Jovens com síndrome de Down se superam e vão à luta por emprego

Consideradas deficientes intelectuais, essas pessoas mostram que são independentes para atuar no mercado de trabalho

Por O Dia

Rio - Guilherme Varella, de 28 anos, é mensageiro da Petrobras. Como um profissional exemplar, ele acorda às 5h30 para se arrumar para o dia de trabalho. Às 6h, ele pega o ônibus fretado da empresa, que o leva de Vargem Grande, onde mora, à Ilha do Fundão, local em que fica o Centro de Pesquisa (Cenpes) da estatal. Entra às 7h.

A rotina do rapaz seria banal se Guilherme não tivessem nascido com Síndrome de Down. “Tem dia que tem muito trabalho e tem dia que é pouco. Mas eu gosto de trabalhar muito”, garante ele que já está na petroleira há oito anos.

Guilherme%2C que trabalha no Cenpes%2C da Petrobras%2C é abraçado pelas amigas Ana Clara (à esquerda) e Denise (à direita) e pela namorada Karen Márcio Mercante / Agência O Dia

Consideradas deficientes intelectuais (DI), essas pessoas encontram grandes dificuldades na hora de encontrar um emprego. “Ainda há poucas oportunidades. Quando eles conseguem é dentro da cota. E as empresas preferem alguém que não seja DI”, diz Gloria Soares, 64 anos, mãe de Ana Clara, amiga de Guilherme, também com Down.

Ainda assim casos bem sucedidos como o de Guilherme mostram que é possível incluí-los na sociedade sem grande dificuldade. Segundo Maria Inês Varella, de 56 anos, mãe do mensageiro, eles se sentem muito felizes no trabalho, e o maior problema é ter alguém para ensiná-los novas funções. “Todos nós precisamos de uma pessoa que nos auxilie quando chegamos a um emprego novo. É esse alguém que não tem. Acho que nós, sociedade, ainda não sabemos lidar com eles”, avalia.

COLEGAS
Além de trabalhar, Guilherme malha cinco vezes por semana, faz teatro e ainda tem tempo para namorar Karen Viana, de 21 anos, cabeleireira, também com Down. Os dois estão bem apaixonados. “Nos conhecemos em uma festa junina. Ele terminou o namoro dele porque queria namorar comigo”, diz a menina.

O círculo de amizade dos dois é bem amplo. Karen é amiga de Rachel Canella, que como O DIA mostrou, na sexta, faz sucesso em um salão de cabeleireiros na Tijuca.

Na tarde de sábado, eles ainda se encontraram para um bate-papo com duas outras amigas, ambas com Down, Ana Clara, de 24 anos, que já trabalhou em uma agência de viagens, e Denise Ganimi, de 35, auxiliar administrativa no Campus Parque das Rosas da Estácio.

“Ainda sou artesã de tapeçaria, faço canto, dança e namoro há nove anos”, diz Denise, orgulhosa.
Ana Clara, que também namora, no momento não trabalha, mas participa do projeto Reunir, da Estácio, em que faz vários tipos de cursos. “Agora faço nutrição com gastronomia e cenografia. Já fiz teatro e fotografia. Faço tanta coisa...”

Gloria conta o que acha de ver a filha trabalhar. “Ela me disse que queria morar sozinha. Eu disse: ‘primeiro arranja um emprego e vai ganhar seu dinheiro.’ Acho que trabalho é uma etapa da vida. Todo mundo trabalha e eles não devem ser diferentes.”

Com Chico e Bethânia

A jornalista Fernanda Honorato, do Programa Especial da TV Brasil, é considerada pelo RankBrasil 2014 a primeira repórter com Down do país. A profissional conta que já entrevistou Maria Bethânia e até Chico Buarque. “Ele foi um amor de pessoa”, diz ela que ainda faz dança cigana e é madrinha de bateria da Embaixadores da Alegria.

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