Promotor de vendas esfaqueado reagiu após sofrer quinto assalto em um mês

'Uma pessoa ser assaltada 5 vezes acaba tendo uma reação', revelou amiga de Gustavo Alves, morto em Pilares

Por O Dia

Rio - Numa pequena e sombria trilha sob a Linha Amarela, nas proximidades da Favela Fernão Cardim, em Pilares, Zona Norte, a rotina de insegurança do Rio ‘reencontrou’, pela quinta vez em 17 dias, o promotor de vendas Gustavo Alves, de 35 anos. Mas no início da tarde de quarta-feira, o destino foi fatal em mais um caso envolvendo facas: o trabalhador, que pegou um atalho para se deslocar entre duas lojas que atendia, foi assassinado com dois golpes ao reagir a um assalto. Desta vez, o alvo do crime foi um celular.

Gustavo foi morto com facada em Pilares quando seguia para o trabalhoReprodução

Segundo a irmã da vítima, Joice Alves, Gustavo havia sido roubado outras quatro vezes em pontos de ônibus ou deslocamentos no trabalho, somente no mês de junho. Em três ocasiões, pertences como relógio e dinheiro foram levados. No entanto, na quarta vez, o seu celular também foi levado. As ações ocorreram em frente ao Norte Shopping, a poucos metros do local onde ele morreu, e na Taquara.

“O dinheiro, R$ 20, ficou dentro da mochila. O bandido só levou o celular velho. O celular custou a vida dele”, disse Joice, antes de questionar a violência e casos frequentes com facas. “Dá um ódio da impunidade. Cadê os governantes? Cadê? Ninguém aparece. Só aparecem para falar de obras. A violência está demais. É tiro, facada, matando gente inocente. O que é isso?”, desabafou.

Segundo testemunhas, Gustavo reagiu e acabou sendo esfaqueado pelo menos duas vezes, no pescoço e no peito, e morreu na hora. O suspeito, que pode ser um usuário de crack, já que há relatos de que alguns roubam para sustentar o vício, conseguiu fugir sem ser identificado.

O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios (DH) da Capital, que informou através de nota, que as investigações estão em andamento. Segundo a Polícia Civil, foi realizada perícia no local e testemunhas foram ouvidas. Imagens de câmeras de segurança que possam identificar o suspeito também estão sendo procuradas. Nesta quinta-feira, PMs realizaram blitz no local, o que, segundo pedestres, é comum. “O problema é quando eles (policiais) saem”, revelou um morador da região.

Crime repete a tragédia na Lagoa

No dia 19 de maio, o médico Jaime Gold andava de bicicleta pela Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio, quando foi abordado por dois menores armados com uma faca, que roubaram sua bicicleta. Ele foi golpeado e não resistiu aos ferimentos. Somente este ano, quase 20 pessoas já foram feridas em ações com este tipo de arma.

Logo após o crime, a DH apreendeu três menores que teriam ligação com o crime. O primeiro a ser detido, A., de 16 anos, negou qualquer tipo de participação. Já outros dois contaram em depoimentos que estavam no local, mas negam ter efetuado os golpes. Ambos inocentaram o primeiro suspeito.

Caminho sob o viaduto da Linha Amarela é usado por pedestres como atalho para atravessar a linha férrea por buraco improvisado no muroAndré Mourão / Agência O Dia

Apesar disso, na noite de quarta-feira, durante audiência do caso no Fórum de Olaria, o Ministério Público pediu a absolvição do segundo e terceiro menores e solicitou a condenação de A. No entanto, a sentença da Justiça, só deve sair em 10 dias. Enquanto o caso não é julgado, os três continuam internados em unidades de recuperação do Degase.


Pouca luz e muito crime

No local onde Gustavo foi morto, de pouca iluminação, usuários de crack e bandidos costumam escolher suas presas. Pelo caminho, latas, mato alto e restos de fogueira ‘decoram’ a passagem logo após um buraco improvisado no muro da linha férrea.

O atalho, que também margeia a Favela Fernão Cardim, dominada por milicianos, é utilizada com frequência por moradores da região. “Sabemos que todos os dias têm assaltos ali, mas é a maneira de cortarmos caminho até um outro mercado da região. Poderiam pelo menos iluminar o local ou fazer uma ação para retirar o cracudos”, disse uma pedestre.

“Uma pessoa ser assaltada cinco vezes acaba tendo uma reação. Foram cinco vezes no mesmo mês, isso é um absurdo”, completou a amiga da vítima, Ana Kelly de Oliveira, 42. Gustavo, que morava sozinho em Coelho Neto, será enterrado hoje, às 16 horas, no Cemitério de Irajá.

Em nota, a Polícia Militar respondeu que o Grupamento de Polícia Ferroviária (GPFER) faz patrulhamento tanto na linha férrea quanto nas plataformas e estações. Em relação ao buraco feito de forma irregular no muro da SuperVia, a assessoria de imprensa da concessionária se limitou a dizer que “o caso não aconteceu dentro do sistema ferroviário” e que a assessoria da polícia deveria ser acionada para mais informações.


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