse Carlos, explicando que esse era o valor por uma vaga em beliche na Vila.

Carlos e o colega de quarto Marcelo Lopes, 21, aluno de Biotecnologia, explicaram que no ‘aloja’ há os estudantes oficiais, os agregados (que dormem nos quartos de quem cede espaço) e os que entram nos espaço vazios, mesmo sem estrutura. “A galera ocupa porque não tem onde morar”, disse Marcelo, que além de aulas no Fundão, cursa disciplinas também em Xerém.

Sem a moradia, estudar seria impossível

Mesmo com condições muitas vezes precárias, os estudantes concordam em um ponto: sem o alojamento não conseguiriam se manter na universidade e concluir os cursos.

Nelson%2C que era analfabeto até os 35 anos e agora estuda Direito%2C vive apertado em um alojamento André Mourão / Agência O Dia

“Eu teria que voltar para São Paulo”, contou Nelson Morale Junior, de 53 anos. Ele, que era analfabeto até os 35 anos, passou em sétima colocação para o curso de Direito na UFRJ, um dos mais concorridos da universidade federal. “Sem morar aqui eu não conseguiria realizar o meu sonho de me formar, mesmo com mais de cinquenta anos”, contou.

Os estudantes da UFF, que tem o mais novo dos alojamentos, inaugurado no segundo semestre de 2013, concordam. “Complicaria demais a minha permanência na faculdade se eu tivesse que alugar um lugar para morar”, disse o estudante de Arquivologia, Luiz de Carvalho, de 24 anos.

Ele veio de Cabo Frio para estudar e mora no alojamento desde que ele foi aberto. Apesar de novo, o local já sofre com vários problemas de infraestrutura, como falta de água e luz, além de vagas insuficientes para novos moradores.

Universidade: ‘Aditivo é fato normal’

De acordo com a UFRJ, o bloco feminino que está sendo construído pela reitoria teve seu prazo de entrega revisado. O motivo é que o atraso aconteceu devido aos aditivos contratuais, necessários para adequações do projeto. Ainda segundo a nota enviada ao jornal pela universidade, esta situação, que atrasa a conclusão da obra, é prevista em lei.

“A universidade está se empenhando para entregar o bloco totalmente reformado em meados do próximo semestre”, declarou Jean Souza, assessor da Reitoria.

UFRJ: obras depois de 40 anos

O alojamento da UFRJ tem cerca de 83 módulos com três quartos cada. O prédio, com 40 anos, está passando pela primeira reforma de sua história. A obra tinha prazo de conclusão previsto para março do ano passado, mas até agora não foi concluído.

O refeitório também está em obras, que deveriam ter sido finalizadas em dezembro. O café da manhã e o da tarde é servido nos halls dos andares, já que o refeitório está interditado.

Como as reformas no refeitório não foram concluídas no prazo%2C local de refeições está sendo improvisado. Exercícios físicos são feitos em sala de academia sem manutençãoAndré Mourão / Agência O Dia

“É muita falta de planejamento. A UFRJ destina R$ 85 milhões para assistência estudantil, é muito dinheiro para ter o que temos aqui”, disse Thiago Lacerda, 28, que veio de Vitória, no Espírito Santo, para estudar Física Médica e é morador do alojamento desde 2012.

Reportagem de Flora Castro

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