Cidade de São João Marcos se firma como parque arqueológico

Esquecida por décadas, cidade foi inundada para construção de um reservatório de água e se tornou museu a céu aberto

Por O Dia

Rio - Esquecida por mais de 70 anos embaixo d’água, quando foi inundada para a construção de um reservatório de água, São João Marcos tornou-se museu a céu aberto, com ruínas de construções históricas, que remontam ao Século XVIII — a cidade foi fundada em 1739. Hoje, o lugar, entre Mangaratiba e Rio Claro, se firma como parque arqueológico.

De acordo com o gestor do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, Zeca Barros, as ruínas têm forte potencial turístico. “Temos o parque, a Estrada Imperial, o reservatório, tudo girando em torno da antiga cidade”comenta. Segundo a guia Teresa de Jesus Souza, na cidade perdida era produzido o melhor café do Brasil. Por causa dele, ela enriqueceu.

As ruínas da Igreja da Matriz%2C a principal de São João Marcos%2C se destacam na paisagem. A cidade%2C entre Mangaratiba e Rio Claro%2C foi fundada em 1739Carlos Moraes / Agência O Dia

Por suas ruas rodaram alguns dos primeiros automóveis do país. A cidade tinha teatros, cinema, duas igrejas (uma para ricos e outra para pobres), casa do capitão-mor (representante do imperador), escola, clube, delegacia, alambique, fábrica de tecido e jornais.

Hoje, restam as ruínas da Igreja Matriz, da casa do capitão-mor, com partes das paredes de pé e pisos originais preservados, e de um antigo clube. Há ainda um museu que conta a história da cidade e do parque.

A cantina é atração à parte. O cardápio é baseado num livro de receitas do Século XIX, achado nas escavações, iniciadas em 2008.

Na década de 1940, a cidade do Rio de Janeiro enfrentava uma crise hídrica. A solução encontrada foi inundar São João Marcos, ampliando o reservatório de Ribeirão das Lajes, e transferido os moradores.
Mas houve um erro de cálculo na construção do reservatório, percebido pouco tempo após a inundação. A quantidade de água era maior do que a prevista, mas o local permaneceu abandonado, como uma cidade fantasma. Foi preciso reduzir a vazão de água, e então os escombros da cidade começaram a aparecer.
Na década passada, um batalhão de arqueólogos foi deslocado para a cidade perdida com o objetivo de redesenhar o que não deveria ter sido destruído. Trabalho que pode ser conferido, gratuitamente, de quarta-feira a domingo.

Os arcos de uma antiga edificação%2C que servia de moradia para o capitão-mor%2C um funcionário do Império%3A parque é aberto à visitaçãoCarlos Moraes / Agência O Dia

Vilarejo serviu de repouso para Dom Pedro I

De São João Marcos saíram personalidades ilustres da história do Brasil. Por lá nasceram e moraram pessoas tão importantes que, durante as viagens da família real, a cidade era local de repouso.
A passagem mais marcante foi em 1822, quando o então príncipe Dom Pedro viajou para São Paulo pela Estrada Imperial e, no segundo dia de viagem, parou na cidade para pernoitar. Ele dormiu na fazenda de um dos maiores produtores de café e contrabandistas de escravos do Brasil, Comendador Breves. Ao partir, levou quatro são-marquenses, incluindo seu anfitrião, para reforçar a sua guarda.

No dia 7 de setembro, quando Dom Pedro gritou às margens do Rio Ipiranga e rompeu o vínculo do Brasil com Portugal, os quatro homens nascido na cidade se tornaram testemunhas da independência do país.
O morador mais famoso da cidade foi Francisco Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906. Ele viveu toda sua infância e adolescência na cidade.

Pereira Passos se formou engenheiro e ficou conhecido pelo seu projeto urbanístico, que transformou o Centro do Rio de Janeiro em uma pequena Paris, com remoções, demolições de imóveis, morros e cortiços, e construções de avenidas. Ataulfo de Paiva, que foi ministro e é homenageado com uma rua no Leblon, nasceu na cidade do Sul Fluminense.

Inundação foi em 1943

No auge, São João Marcos chegou a ter 22 mil moradores. No início do Século XX, a cafeicultura entrou em crise e com ela, o vilarejo. Em 1939, quando completou seu bicentenário, restavam apenas 4.500 moradores. Para preservar a cidade, o então presidente da República Getúlio Vargas a tombou, mas um ano depois a destombou para a inundação.

Todos os 4.500 moradores de São João Marcos tiveram suas casas compradas e destruídas a marretadas. A cidade submergiu em 1943. A aposentada Adelaide Alves Ferreira, de 77 anos, viveu parte da infância na cidade.

Com a inundação, a família se mudou para Mangaratiba, sem nunca se conformar em ter saído da terra natal. “Meus pais falavam que a terra era muito boa e sentiam saudades. Foi uma maldade muito grande acabar com a cidade”, disse a ex-moradora.

No dia 11, o parque arqueológico completará quatro anos. No período, recebeu 34 mil visitantes.

Últimas de Rio De Janeiro