Por tabata.uchoa

Rio - Tido como um oásis em meio à pior crise hídrica que o Sudeste já enfrentou, o Município de Itatiaia, no Sul Fluminense, vive uma situação única e inusitada: seus 30 mil moradores recebem água em abundância em suas torneiras, mas não pagam nem um centavo sequer pelo abastecimento. É que os hidrômetros foram abolidos das casas há 26 anos, quando o município se emancipou de Resende. Na época, motivada por um acordo político entre lideranças municipais e o então governador Moreira Franco, a Cedae se retirou da cidade.

Embora esteja situada às margens do Rio Paraíba do Sul, Itatiaia não capta água dele. Ela vem, caudalosa e quase límpida, por gravidade, de pelo menos 12 rios e nascentes que descem da Serra da Mantiqueira. A maioria, originada dentro do Parque Nacional do Itatiaia. Os itatiaienses atestam: nunca sofreram com falta d’água.

Antiga%2C a rede de distribuição em Itatiaia tem muitos vazamentosErnesto Carriço / Agência O Dia

“A gente só vê falar em crise no setor pela TV. Dá até pena ver os rios virando deserto em várias regiões. Mas aqui nunca tivemos escassez”, garante o agricultor Moisés de Paiva, de 79 anos. Por falta dos medidores — que a prefeitura cogita adotar novamente —, porém, o uso de água, que só recebe cloro do governo municipal, não tem controle. “Não fazemos a mínima ideia de quanto a população gasta”, admite o prefeito Luis Carlos Ypê (PP). De acordo com especialistas, a água desperdiçada, no entanto, acaba não chegando à bacia do Paraíba do Sul, que abastece dezenas de municípios, inclusive a capital.

“Diante das atuais circunstâncias, quando a seca no país alcança níveis alarmantes, qualquer água que deixa de chegar a bacias importantes ajuda a complicar ainda mais a situação”, lamentou a vice-presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba (Ceivap), Vera Teixeira.

Nas ruas, a polêmica virou um tsunami de discussões. “Não concordo com a cobrança. A prefeitura não precisa se intrometer. A água que usamos é uma bênção de Deus. Vem do Pico das Agulhas Negras, a mais de 2,7 mil metros de altitude. Depois de ser filtrada naturalmente pelas florestas, ela chega sem impurezas às nossas caixas”, comenta a aposentada Mariléia Divina da Conceição, de 68 anos, que mora no Centro.

O caminhoneiro Francisco Ramos, o Nelito, 62 anos, do bairro Vila Pinheiro, é a favor do hidrômetro. “Nada de graça tem boa qualidade. Por conta de um sistema deficiente, a pressão com que a água chega às moradias varia de acordo com a localidade. Se um bicho cai no centro de distribuição, toda a cidade consome água impura, como já ocorreu várias vezes, deixando muitas pessoas doentes”, ressaltou Nelito, enquanto lavava seu caminhão — sem se preocupar com o desperdício. “Mas eu reduzo a vazão em casa para economizar”, garante.

Penedo será o primeiro distrito de Itatiaia a ter cobrança de águaErnesto Carriço / Agência O Dia

Prefeitura: nova rede custará R$ 90 milhões

As discussões em torno da volta da instalação de hidrômetros em Itatiaia são como se fosse um ‘banho de água fria’ para muitos moradores. O prefeito Luis Carlos Ypê (PP) diz que ainda não tem data para o retorno dos aparelhos, mas que a instalação dos instrumentos “será inevitável”.

“Antes de começar a cobrar pelo fornecimento, nós temos que trocar toda a tubulação da rede e construir uma estação de tratamento de água adequada”, afirma Luis Carlos. Pela cidade, é comum se ver grandes vazamentos nas tubulações de ferro enferrujadas.

De acordo com estudo encomendado pela prefeitura, no valor de R$ 600 mil, todo o sistema está orçado em pelo menos R$ 90 milhões.

Para Luis Carlos, a cobrança é necessária, segundo ele, para que os itatiaienses e visitantes recebam água com mais qualidade. “Atualmente, a prefeitura só coloca cloro num precário centro de distribuição. Embora a água seja de boa qualidade, é necessário acrescentar outros componentes, como flúor, que previne cáries”, justifica o prefeito, comentando que não tem medo de cair na impopularidade. “Para melhorias, sou mais empreendedor que político”.

Chafariz funciona 24 horas por dia dentro de farmácia há 22 anos

Maior defensor da gratuidade da água em Itatiaia, o farmacêutico João Paulo de Oliveira, 79 anos, primeiro ex-vice-prefeito que o município teve, se orgulha de ostentar, no interior de sua farmácia, no Centro, um chafariz. A fonte, que oferece copos d’água como mimo aos clientes, não recicla a água, que jorra há 22 anos, 24 horas por dia, de forma ininterrupta, proveniente do encanamento municipal e escoada pela rede pluvial.

“Fui eu que consegui a gratuidade. Hoje, ninguém se preocupa com desabastecimento. Há água de sobra”, gaba-se João Paulo. Ele diz ser até a favor da cobrança de uma pequena taxa, mas coloca uma “pulga atrás da orelha” do prefeito Luis Carlos.

“Se ele instituir a cobrança, vai se afogar em críticas, pois entrará para a história como o primeiro governante a criar a tarifa”, opina João Paulo, às gargalhadas, lembrando que, antes da emancipação, os moradores pagavam valores mais altos pela água do que pela energia elétrica.

Penedo tem obras em fase de licitação

Os primeiros moradores a ter a cobrança de água em Itatiaia serão os de Penedo, um dos pontos turísticos mais badalados do Sul Fluminense. Por causa do crescimento da rede hoteleira e do turismo, a localidade é a única do município que vem sofrendo com o desabastecimento.

No vilarejo, 200 donos de hotéis, pousadas, bares e restaurantes estão fazendo abaixo-assinado para encaminhar ao Ministério Público, pedindo providências urgentes. “As melhorias são prometidas desde o primeiro mandato do prefeito atual, mas ele, com medo de ficar mal visto no meio político e junto aos moradores, demora a cumprir com a palavra”, acusa Joacyr Tenório, sócio de um hotel.

“Chegamos a ficar duas semanas com as portas fechadas por falta d’água. Tivemos que fazer um reservatório e compramos galões de água potável. Queremos um sistema eficiente, mesmo que haja pagamento”, apela Rosângela Souza, 45, dona do Restaurante Alecrim. Ela lembra que, por ingerir água sem tratamento adequado, seu marido, Luiz, 59, teve colite (inflamação intestinal).

Luiz Carlos Ypê diz que as obras em Penedo estão em fase de licitação, no valor de R$ 4,2 milhões. “O novo sistema, com recursos próprios, ficará pronto em 2016”, prevê.

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