Por felipe.martins

Rio - Há 22 anos, a Chacina da Candelária marcou, duplamente, a vida da servidora pública Patrícia Oliveira, de 41. Ela acompanhou, em choque, junto com o resto do país, o assassinato, por policiais militares, de oito meninos de rua, dentre os cerca de 50 jovens e adolescentes que dormiam em frente à igreja, sem imaginar que o próprio irmão seria um dos poucos sobreviventes do crime: Wagner dos Santos.

“Eu sabia que tinha um irmão, mas não podia imaginar que era ele. Só fiquei sabendo que era meu irmão na época do julgamento, uns três anos depois, quando ele deu uma entrevista contando que tinha perdido contato com as irmãs, mas descreveu um sinal que eu tenho na mão e os nossos apelidos”, conta Patrícia, que participou nesta quinta-feira, junto com familiares dos mortos e representantes de entidades de Direitos Humanos, de uma marcha no Centro do Rio em memória da tragédia.

Protesto lembrou os 22 anos da Chacina da Candelária. Em 23 de julho de 1993%2C oito jovens%2C sendo seis menores e dois maiores de idade%2C foram mortos por PMsAlexandre Vieira / Agência O Dia

Patrícia de Oliveira também se tornou militante de direitos humanos e diz que hoje em dia há maior possibilidade de denunciar os abusos de policiais. “Na década de 1990 não era assim. Mas o discurso de guerra às drogas piorou. A maior parte dos meninos é internado por tráfico. Faltam políticas públicas”, avalia Patrícia.

Também nesta quinta, ela engrossou o grupo que fez um protesto contra a PEC da redução da maioridade penal, aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados. À tarde, um debate reuniu autoridades que debateram a violência contra jovens.

Os atos em memória da chacina contaram com a presença do ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas. O ministro participou da missa e da caminhada. Para ele, a sociedade não aprendeu com a Chacina da Candelária. “Precisamos de grande mobilização da sociedade e envolvimento de todas as esferas do poder público para enfrentar essa questão”, ponderou.

O ministro reconheceu a dificuldade que os direitos civis, sociais e humanos encontram atualmente devido à tramitação de projetos no Congresso Nacional. Ele diz que o governo continua trabalhando para evitar a aprovação da redução da maioridade penal. “Precisamos construir uma cultura de direitos humanos e de respeito à integridade da pessoa humana, porque, infelizmente, isso ainda não aconteceu”, disse.

Sobrevivente passou fome e apanhou

Único sobrevivente da chacina, Wagner dos Santos e os quatro irmãos foram separados quando eram pequenos. Os pais tinham problema com alcoolismo. Sem condições de criar as crianças, a mãe entregou Patrícia e uma irmã para uma vizinha, que adotou as meninas. Um terceiro irmão também foi para adoção. Apenas Wagner e outra irmã ficaram com a mãe.

“Ele tinha uns cinco anos quando nossa mãe morreu atropelada junto com a outra irmã”, lembra Patrícia.Mas não por muito tempo. Sozinho, o menino foi morar com vizinhos. Não deu certo. Ele diz que passou fome e apanhava muito.

Das ruas do Rio para o exterior

Durante anos, Wagner passou de casa em casa na vizinhança até cair nas ruas e ir parar na antiga Funabem. Patrícia diz que na época da Chacina da Candelária o irmão já não vivia na rua. Estava com 21 anos e tinha ido a uma roda de samba em comemoração ao aniversário de uma psicóloga que atendia os meninos e havia decidido fazer uma festa na praça da igreja.

No fim da noite, Wagner conversava com os meninos quando um carro passou e o sequestrou junto com outros dois rapazes. Eles foram baleados dentro do automóvel e abandonados próximo ao Museu de Arte Moderna, o MAM, no Aterro do Flamengo. Wagner conseguiu sobreviver, apesar de o tiro tê-lo deixado cego de um olho. Ele conseguiu identificar quatro policiais no crime.

Um ano depois, sofreu novo atentado e pediu proteção. Foi quando Patrícia começou a tentar contato com o irmão. “Tentei encontrá-lo antes que deixasse o país. Ele já estava na Superintendência da Polícia Federal, mas não consegui passar. Ficamos um ano falando por telefone e só nos reencontramos em 1996”, diz Patrícia. Wagner Santos vive na Europa até hoje.

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