Estudo revela abismo social entre cidades do estado

Pesquisa do Ipea aponta desigualdade em índices que passam pela escolaridade, coleta de lixo e mobilidade

Por O Dia

Rio - Evolução nacional no que diz respeito à infraestrutura urbana, ao capital humano e renda e ao trabalho. É o que aponta o Atlas da Vulnerabilidade Social, divulgado nesta terça-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base nos dados do último censo demográfico brasileiro, realizado em 2010, pelo IBGE. No comparativo com o ano 2000, quando foi realizado o levantamento anterior, o Brasil progrediu 27% em serviços, na luta contra a desigualdade social.

No Estado do Rio, um retrato dos contrastes que assolam todo o país: separadas por 74 quilômetros, as cidades de Volta Redonda e Japeri mostram um abismo que vai desde os percentuais das populações abrangidas pela coleta de lixo, passa pela escolaridade média e pode ser medida pela diferença de tempo com que moradores de Cidade do Aço e do terminal de trem mais distante da capital demoram para chegar aos postos de trabalho.

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Pela metodologia escolhida, o índice varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo do 1, maior é a taxa de vulnerabilidade social do município e mais carente ele é de investimentos. Entre as duas pontas da estatística em solo fluminense, enquanto Volta Redonda ostentava índice de 0,030 na taxa de coleta de lixo em 2010, Japeri mostrava número dez vezes maior da população sem limpeza urbana ideal, com 0,300.

Como O DIA mostrou em junho, as agruras dos moradores da Baixada na linha férrea são responsáveis pelo pior índice do país, quando se fala em mobilidade: 1,000, com mais de uma hora para se chegar ao trabalho, em média. No Sul Fluminense; 0,297 indicam a proximidade da maior parte da população com seus postos. O saneamento básico de excelência em Volta Redonda, com 0,002, e deficitário em Japeri, com 0,092, também evidenciam a disparidade.

Cidade do Rio não está bem no ranking

Na sede da Olimpíada, bolsões de desigualdade ainda podem ser vistos lado a lado com áreas nobres. No entanto, há melhora no alcance de serviços. Com índices gerais que cravavam 0,359 em 2000, em 2010 foi constatado avanço para 0,290. No período, a taxa de renda e trabalho saltou de 0,324 a 0,203 na Cidade Maravilhosa. Melhora de 37% acima da média nacional.

Dançarino na primeira amostragem e gestor de uma ONG na segunda, Charles Siqueira é retrato disso. Ele, que vê da sua casa, no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, confirma a desigualdade mas comemora os serviços aos quais teve acesso na década. “Saneamento, transportes e aumento de remuneração”, enumera.

De acordo com o Ipea, a demora de cinco anos para a divulgação dos índices se dá pelo período de três anos necessário para tabulação completa do censo de 2010. Entre o cruzamento de informações de divulgação da pesquisa foram necessários mais dois anos.

Especialistas divergem na interpretação dos índices no quadro atual, de crise internacional e freio nos investimentos. Para o sociólogo da UFRJ Paulo Baía, a redução nos investimentos em infraestrutura (como mobilidade urbana e saneamento) pode acarretar um efeito imediato em outras políticas públicas, como saúde e frequência escolar.

“Se prolongado, pode haver um efeito dominó e reverter a mitigação das diferenças sociais que vêm ocorrendo nos últimos 25 anos”, diz o especialista. 

Igor Pantoja, professor de Gestão Pública da mesma universidade, diz que os índices divulgados mostram melhoria significativa nos serviços e se refletem nos Índices de Desenvolvimento Humano.

“De imediato, a crise não acarreta mudanças significativas. Mas, no longo prazo, é possível que haja uma retração”, acredita.

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