'Ela foi morta pelo sistema', diz filho de mulher assassinada em São Gonçalo

Polícia Civil trabalha com hipótese de latrocínio. Pelo menos 300 pessoas compareceram ao enterro

Por O Dia

Rio - O filho de Eliana Guerreiro Mascarenhas, 60 anos, assassinada a tiros de fuzil no bairro Amendoeira, em São Gonçalo, na noite de segunda-feira, fez um desabafo emocionado durante o enterro da mãe, na tarde desta terça, no Cemitério Parque da Paz, no Pacheco. "Minha mãe não foi executada. Ela foi assassinada pelo sistema, pelo poder público, pela sociedade", disse, entre lágrimas Marcelo Mascarenhas.

Eliana foi atingida por tiros de fuzil. Roberto permanece internado em estado gravíssimoReprodução

Cerca de 300 pessoas compareceram ao cortejo, entre elas o comandante do 7º BPM (São Gonçal), Almyr Cabral. O marido dela, Roberto dos Santos Melandre, de 56 anos, também foi atingido e está internado em estado gravíssimo no Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Pelo menos 39 tiros de armas de três calibres atingiram o veículo em que o casal estava, dez deles no parabrisa. Segundo Marcelo, a mãe trabalhava como representante comercial em uma empresa francesa e seu padastro (Roberto) estava aposentado como advogado há 15 anos.

A Polícia Militar investiga se o casal, que trafegava na Rua Felipe Mascarenhas, foi pego em uma guerra de traficantes de duas facções rivais, das favelas Anaía e Jardim Miriambi. Os criminosos estariam trocando tiros entre si quando o carro em que o casal estava passou pela via e foi atingido. Agentes da Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) realizam nesta terça-feira buscas por testemunhas e câmeras de segurança para tentar identificar os autores do crime. O delegado Fábio Barucke, da DHNSGI, informou que a hipótese mais provável é o latrocínio (roubo seguido de morte).

Tentativas de assalto na mesma região

Na porta da hospital, onde Roberto Melandre segue internado, Marcelo Mascarenhas, filho de Eliana, revelou sofreu duas tentativas de assalto na região em pouco tempo. "Tentaram me assaltar duas vezes, mas graças a Deus não aconteceu nada comigo. A gente mora no bairro há mais de 40 anos e nunca aconteceu isso. Mas, é o sistema que cada vez mais está acuando a população dentro de casa", diz.

Ele criticou a política de segurança pública do Rio de Janeiro: "A segurança pública maquiou o Rio de Janeiro para a Copa do Mundo, Olimpíadas e esqueceu o restante da população. E a vida segue. É mais uma vítima da impunidade", afirma.

O carro do casal Eliana Guerreiro Mascarenhas e Roberto dos Santos Melandre foi atingido por 39 tiros na noite de segunda-feira%2C em São Gonçalo. Ela não resistiu e morreuReprodução / TV Globo

Marcelo Mascarenhas revelou que a família estava fazendo planos para deixar o Rio de Janeiro com medo da violência. "Já estávamos conversando a respeito e tomando algumas decisões para poder sair daqui porque não está dando para sobreviver no Rio. A gente fica no meio de um fogo cruzado", afirma.

Segundo informações do 7ºBPM (São Gonçalo), as vítimas quando passaram por um grupo de aproximadamente dez bandidos em três carros e duas motos. Eles atiraram contra o veículo e fugiram sem levar nenhum pertence das vítimas. "Fiquei sabendo que ela estava descendo para pegar uma amiga num posto de gasolina e passou um bonde de bandidos e metralharam o carro", finaliza Marcelo Mascarenha.

Trabalho de enxugar gelo da polícia

A morte de Eliana Guerreiro Mascarenhas, de 60 anos, fuzilada quando passava com o marido, Roberto dos Santos Melandre, de 56 anos, por favelas de São Gonçalo expõe o trabalho de enxugar gelo da polícia. O batalhão da cidade (7º BPM) recebeu prêmio no primeiro semestre por queda em praticamente todos os índices de violência. Somente nos últimos quatro meses, as prisões em flagrante e as apreensões de drogas subiram 34%.

Eliana%2C que morreu na hora%2C foi enterrada ontem. “Ela foi executada pelo sistema”%2C disse o filho%2C Marcelo. Seu padrasto está internado em estado gravíssimoOswaldo Praddo / Agência O DIA

"Ocorre que, por mais que o trabalho seja eficiente, o tráfico de drogas não vai acabar e não vamos conseguir prender e desarmar os criminosos sem uma política de fronteiras. As armas e drogas entram como em uma peneira. É como falar em despoluir a Baía de Guanabara recolhendo os sofás, mas não impedindo que outro sofá seja jogado lá", avalia o sociólogo ex-oficial da PM, Paulo Storani.

O comandante do 7 BPM, na época da queda da violência, coronel Fernando Salema foi transferido para o 12º BPM (Niterói) após o bom resultado. A cidade vizinha sofre alta na criminalidade. Na época da premiação, Salema computava os resultados. “Foram 56 casos a menos de letalidade violenta e 1.190 casos de roubo de rua a menos. O roubo de veículos diminuiu em quase 650 ocorrências. Números astronômicos".

Colaborou Flávio Araújo

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