Trisavó: Com expectativa de vida maior, famílias convivem com cinco gerações

Pesquisa do IBGE comprova que as mulheres têm expectativa de 78,6 anos. Elas vivem muito mais do que os homens

Por O Dia

Rio - Chamadas e confundidas com tataravós (que, na verdade, são as mães das trisavós), as mães das bisavós deixaram de ser apenas figuras dos álbuns de famílias em fotos desgastadas em preto e branco. Agora, estão em carne e osso para contar as suas próprias histórias. As primeiras donas das relíquias deixadas para as proles hoje fazem parte do cenário familiar e conhecem suas quintas gerações.

O fator principal que explica este fenômeno, segundo o Centro de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (Cepe), do Instituto Vital Brazil, é o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. De acordo com levantamento de 2013 do IBGE, a média subiu para 74,9 anos.

INFOGRÁFICO: Veja o aumento da expectativa nas últimas décadas

"Ser trisavó é brincar e conversar sobre coisas que eu não entendo. É uma emoção grande quando os bisnetos vêm%2C mas com trinetos é maior"%2C diz Maria da Penha Gomes%2C 90Fabio Gonçalves / Agência O Dia

A pesquisa do IBGE comprova que as mulheres têm expectativa de 78,6 anos. Elas vivem muito mais do que os homens, cuja média de vida atualmente é de 71,3 anos, segundo o estudo.

A festeira e saudável Enid Destri, de 90 anos, por exemplo, conta que até joga bola com o seu trineto. “Quando o Kadu, de 4 anos, me vê, quer jogar bola na mesma hora. Ele me pede: vamos, tata, vamos! Se avó faz todas as vontades, imagina a trisavó? Eu tenho que fazer tudo, né? Uma vez quase caí no chão. A emoção com a quinta geração é muito mais forte. Quando eu vejo o Kadu, parece que o mundo todo se ilumina”, explica a tatá, como é chamada carinhosamente pelo pequeno.

Com dez trinetos, Maria da Penha Gomes, de 90 anos, entende do que é ser trisavó. Segundo ela, que faz questão de se encontrar semanalmente com eles, a relação e a emoção com a quinta geração é diferente: “Os netos querem saber das histórias, os bisnetos, um pouco menos. Já os trinetos querem brincar e tentar me explicar coisas que eu não entendo. Esta geração está mais inteligente. Quanto mais o tempo passa, mas a gente se apega à safra nova”.

Wanda Chamusca, que completará 97 anos em outubro, diz que tem dois motivos para se gabar: seu trineto Bernardo, de seis meses, e sua saúde. “Deus quis que eu vivesse até essa idade para ter a honra de conhecê-lo, coisa que eu nunca imaginei na vida. E ele é lindo. Me olha e já começa a sorrir. E fica tentando se pendurar em mim”, relata.

"É uma grande emoção e inesperado ser trisavó. Nunca pensei que%2C com quase 97 anos%2C Deus me daria essa honra"%2C diz Wanda Chamusca%2C trisavó de Bernardo%2C de seis mesesErnesto Carriço / Agência O Dia

Para a mãe de Bernardo, Danielle Villela, de 27 anos, ter Wanda presente nos eventos familiares é um privilégio incomparável. “Agora, ele não entende a importância disso, mas depois vou mostrar as fotos dos dois juntos e contar as histórias destes encontros com o maior orgulho”, diz.

Idosos mais saudáveis

De acordo com o pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (Cepe) e especialista em psiquiatria geriátrica, Annibal Truzzi, o maior número de trisavós se deve a dois fatores: o controle mais eficaz de doenças que eram potencialmente fatais e a redução da taxa de nascimentos na população.

“Como as pessoas estão tendo menos filhos, isso gera um processo de transição demográfica. Ou seja, a população fica com menos crianças e, consequentemente, com cada vez mais pessoas mais velhas. Aliado a isso, doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, estão mais controladas do que antigamente e, por isso, as pessoas vivem mais”, explica.

Segundo Truzzi, o maior desafio do centro de estudo, que é vinculado à Secretaria Estadual de Saúde, é promover ações sociais rápidas para esta população.

“Os países da Europa, que também tiveram esse aumento da expectativa de vida, tiveram mais tempo para se preparar. Aqui, esse crescimento foi mais rápido. Por isso, ainda faltam profissionais de saúde especializados em idosos. E há poucos recursos para o tratamento deles e abrigos de qualidade”, observa.

O Rio é a segunda capital com a maior proporção de idosos com mais de 60 anos do país, segundo o censo do IBGE de 2010. Segundo o levantamento, eles representam 14,89% da população residente na cidade. Neste item, o Rio fica atrás apenas de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, que tem 15,04%. O Estado do Rio é o oitavo do Brasil com maior expectativa de vida, com 75,2 anos.

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