'Estou com medo de voltar para casa e a culpa é do governo', diz menino baleado

Adolescente que foi atingido por bala perdida dentro de casa na Rocinha recebeu alta do hospital nesta quinta-feira

Por paloma.savedra

Rio - Ao receber alta do Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul do Rio, no início da tarde desta quinta-feira, o adolescente Wesley Barbosa, de 13 anos, relembrou o trágico momento em que foi atingido de raspão por uma bala perdida dentro de sua casa, na Rocinha. Em poucas palavras, o menino demonstrou seu desespero: "Estou com medo de voltar para casa e a culpa é do governo", disse ele, que foi ferido durante tiroteio entre PMs — que faziam operação na favela — e bandidos.

Polícia Civil instaura inquérito para apurar de onde veio tiro que atingiu menor

Wesley%3A ‘Tenho novo aniversário’Reprodução

Ele estava levantando do sofá de casa, que fica na localidade do Cesário, quando foi atingido no rosto. "São esses policiais que o governo coloca na comunidade. Esses que entram e não têm cuidado com moradores e crianças. Agora só agradeço a Deus por estar vivo", desabafou. 

Mãe da vítima, a caixa de supermercado Claudionora Barbosa voltou a afirmar o que o marido, Eduardo Pereira, 36, já dissera: vai mudar de localidade dentro da comunidade. "É um alívio ter meu filho vivo. Não quero passar por isso nunca mais. Vou continuar na Rocinha, mas não na mesma casa", contou.

Ela também criticou a ação policial na comunidade: "A polícia faz operação em horários que não deveria, quando criança está chegando e saindo da escola e morador está indo ao trabalho. Entram, trocam tiros e quem perde somos nós, moradores", avaliou. 

“Não sei de onde veio o tiro, se de bandido ou policial. Mas para fazer uma operação em uma comunidade a PM deve planejar”, disparou o pai da criança em entrevista ao DIA nesta quarta-feira.

A família da vítima será ouvida nesta sexta-feira pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). 

A 11ª DP (Rocinha) instaurou inquérito para apurar o caso e saber de onde partiu o tiro que atingiu Wesley, já que havia uma ação de combate ao tráfico feita por policiais do Comando de Operações Especiais (COE), que abrange os batalhões de Operações Especiais (Bope), de Choque e de Ações com Cães (BAC).

“Vou oficializar todas as unidades que participaram da operação para saber quem estava na localidade onde o menino foi atingido. A vítima, de forma preliminar, descreveu a origem do disparo como sendo oposta ao local onde se encontravam os policiais. Não podemos descartar nada”, afirmou o delegado da 11ª DP (Rocinha), Gabriel Ferrando.

Com informações de Clara Vieira, Diego Valdevino e Paloma Savedra

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