Juiz compara funks 'proibidões' a músicas de Chico Buarque e polemiza

Denúncia do Ministério Público do Rio contra homem que cantava músicas que fazem apologia ao crime foi arquivada

Por O Dia

Rio - Uma denúncia do Ministério Público do Rio contra um homem que cantava músicas que fazem apologia ao crime foi arquivado, em decisão do último dia 1º de julho da 37ª Vara Criminal, do Tribunal de Justiça do Rio. Mas o que chama atenção são os argumentos usados na sentença do juiz Marcos Augusto Ramos Peixoto. Entre citações de filósofos, poetas e clássicos do cinema, ele compara os funks 'proibidões' a canções de Chico Buarque, que ele classifica como o "recordista" de 'proibidões".

"Na seara das canções, Chico Buarque foi um recordista de 'proibidões' a ponto de, por algum tempo, ter de passar a lançar músicas sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide de modo a tentar driblar os censores que, à simples imagem de seu nome lançado a uma composição proibiam a música ou retalhavam a letra ao ponto de restar incompreensível e, assim, impublicável", diz um trecho da sentença.

Segundo magistrado, Chico Buarque foi "recordista de proibidões"Ag. News

Ainda segundo o magistrado, o funk apenas trata do cotidiano de quem mora nas favelas cariocas. Tal censura, como ele classifica a proibição do gênero, é "uma tentativa de 'pacificação' do discurso dos excluídos - depois de terem invadidos e controlados seus territórios por Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs)."

"Trata-se de uma política de controle da voz dos excluídos, daqueles que não estão inseridos dentro do padrão cultural hegemônico (bonitinho, limpinho...) aceitável pelas maiorias", relata na decisão.

Ele diz ainda que as músicas apenas são o "retrato feio, cru, incômodo, brutal, afrontoso, explícito, constrangedor da violência real". O juiz afirma que o gênero não é causador da violência ou do crime e sim estes frutos da inspiração de quem o canta.

Na denúncia, o Ministério Público relata que, no dia 24 de dezembro de 2013, policiais avistaram o denunciado cantando músicas de funk 'proibidão'. Entre os trechos citados no processo estão "se o Playboy brotar na Vila vai tomar de parafal", "nós vamos dominar a Pedreira, vai virar peneira", e "vai morrer quem mandou mexer".

A professora da PUC, Larissa Costard, especialista em arte durante a ditadura, concorda com o juiz quando vê semelhança artística entre as músicas. “Os proibidões expressam a vivência das comunidades, assim como Chico expressou a resistência à ditadura.”

Procurado, o Ministério Público do Rio disse que ainda não foi notificado pela Vara Criminal da decisão. Somente após o recebimento do processo o órgão irá avaliar se vai recorrer ou não da sentença. 


Com informações de Athos Moura

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