'Isso não se faz nem com animal', diz mãe de ambulante atropelado por trem

Familiares de Adílio Cabral dos Santos prestaram depoimento na manhã desta sexta-feira, na delegacia de Madureira

Por O Dia

Rio - Atropelado por um trem na última terça-feira, após pular o muro da estação Madureira da SuperVia, Adílio Cabral dos Santos, de 33 anos, estava tentando dar um novo rumo a sua vida. Depois de cumprir pena por furto, ele trabalhava como vendedor ambulante e ajudava a mãe, Eunice Souza Feliciano, 61, com quem morava no Morro da Serrinha. Lutando contra um câncer, a aposentada, que esteve nesta sexta-feira na 29ªDP (Madureira) onde prestou depoimento, condenou a ação dos funcionários da concessionária.

Eunice Souza Feliciano%2C mãe de Adílio Cabral dos Santos%2C disse que o filho estava reconstruindo a vida após cumprir pena por furto. 'E vem essa tragédia'Severino Silva / Agência O Dia

"Eu acho vergonhoso um ser humano que deve ter família, com certeza, ver uma pessoa estendida, numa situação já horrível, chamar outro trem e o trem passar por cima. E pouco depois saber que foi o meu filho. Isso não se faz com ninguém, nem com animal. É um absurdo", diz.

Mãe de outros cinco filhos, Eunice revelou que era Adílio Cabral quem a ajudava em casa. "Ele estava tranquilo, ajudando, trabalhando, lutando para melhorar veio essa tragédia. Ele me ajudava em casa. Estou debilitada, em tratamento lutando contra um câncer horroroso", revelou.

Após ser atropelado, uma composição foi autorizada pela SuperVia a passar sobre o corpo de Adílio. Ao lado do filho Elcio Silvio Feliciano Júnior, de 38 anos, a aposentada, bastante emocionada, lembrou do momento em que descobriu que era seu filho que foi vítima de uma atrocidade.

"Foi horrível. A gente ficou estarrecido com a primeira reportagem que não deu o nome. A gente já estava angustiado com aquela situação. Um pouco depois já deram o nome dele. Se a gente sente com a dor dos outros, imagina a gente que está ali. Parece que a dor aumenta", diz.

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O irmão da vítima questionou a decisão dos funcionários da SuperVia. "Já tinha atropelado o rapaz. Pra que passar por cima? Essa é que foi a pior parte. Era só aguardar um pouco. Não trataram ele com respeito e nem com humanidade. Nem com cachorro a gente faz isso. Quando a gente vê um animal atropelado sai do carro, tira, ou desvia", diz.

A SuperVia declarou, na tarde de quinta-feira, que a decisão foi tomada para não atrasar o fluxo dos mais de 200 mil usuários do sistema ferroviário. A concessionária afirma que verificou, antes, que o trem era mais alto do que o corpo, e que, portanto, não seria violado. A empresa também alega que, a partir dessa constatação, e diante do risco de se criar um problema maior com a retenção de diversos trens, tomou a decisão, em caráter excepcional considerando que na linha havia três trens lotados (cerca de seis mil passageiros) aguardando para seguir viagem.

Adílio Cabral será sepultado nesta sexta, às 15h, no Cemitério de Irajá, na Zona Norte.

Reportagem de Vinícius Amparo

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